Lc 2
2 Nascimento de Jesus – 1Ora aconteceu que, naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto[1] para ser recenseado todo o mundo habitado. 2Este primeiro recenseamento realizou-se quando Quirino[2] era governador da Síria.
3E todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. 4Também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, para a Judeia, para a cidade de David[3], que se chamava Belém, por ele ser da casa e da linhagem de David, 5a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que estava grávida.
6Mas aconteceu que, enquanto ali estavam, cumpriram-se os dias de ela dar à luz. 7E deu à luz o seu Filho primogénito, envolveu-o em panos e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria[4].
8Estavam na mesma região uns pastores[5] que pernoitavam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite. 9Apresentou-se-lhes, então, um anjo do Senhor, e a glória do Senhor[6] envolveu-os de luz, e tiveram um grande medo. 10Disse-lhes o anjo: «Não tenhais medo! Eis que vos anuncio uma boa nova, que será uma grande alegria para todo o povo: 11nasceu-vos hoje, na cidade de David, um salvador[7] que é Cristo Senhor. 12E isto será para vós o sinal: encontrareis uma criança envolta em panos e deitada numa manjedoura».
13E de imediato juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste que louvava Deus, dizendo:
14«Glória a Deus nas alturas
e paz[8] na terra
entre os homens de boa vontade[9]».
15E aconteceu que, quando os anjos se afastaram deles para o céu, os pastores diziam uns aos outros: «Vamos até Belém, vejamos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer». 16Foram, então, com pressa e encontraram Maria, José e a criança deitada na manjedoura. 17Ao vê-los, deram a conhecer o que lhes tinha sido dito[10] acerca daquele menino. 18E todos os que ouviam se admiravam com o que lhes era dito pelos pastores.
19Maria, porém, conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração. 20E os pastores regressaram, glorificando[11] e louvando Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, tal como lhes fora dito.
21Quando se cumpriram os oito dias para o circuncidar, foi chamado com o nome Jesus, o que fora dado pelo anjo antes de ter sido concebido no ventre materno[12].
Apresentação de Jesus no templo e cântico de Simeão – 22Quando se cumpriram os dias da purificação deles[13], segundo a Lei de Moisés, levaram-no[14] a Jerusalém para o apresentar ao Senhor, 23como está escrito na Lei do Senhor: Todo o primogénito macho será consagrado ao Senhor[15], 24e para oferecer um sacrifício segundo o que está dito na Lei do Senhor: um par de rolas ou duas pequenas pombas[16].
25Ora, eis que havia em Jerusalém um homem cujo nome era Simeão, um homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava sobre ele[17]. 26Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que não veria a morte antes de ver o Cristo do Senhor. 27E veio ao templo movido pelo Espírito[18]. Quando os pais trouxeram o menino Jesus, para com Ele procederem segundo o costume da Lei, 28Simeão[19] acolheu-o nos braços, bendisse a Deus e disse:
29«Agora, Senhor, podes deixar partir
em paz o teu servo segundo a tua palavra[20],
30porque os meus olhos viram a tua salvação
31que preparaste diante de todos os povos:
32luz para revelação aos pagãos
e glória do teu povo, Israel».
33O seu pai e a mãe estavam admirados com o que estava a ser dito sobre Ele. 34Então Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua mãe[21]: «Eis que Ele está aqui para a queda e o ressurgir de muitos em Israel e para ser um sinal de contradição – 35e uma espada trespassará a tua própria alma – a fim de se revelarem os pensamentos de muitos corações».
36Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Asser. Era de idade muito avançada[22], tinha vivido com o marido sete anos, desde a sua virgindade, 37e viúva até aos oitenta e quatro anos. Não se afastava do templo, prestando culto noite e dia com jejuns e orações. 38Tendo chegado naquela hora, agradecia a Deus e falava acerca dele a todos os que esperavam a redenção[23] de Jerusalém.
39Quando cumpriram tudo segundo a Lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré. 40O menino crescia e fortalecia-se, enchendo-se de sabedoria, e a graça de Deus estava sobre Ele.
