Lc 4

From Biblia: Os Quatro Evangelhos e os Salmos
Jump to: navigation, search

Tentações de Jesus (Mt 4,1-11; Mc 1,12s) – 1Jesus, cheio do Espírito Santo[1], voltou do Jordão e era conduzido no Espírito pelo deserto, 2sendo tentado pelo Diabo durante quarenta dias[2]. Não comeu nada nesses dias e, quando eles terminaram, sentiu fome. 3Disse-lhe o Diabo[3]: «Se és Filho de Deus, diz a esta pedra que se torne pão». 4Respondeu-lhe Jesus: «Está escrito: nem só de pão viverá o homem»[4].

5Então, elevando-o, o Diabo mostrou-lhe, num instante, todos os reinos do mundo habitado. 6Disse-lhe o Diabo: «Dar-te-ei todo este poderio e a glória deles, porque me foi entregue e o dou a quem eu quiser. 7Se tu me adorares[5], tudo será teu». 8Respondendo, Jesus disse-lhe: «Está escrito: o Senhor, teu Deus, adorarás e a Ele prestarás culto»[6].

9Conduziu-o, então, a Jerusalém, colocou-o sobre o pináculo do templo e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, 10pois está escrito:

aos seus anjos dará ordens a teu respeito

para que te guardem

11e ainda: nas mãos te levarão,

não aconteça que tropece numa pedra o teu pé».

12Em resposta, Jesus disse-lhe: «Está dito: Não tentarás o Senhor teu Deus»[7].

13Tendo terminado toda a tentação, o Diabo afastou-se dele até certo tempo[8].


III
Jesus inicia a sua pregação na Galileia
(4,14-9,50)


Jesus começa a ensinar (Mt 4,12.17; Mc 1,14s) – 14Jesus voltou no poder do Espírito para a Galileia, e a sua fama espalhou-se por todos os arredores. 15E Ele ensinava nas suas sinagogas, sendo glorificado por todos.


Jesus na sinagoga de Nazaré: missão e rejeição (Mt 13,53-58; Mc 6,1-6) – 16Foi a Nazaré, onde fora criado, e, segundo o seu costume, entrou em dia de Sábado na sinagoga e levantou-se para ler. 17Foi-lhe dado o livro do profeta Isaías. Desenrolando-o, encontrou a passagem onde estava escrito:

18O Espírito do Senhor está sobre mim,

porque me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres,

enviou-me a proclamar aos

prisioneiros a libertação

e aos cegos a recuperação da vista,

a mandar em liberdade

os oprimidos,

19a proclamar um ano favorável do Senhor [9].

20Depois de enrolar o livro e de o devolver ao ajudante, sentou-se. Os olhos de todos na sinagoga estavam fixos nele. 21Começou, então, a dizer-lhes: «Hoje[10] aos vossos ouvidos cumpriu-se esta escritura».

22E todos davam testemunho acerca dele, admiravam-se com as palavras de graça que saíam da sua boca e diziam: «Não é este o filho de José?». 23Disse-lhes, então: «Certamente me direis este provérbio[11]: "Médico, cura-te a ti mesmo". O que ouvimos dizer que aconteceu em Cafarnaum, fá-lo também aqui na tua terra natal»[12]. 24E disse: «Amen vos digo: nenhum profeta é aceite[13] na sua terra natal. 25Mas em verdade vos digo: havia muitas viúvas em Israel nos dias de Elias[14], quando o céu se fechou por três anos e seis meses, e houve uma grande fome em toda a terra. 26E a nenhuma delas foi mandado Elias, a não ser a Sarepta de Sídon, a uma mulher viúva. 27Havia muitos leprosos em Israel no tempo do profeta Eliseu[15], e nenhum deles foi purificado, a não ser Naamã, o sírio».

28Todos se encheram de ira na sinagoga ao ouvir isto 29e, levantando-se, expulsaram-no para fora da cidade. Levaram-no até ao cimo do monte em que a cidade estava edificada para lançá-lo dali abaixo. 30Mas Ele, passando pelo meio deles, seguiu adiante[16].


Na sinagoga de Cafarnaum. Cura de um endemoniado (Mc 1,21-28) – 31Desceu para Cafarnaum, cidade da Galileia, e ensinava-os ao sábado. 32Estavam perplexos com o seu ensinamento, porque a sua palavra tinha autoridade[17].

33Ora, na sinagoga estava um homem que tinha um espírito de demónio impuro e gritou com voz forte: 34«Ah! Que há entre nós e ti, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir? Sei quem Tu és: O santo de Deus». 35Jesus repreendeu-o severamente, dizendo: «Cala-te e sai dele». E o demónio, atirando-o para o meio, saiu dele sem lhe fazer mal algum.

36Surgiu em todos o espanto e conversavam uns com os outros, dizendo: «Que palavra é esta que, com autoridade e poder, dá ordens aos espíritos impuros e eles saem?». 37E a sua fama divulgava-se por todos os lugares dos arredores.


