Jo 7

From Biblia: Os Quatro Evangelhos e os Salmos
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V
PEREGRINAÇÃO PARA
A FESTA DAS TENDAS E FESTA DA DEDICAÇÃO DO TEMPLO (7,1-10,42)


Festa das Tendas (7,1-10,21)


Falta de fé dos familiares de Jesus – 1Depois disto, Jesus andava pela Galileia. Não queria andar pela Judeia, porque os judeus procuravam matá-lo.

2Ora, estava próxima a festa dos judeus, a festa das Tendas[1]. 3Disseram-lhe, por isso, os seus irmãos: «Parte daqui e vai para a Judeia, para que também os teus discípulos vejam as obras que Tu realizas. 4Pois ninguém faz nada em segredo quando procura ser publicamente conhecido. Se fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo!». 5Nem os seus irmãos acreditavam nele. 6Disse-lhes, então, Jesus: «O meu tempo[2] ainda não chegou; o vosso tempo, porém, está sempre pronto! 7O mundo não vos pode odiar; a mim, porém, odeia-me, porque Eu dou testemunho acerca dele: as suas obras são más. 8Subi vós para a festa; Eu não subo para esta festa, porque o meu tempo ainda não se cumpriu». 9Tendo Ele dito isto, permaneceu na Galileia.


Jesus peregrina em segredo – 10Contudo, quando os seus irmãos subiram para a festa, então também Ele subiu, não abertamente, mas quase em segredo[3]. 11Ora, os judeus procuravam-no durante a festa e diziam: «Onde está Ele?». 12E entre as multidões havia uma grande murmuração acerca dele; uns diziam: «Ele é bom!», mas outros diziam: «Não! Pelo contrário, engana a multidão». 13No entanto, ninguém falava publicamente acerca dele, por medo dos judeus.


Ainda o sábado e a cura do doente de Betzatá – 14Já a festa ia a meio, quando Jesus subiu ao templo e começou a ensinar. 15Admiravam-se, então, os judeus e diziam: «Como é que este conhece as letras sem ter estudado?»[4]. 16Respondeu-lhes Jesus e disse: «O meu ensinamento não é meu, mas daquele que me enviou. 17Se alguém quiser fazer a vontade dele, saberá se este ensinamento é de Deus ou se Eu falo por mim mesmo. 18Quem fala por si mesmo, procura a sua própria glória; mas quem procura a glória daquele que o enviou, esse é verdadeiro e nele não há injustiça.

19Não vos deu Moisés a Lei? E nenhum de vós cumpre a Lei! Porque procurais matar-me?». 20Respondeu a multidão: «Tens um demónio! Quem é que te procura matar?». 21Respondeu Jesus e disse-lhes: «Realizei uma só obra[5], e todos vos admirais. 22Por isso Moisés vos deu a circuncisão – não que ela venha de Moisés, mas dos Patriarcas –, e vós circuncidais um homem ao sábado. 23Se um homem recebe a circuncisão ao sábado para que não seja quebrada a Lei de Moisés, porque vos irritais comigo por ao sábado ter posto um homem inteiramente são? 24Não julgueis pela aparência; pelo contrário, julgai com um julgamento justo».


Discussão sobre a origem de Jesus25Diziam, então, alguns dos habitantes[6] de Jerusalém: «Não é este aquele que procuram matar? 26E eis que fala publicamente e nada lhe dizem! Terão os chefes, na verdade, reconhecido que este é o Cristo? 27Mas este sabemos de onde é; o Cristo, porém, quando vier, ninguém saberá de onde é».

28Então Jesus, ao ensinar no templo, clamou, dizendo: «Conheceis-me e sabeis de onde sou! Porém, não vim de mim mesmo; mas é verdadeiro aquele que me enviou, que vós não conheceis. 29Eu conheço-o, porque dele[7] sou e foi Ele que me enviou».

30Procuravam, então, prendê-lo, mas ninguém lhe pôs a mão em cima, porque ainda não chegara a sua hora[8]. 31Da multidão, porém, muitos acreditaram nele e diziam: «Será que o Cristo, quando vier, realizará sinais maiores do que aqueles que este tem realizado?».


Anúncio da morte e ressurreição – 32Os fariseus ouviram a multidão a murmurar estas coisas acerca dele, e os chefes dos sacerdotes e os fariseus enviaram guardas para que o prendessem.

33Disse-lhes, então, Jesus: «Por pouco tempo ainda estou convosco; parto para aquele que me enviou. 34Procurar-me-eis e não me encontrareis; e aonde Eu estou, vós não podeis ir». 35Disseram, então, os judeus entre si: «Para onde estará este prestes a ir, que nós não o possamos encontrar? Será que está prestes a ir para a diáspora dos gregos, ensinar os gregos[9]? 36Que palavra é esta que nos disse: "Procurar-me-eis e não me encontrareis" e: "Aonde Eu estou, vós não podeis ir"?».