Jesus entre os doutores, no templo – 41Os seus pais iam todos os anos a Jerusalém[24] para a festa da Páscoa 42e, quando fez doze anos[25], eles subiram até lá segundo o costume da festa. 43E, completados os dias, quando regressavam a casa, o menino[26] Jesus ficou em Jerusalém sem que os seus pais soubessem. 44Pensando que Ele estava na caravana, percorreram um dia de caminho e procuravam-no entre os parentes e os conhecidos. 45Não o tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura.
46E aconteceu que, três dias depois, o encontraram no templo, sentado no meio dos mestres, a ouvi-los e a interrogá-los. 47Todos os que o ouviam estavam espantados com a sua inteligência e as suas respostas.
48Ao vê-lo, ficaram perplexos, e sua mãe disse-lhe: «Filho, porque nos fizeste isto? Eis que teu pai e eu estávamos aflitos à tua procura». 49Ele disse-lhes, então: «Porque me procuráveis? Não sabíeis que é necessário[27] que Eu esteja na casa de meu Pai?»[28]. 50Mas eles não entenderam o que[29] lhes disse.
51Desceu, então, com eles, foi para Nazaré e era-lhes submisso. Sua mãe conservava todas estas palavras no seu coração. 52E Jesus crescia em sabedoria, em idade e em graça, junto de Deus e dos homens[30].
3 João, o Batista (Mt 3,1-12; Mc 1,1-8) – 1No décimo quinto ano do reinado de Tibério César[31], quando Pôncio Pilatos governava a Judeia e Herodes era tetrarca[32] da Galileia, Filipe, seu irmão, era tetrarca das regiões da Itureia e da Traconítide, e Lisânias era tetrarca de Abilene, 2sendo sumo-sacerdote Anás[33] e Caifás, a palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto.
3E ele percorreu toda a região à volta do Jordão a proclamar um batismo de conversão para perdão dos pecados, 4como está escrito no livro das palavras do profeta Isaías[34]:
Uma voz clama, no deserto:
"Preparai o caminho do Senhor,
endireitai as suas veredas.
5Todo o vale será preenchido
e todo o monte e colina serão abatidos;
o que é sinuoso tornar-se-á direito
e os caminhos pedregosos tornar-se-ão planos,
6e toda a carne[35] verá a salvação de Deus".
7Dizia, então, às multidões que acorriam para serem batizadas por ele: «Geração de víboras, quem vos mostrou como fugir da ira que está prestes a chegar? 8Produzi frutos dignos da conversão; e não comeceis a dizer entre vós: "Temos por pai Abraão", pois digo-vos que Deus é capaz de fazer surgir destas pedras filhos de Abraão. 9O machado já está à raiz das árvores, e toda a árvore que não dá bom fruto será cortada e lançada ao fogo».
10As multidões interrogavam-no, dizendo[36]: «Que devemos fazer, então?». 11Respondendo, dizia-lhes: «Quem tem duas túnicas distribua por quem não tem, e quem tem comida faça o mesmo».
12Vieram também os publicanos para serem batizados e disseram-lhe: «Mestre, que devemos fazer?». 13Ele respondeu-lhes: «Não exijais mais do que vos foi estabelecido».
14Também os soldados o interrogavam, dizendo: «E nós, que devemos fazer?». Disse-lhes: «Não exturcais nem denuncieis falsamente ninguém, e contentai-vos com os vossos salários».
15Estando o povo na expectativa e pensando todos nos seus corações se João não seria o Cristo[37], 16João respondeu, dizendo a todos: «Eu batizo-vos na água[38], mas vem aquele que é mais forte[39] do que eu, ao qual eu não sou digno de desatar a correia das suas sandálias: Ele batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo[40]. 17Tem a pá na sua mão para limpar a sua eira e recolher o trigo para o seu celeiro, e queimará a palha num fogo que não se apaga». 18E com muitas outras exortações anunciava ao povo a boa nova.
Prisão de João (Mt 14,3s; Mc 6,17s) – 19O tetrarca Herodes, que era repreendido por ele por causa de Herodíade[41], a mulher de seu irmão, e por todas as maldades que havia cometido, 20a todas essas acrescentou esta: encerrou João na prisão[42].