Cura da sogra de Pedro (Mt 8,14s; Mc 1,29-31) – 38Tendo deixado a sinagoga, entrou na casa de Simão. Ora, a sogra de Simão[18] estava tomada por uma grande febre, e intercederam por ela junto dele[19]. 39Debruçando-se sobre ela, repreendeu severamente a febre, e esta deixou-a. Ela, levantando-se imediatamente, começou a servi-los.


Curas e exorcismos (Mt 8,16; Mc 1,32-34) – 40Quando se pôs o sol, todos os que tinham enfermos de várias doenças conduziam-nos a Ele; e Ele, impondo as mãos a cada um deles, curava-os. 41E também de muitos saíam demónios, que gritavam e diziam: «Tu és o filho de Deus». Repreendendo-os severamente, não lhes permitia que falassem, porque sabiam que Ele era o Cristo.


Jesus sai para um lugar deserto (Mc 1,35-39) – 42Quando se fez dia, saindo, foi para um lugar deserto. As multidões procuravam-no; foram até Ele e tentavam retê-lo para que não se afastasse deles. 43Mas Ele disse-lhes: «É necessário que eu anuncie a boa nova do reino de Deus também às outras cidades, porque para isso fui enviado». 44E ia proclamando nas sinagogas da Judeia[20].



  1. É evidente a dupla referência ao Espírito recebido no batismo. Com ele, Jesus vai vencer as tentações e dar início à sua missão (4,14.18).
  2. Lc une Mc 1,13 (tentação durante os quarenta dias) com Mt 4,2 (três tentações ao fim de quarenta dias). O número quarenta designa, na Escritura, uma geração (1Sm 13,1), o tempo que Moisés passou na montanha (Ex 24,18), a caminhada de Elias (1Rs 19,8) e o tempo que Israel vagueou pelo deserto, antes de entrar na Terra Prometida (Js 5,6).
  3. O nome Diabo (do grego diábolos: aquele que divide) é o mais frequente para designar o inimigo de Deus e do seu reino. O tentador retoma a palavra divina, pronunciada aquando do batismo (3,22: Tu és o meu filho amado...), pondo em relação a tentação com a teofania batismal.
  4. Dt 8,3 e Mt 4,4.
  5. Lit.: se te ajoelhares diante de mim.
  6. A prostração e a adoração remetem para a submissão total. Contudo, segundo Dt 6,13, aqui citado, só a Deus se deve adorar e servir; adorar é o mesmo verbo ajoelhar do v. 7 (proskynéō), estando Satanás a tentá-lo e a tentar que Jesus o reconheça como Deus.
  7. Sl 91,11-12.
  8. Esta é a primeira vitória de Jesus sobre o Diabo. Outras vão acontecer em 4,41; 6,18; 7,21; 8,2; 10,17-18. A última será em 22,3.53, já no cenário da paixão. A primeira vitória é sinal da última.
  9. Lc conjuga, nestes dois vv., a citação de Is 61,1-2a e 42,7, cortando intencionalmente a parte final: o dia da vingança da parte do nosso Deus (Is 61 2b). O ano da graça ou ano favorável é o ano jubilar, celebrado em Israel de cinquenta em cinquenta anos (Lv 25,8-17).
  10. É Lc quem mais destaca a atualidade da salvação (2,11; 5,26; 13,32; 19,9; 23,43).
  11. Em grego parabolḗ.
  12. Apesar de não ter nascido lá, Nazaré é vista como a terra de origem de Jesus, pois foi aí que ele cresceu. Com base no passado, Jesus prevê a rejeição futura do seu povo.
  13. Dektós, o mesmo termo do v. 19 (traduzido por favorável).
  14. Cf. 1Rs 17,1-24; 18,1; Tg 5,17.
  15. Cf. 2Rs 5,1-15.
  16. Ninguém pode deter o caminho de Jesus, que só terminará em Jerusalém (13,33).
  17. Lit.: e na autoridade a sua palavra existia. Lc mostra a autoridade de Jesus, mediante os ensinamentos (v. 32) e exorcismos (v. 36).
  18. É a primeira referência a Simão, que seguirá Jesus a partir de 5,1-11.
  19. Lit.: pediram-lhe por ela.
  20. Judeia. Alguns mss. e também Mc 1,39 usam a palavra Galileia. Sendo o país dos judeus genericamente conhecido como Judeia, Lc usa esta terminologia no sentido de país e não de região.



Capítulos

Lc 1 Lc 2 Lc 3 Lc 4 Lc 5 Lc 6 Lc 7 Lc 8 Lc 9 Lc 10 Lc 11 Lc 12 Lc 13 Lc 14 Lc 15 Lc 16 Lc 17 Lc 18 Lc 19 Lc 20 Lc 21 Lc 22 Lc 23 Lc 24