Anúncio do dom da água viva: o Espírito Santo – 37No último dia, o mais importante da festa, Jesus pôs-se de pé e clamou, dizendo: «Se alguém tem sede, venha a mim; e beba 38quem acredita em mim. Como diz a Escritura: Do seu ventre brotarão rios de água viva»[10]. 39Disse isto acerca do Espírito, que estavam prestes a receber os que nele acreditaram; de facto, ainda não havia Espírito[11], porque Jesus não fora ainda glorificado.


Nova discussão sobre a origem e natureza de Jesus – 40Ao ouvirem estas palavras, alguns de entre a multidão diziam: «Este é verdadeiramente o Profeta». 41Outros diziam: «Este é o Cristo». Outros, porém, diziam: «Será que o Cristo vem da Galileia? 42Não disse a Escritura que o Cristo vem da descendência de David e de Belém, povoação de onde era David?»[12]. 43Surgiu, assim, uma divisão entre a multidão por causa dele. 44Alguns deles queriam prendê-lo, mas ninguém lhe pôs as mãos em cima.

45Os guardas foram, então, ter com os chefes dos sacerdotes e com os fariseus, e estes disseram-lhes: «Por que razão não o trouxestes?». 46Responderam os guardas: «Jamais homem algum falou assim!». 47Responderam-lhes os fariseus: «Será que também vós fostes enganados? 48Porventura algum dos chefes, ou dos fariseus, acreditou nele? 49Mas esta multidão, que não conhece a Lei: são uns malditos!». 50Disse-lhes Nicodemos, aquele que antes tinha ido ter com Ele e que era um deles: 51«Será que a nossa Lei julga um homem sem antes o ouvir e saber o que faz?». 52Responderam e disseram-lhe: «Será que também tu és da Galileia? Investiga e verás que da Galileia não surge nenhum profeta». 53E foi cada um para sua casa[13].



  1. Festa de peregrinação, para agradecer as últimas colheitas e, mais tarde, a proteção divina na passagem pelo deserto, centrada na aliança (cf. Ne 8). Durante a festa, o povo dormia em tendas (como no deserto) e as celebrações estavam dominadas por dois ritos: 1) o da água, com procissões diárias à piscina de Siloé, de onde os sacerdotes levavam água para derramar em libação no altar do templo, em memória da que Deus fizera brotar da rocha de Meribá (Ex 17,1ss); 2) o da luz, com grandes luminárias acendidas no templo, em memória da nuvem luminosa que guiara Israel pelo deserto (Ex 13,21). O rito da água adquiriu também um significado messiânico e escatológico (Is 12,3; 55,1; Ez 36,25-27; 47,1-12): quando vier o Messias, todos os povos acorrerão ao templo (Ag 2,1-7; Zc 14,16), onde, de uma fonte aberta, sairá uma água viva (Zc 14,8ss) que lavará Jerusalém de todo o pecado. É neste contexto que Jesus se apresenta como o dador da água viva (7,37-39; cf. 2,19-22; 19,34) e a luz do mundo (8,12). No episódio do cego de nascença (9,1ss), que se inicia precisamente na piscina de Siloé, os dois elementos, água e luz, estão presentes: nas águas do Enviado (Jesus) o cego recebe a luz (física e, sobretudo, espiritual).
  2. Tradução de kairós (tempo favorável, momento oportuno), diferente de khrónos (tempo cronológico).
  3. Na próxima peregrinação, a da Páscoa de regresso ao Pai, fá-lo-á abertamente (cf. 12,12ss; 16,25).
  4. Isto é, frequentado uma escola rabínica.
  5. Refere-se à cura do doente, narrada em 5,1ss.
  6. Habitantes é acrescento da tradução.
  7. A preposição grega pará indica aqui proveniência.
  8. É a hora da morte e ressurreição de Jesus, a acontecer conforme o projeto de Deus e a vontade de Jesus (8,20; 12,27; 13,1; 16,25; 17,1).
  9. Diáspora refere-se à dispersão dos judeus (de raça ou por conversão) no estrangeiro.
  10. Confluência de referências bíblicas (Is 48,21; Ez 37,1; Zc 14,8). Este texto é uma crux clássica; conforme a pontuação, assim se interpreta de quem é o ventre a que se refere o texto: daquele que acredita em Jesus (...venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura...) ou de Jesus (o texto apresentado). O contexto imediato e alargado faz perceber que é de Jesus que a água – o Espírito Santo – brotará (19,34). Já à samaritana Jesus anunciara esta água viva como um dom que Ele oferecerá (4,10-11). No entanto, é possível que a ambiguidade seja propositada: uma vez recebido, de Jesus, o Espírito Santo torna-se, no crente, uma nascente de onde constantemente jorra a vida divina. Sobre o significado da água nesta festa, cf. 7,2 nota.
  11. No sentido em que o Espírito ainda não fora dado, como se lê em alguns mss..
  12. 2Sm 7,12-16; Mq 5,1.
  13. 7,53-8,11 não se encontra na maioria dos mss. gregos, nas antigas versões e nos Padres da Igreja. O estilo é mais lucano que joanino, pelo que alguns autores defendem que se situaria a seguir a Lc 21,38. Mas é inquestionável o seu valor canónico e tradicional.




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