Batismo de Jesus (Mt 3,13-17; Mc 1,9-11) – 21Aconteceu que, ao ser batizado todo o povo, tendo também Jesus sido batizado[43] e estando a rezar, abriu-se o céu, 22e desceu sobre Ele o Espírito Santo em figura corpórea, como uma pomba. E do céu surgiu uma voz: «Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo».
Origem humana de Jesus. Genealogia (Mt 1,1-17) – 23Quando Jesus iniciou o seu ministério[44], tinha cerca de trinta anos[45], sendo filho – assim se pensava – de José, filho de Elí, 24filho de Matát, de Leví, de Melquí, de Janai, de José, 25de Matatias, de Amós, de Naúm, de Eslí, de Nagai, 26de Maat, de Matatias, de Simei, de Josec, de Jodá, 27de Joanan, de Ressa, de Zorobabel, de Salatiel, de Nerí, 28de Melquí, de Adí, de Cosám, de Elmadám, de Er, 29de Jesua, de Eliézer, de Jorím, de Matát, de Leví, 30de Simeão, de Judá, de José, de Jonám, de Eliaquim, 31de Meleá, de Mená, de Matatá, de Natán, de David, 32de Jessé, de Obed, de Boóz, de Salá, de Nachon, 33de Aminadab, de Admín, de Arní, de Hesrón, de Peres, de Judá, 34de Jacob, de Isaac, de Abraão, de Téra, de Naor, 35de Serug, de Reú, de Péleg, de Éber, de Chéla, 36de Quenán, de Arpacsad, de Seme, de Noé, de Lamec, 37de Matusalém, de Henóc, de Jaréd, de Malaliel, de Quenán, de Enós, de Set, de Adão, de Deus.
4 Tentações de Jesus (Mt 4,1-11; Mc 1,12s) – 1Jesus, cheio do Espírito Santo[46], voltou do Jordão e era conduzido no Espírito pelo deserto, 2sendo tentado pelo Diabo durante quarenta dias[47]. Não comeu nada nesses dias e, quando eles terminaram, sentiu fome. 3Disse-lhe o Diabo[48]: «Se és Filho de Deus, diz a esta pedra que se torne pão». 4Respondeu-lhe Jesus: «Está escrito: nem só de pão viverá o homem»[49].
5Então, elevando-o, o Diabo mostrou-lhe, num instante, todos os reinos do mundo habitado. 6Disse-lhe o Diabo: «Dar-te-ei todo este poderio e a glória deles, porque me foi entregue e o dou a quem eu quiser. 7Se tu me adorares[50], tudo será teu». 8Respondendo, Jesus disse-lhe: «Está escrito: o Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto»[51].
9Conduziu-o, então, a Jerusalém, colocou-o sobre o pináculo do templo e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, 10pois está escrito:
aos seus anjos dará ordens a teu respeito
para que te guardem
11e ainda: nas mãos te levarão,
não aconteça que tropece numa pedra o teu pé».
12Em resposta, Jesus disse-lhe: «Está dito: Não tentarás o Senhor teu Deus»[52].
13Tendo terminado toda a tentação, o Diabo afastou-se dele até certo tempo[53].
Jesus começa a ensinar (Mt 4,12.17; Mc 1,14s) – 14Jesus voltou no poder do Espírito para a Galileia, e a sua fama espalhou-se por todos os arredores. 15E Ele ensinava nas suas sinagogas, sendo glorificado por todos.
Jesus na sinagoga de Nazaré: missão e rejeição (Mt 13,53-58; Mc 6,1-6) – 16Foi a Nazaré, onde fora criado, e, segundo o seu costume, entrou em dia de Sábado na sinagoga e levantou-se para ler. 17Foi-lhe dado o livro do profeta Isaías. Desenrolando-o, encontrou a passagem onde estava escrito:
18O Espírito do Senhor está sobre mim,
porque me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres,
enviou-me a proclamar aos
prisioneiros a libertação
e aos cegos a recuperação da vista,
a mandar em liberdade
os oprimidos,
19a proclamar um ano favorável do Senhor [54].
20Depois de enrolar o livro e de o devolver ao ajudante, sentou-se. Os olhos de todos na sinagoga estavam fixos nele. 21Começou, então, a dizer-lhes: «Hoje[55] aos vossos ouvidos cumpriu-se esta escritura».
22E todos davam testemunho acerca dele, admiravam-se com as palavras de graça que saíam da sua boca e diziam: «Não é este o filho de José?». 23Disse-lhes, então: «Certamente me direis este provérbio[56]: "Médico, cura-te a ti mesmo". O que ouvimos dizer que aconteceu em Cafarnaum, fá-lo também aqui na tua terra natal»[57]. 24E disse: «Amen vos digo: nenhum profeta é aceite[58] na sua terra natal. 25Mas em verdade vos digo: havia muitas viúvas em Israel nos dias de Elias[59], quando o céu se fechou por três anos e seis meses, e houve uma grande fome em toda a terra. 26E a nenhuma delas foi mandado Elias, a não ser a Sarepta de Sídon, a uma mulher viúva. 27Havia muitos leprosos em Israel no tempo do profeta Eliseu[60], e nenhum deles foi purificado, a não ser Naamã, o sírio».
28Todos se encheram de ira na sinagoga ao ouvir isto 29e, levantando-se, expulsaram-no para fora da cidade. Levaram-no até ao cimo do monte em que a cidade estava edificada para lançá-lo dali abaixo. 30Mas Ele, passando pelo meio deles, seguiu adiante[61].
Na sinagoga de Cafarnaum. Cura de um endemoniado (Mc 1,21-28) – 31Desceu para Cafarnaum, cidade da Galileia, e ensinava-os ao sábado. 32Estavam perplexos com o seu ensinamento, porque a sua palavra tinha autoridade[62].
33Ora, na sinagoga estava um homem que tinha um espírito de demónio impuro e gritou com voz forte: 34«Ah! Que há entre nós e ti, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir? Sei quem Tu és: O santo de Deus». 35Jesus repreendeu-o severamente, dizendo: «Cala-te e sai dele». E o demónio, atirando-o para o meio, saiu dele sem lhe fazer mal algum.
36Surgiu em todos o espanto e conversavam uns com os outros, dizendo: «Que palavra é esta que, com autoridade e poder, dá ordens aos espíritos impuros e eles saem?». 37E a sua fama divulgava-se por todos os lugares dos arredores.
Cura da sogra de Pedro (Mt 8,14s; Mc 1,29-31) – 38Tendo deixado a sinagoga, entrou na casa de Simão. Ora, a sogra de Simão[63] estava tomada por uma grande febre, e intercederam por ela junto dele[64]. 39Debruçando-se sobre ela, repreendeu severamente a febre, e esta deixou-a. Ela, levantando-se imediatamente, começou a servi-los.
Curas e exorcismos (Mt 8,16; Mc 1,32-34) – 40Quando se pôs o sol, todos os que tinham enfermos de várias doenças conduziam-nos a Ele; e Ele, impondo as mãos a cada um deles, curava-os. 41E também de muitos saíam demónios, que gritavam e diziam: «Tu és o filho de Deus». Repreendendo-os severamente, não lhes permitia que falassem, porque sabiam que Ele era o Cristo.
Jesus sai para um lugar deserto (Mc 1,35-39) – 42Quando se fez dia, saindo, foi para um lugar deserto. As multidões procuravam-no; foram até Ele e tentavam retê-lo para que não se afastasse deles. 43Mas Ele disse-lhes: «É necessário que eu anuncie a boa nova do reino de Deus também às outras cidades, porque para isso fui enviado». 44E ia proclamando nas sinagogas da Judeia[65].
5 Pesca abundante e chamamento dos discípulos (Mt 4,18-22; Mc 1,16-20) – 1E aconteceu que, enquanto a multidão se comprimia à sua volta para ouvir a palavra de Deus, Ele estava de pé junto ao Lago de Genesaré[66] 2e viu dois barcos que se encontravam junto ao lago. Tendo descido deles, os pescadores lavavam as redes. 3Ao entrar, então, num dos barcos, o que era de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra; e, sentando-se, ensinava do barco as multidões.
4Quando acabou de falar, disse a Simão: «Afasta-te para águas profundas[67] e lançai as vossas redes para a pesca». 5Respondendo, Simão disse: «Mestre[68], toda a noite nos afadigámos e não apanhámos nada, mas perante a tua palavra lançarei as redes». 6Feito isto, apanharam uma enorme quantidade de peixes e as suas redes estavam a romper-se. 7Fizeram, então, sinal aos companheiros que estavam no outro barco para que viessem ajudá-los. Eles vieram e encheram ambos os barcos, de tal modo que se estavam a afundar.
8Ao ver isto, Simão Pedro[69] prostrou-se aos joelhos de Jesus, dizendo: «Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador». 9De facto, o espanto tomou conta dele e de todos os que estavam com ele, por causa da captura dos peixes que tinham feito. 10O mesmo aconteceu a Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão.
Disse, então, Jesus a Simão[70]: «Não tenhas medo! A partir de agora serás pescador de homens». 11E, depois de conduzirem os barcos para terra, deixando tudo seguiram-no.
Purificação e cura de um leproso (Mt 8,2-4; Mc 1,40-45) – 12E aconteceu que, quando Ele estava numa das cidades, eis que um homem cheio de lepra[71], ao ver Jesus, caiu com o rosto por terra e implorou-lhe, dizendo: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me». 13Estendendo a mão, Ele tocou-lhe, dizendo: «Quero: fica purificado!». E imediatamente a lepra o deixou. 14Ele ordenou-lhe que a ninguém o dissesse: «Mas vai mostrar-te ao sacerdote e faz uma oferenda pela tua purificação, tal como Moisés prescreveu, como testemunho para eles»[72].
15A sua fama difundia-se cada vez mais, e numerosas multidões reuniam-se para o ouvir e serem curadas das suas enfermidades. 16Ele, porém, afastava-se para os desertos e rezava.
Perdão e cura de um paralítico (Mt 9,1-8; Mc 2,1-12) – 17E aconteceu que, num dos dias em que Jesus ensinava, estavam sentados uns fariseus e mestres da Lei, que tinham vindo de todas as povoações da Galileia, da Judeia e de Jerusalém[73]. O poder do Senhor estava com Ele para curar. 18E eis que uns homens, que traziam um paralítico num catre, procuravam fazê-lo entrar e colocá-lo diante dele. 19Mas, como não encontravam modo de o fazer entrar por causa da multidão, subindo ao terraço, desceram-no com o catre através das telhas, para o meio, diante de Jesus.
20Ao ver a fé deles, disse: «Homem, os teus pecados estão-te perdoados». 21Os doutores da lei e os fariseus começaram a discutir entre si, dizendo: «Quem é este que diz blasfémias? Quem pode perdoar pecados, senão Deus somente?». 22Mas Jesus, ao perceber os seus pensamentos, respondendo disse-lhes: «Que pensais nos vossos corações? 23O que é mais fácil: dizer "Os teus pecados estão-te perdoados" ou dizer "Levanta-te e anda?". 24Mas, para que saibais que o Filho do Homem tem, sobre a terra, autoridade para perdoar os pecados» – disse Ele ao paralítico – «Eu te digo: levanta-te, toma o teu catre e vai para a tua casa».
25Levantando-se subitamente diante deles, tomou o catre onde estava deitado e foi para a sua casa, glorificando Deus. 26Um assombro apoderou-se de todos; glorificavam Deus e, cheios de medo, diziam: «Hoje vimos coisas incríveis!».
Chamamento de Levi. Os publicanos e pecadores (Mt 9,9-13; Mc 2,13-17) – 27Depois disto, saiu, viu um publicano de seu nome Levi[74], sentado no posto de cobrança de impostos, e disse-lhe: «Segue-me». 28E ele, deixando tudo, levantando-se, seguiu-o.
29Levi fez-lhe, então, um grande banquete na sua casa. Estava lá uma numerosa multidão de publicanos, e outros que estavam reclinados com eles à mesa. 30Os fariseus e os seus doutores da lei murmuravam contra os discípulos dele, dizendo: «Por que razão comeis e bebeis com os publicanos e pecadores?». 31E, respondendo, Jesus disse-lhes: «Não são os que estão saudáveis que precisam de médico, mas os que têm algum mal. 32Não vim chamar à conversão os justos, mas os pecadores».
O jejum (Mt 9,14-17; Mc 2,18-22) – 33Eles, porém, disseram-lhe: «Os discípulos de João jejuam com frequência e fazem orações, tal como os dos fariseus, mas os teus comem e bebem». 34Jesus disse-lhes: «Podereis fazer com que os convidados da boda[75] jejuem enquanto o noivo está com eles? 35Mas dias virão em que o noivo lhes será tirado; então naqueles dias hão de jejuar».
O velho e o novo (Mc 2,21s; Mt 9,16s) – 36Dizia-lhes também uma parábola: «Ninguém põe um remendo rasgado de uma veste nova numa veste velha. De outro modo, rasgar-se-á também o novo, e ao velho de nada servirá o remendo tirado do novo. 37E ninguém deita vinho novo em odres velhos. De outro modo, o vinho novo romperá os odres, será derramado, e os odres ficarão destruídos. 38Deve deitar-se vinho novo em odres novos. 39E ninguém, ao beber o velho, quer o novo, pois diz: "o velho é que é bom!"»[76].
6 Espigas arrancadas ao sábado (Mt 12,1-8; Mc 2,23-28) – 1Ora aconteceu que, a um sábado, ao atravessar Ele umas searas, os seus discípulos colhiam e comiam espigas, debulhando-as com as mãos. 2Então alguns dos fariseus disseram: «Porque fazeis o que não é permitido ao sábado?». 3Respondendo, disse-lhes Jesus: «Mas não lestes isto, o que fez David quando sentiu fome, ele e os que estavam com ele? 4Como entrou na casa de Deus e, tomando os pães da oferenda[77], que não era permitido comer senão aos sacerdotes, comeu e deu-os aos que estavam com ele?». 5E dizia-lhes: «O Filho do Homem é senhor do sábado».
Cura ao sábado (Mt 12,9-14; Mc 3,1-6) – 6Aconteceu que, num outro sábado, Ele entrou na sinagoga e começou a ensinar. Estava lá um homem que tinha a sua mão direita paralisada[78]. 7Os doutores da lei e os fariseus observavam-no para verem se ia curar ao sábado, a fim de encontrarem forma de o acusar. 8Ele, porém, conhecendo os seus pensamentos, disse ao homem que tinha a mão paralisada: «Levanta-te e põe-te no meio». E ele, levantando-se, pôs-se de pé. 9Disse-lhes Jesus: «Pergunto-vos se é permitido ao sábado fazer bem ou fazer mal, salvar uma vida ou destruí-la?». 10E, olhando-os a todos em redor, disse-lhe: «Estende a tua mão». Ele assim fez, e a sua mão ficou recuperada.
11Eles, porém, encheram-se de fúria e começaram a discutir entre si o que poderiam fazer a Jesus.
Eleição dos Doze (Mt 10,1-4; Mc 3,13-19) – 12E aconteceu que, naqueles dias, Ele saiu para o monte para rezar[79] e passou a noite em oração a Deus. 13Quando surgiu o dia, chamou a si os seus discípulos e escolheu doze de entre eles, aos quais também chamou apóstolos: 14Simão a quem chamou Pedro[80], André seu irmão, Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, 15Mateus, Tomé, Tiago filho de Alfeu, Simão chamado zelote[81], 16Judas filho de Tiago, e Judas Iscariotes[82], que se tornou traidor.
As multidões acorrem (Mt 4,23-25; 12,15s; Mc 3,7-12) – 17Ao descer com eles, parou num lugar plano juntamente com uma numerosa multidão de discípulos seus, e de muito povo de toda a Judeia e Jerusalém, do litoral de Tiro e de Sídon, 18que vieram para o ouvir e serem curados, das suas doenças. Os atormentados por espíritos impuros eram curados, 19e toda a multidão procurava tocar-lhe, porque saía dele um poder e a todos curava.
Bem-aventuranças e imprecações (Mt 5,3-12) – 20Então Ele, erguendo os olhos para os seus discípulos, dizia:
«Felizes os pobres, porque é vosso o reino de Deus.
21Felizes vós que agora tendes fome[83], porque haveis de ser saciados.
Felizes vós que agora chorais, porque haveis de rir.
22Felizes sois quando os homens vos odiarem, quando vos rejeitarem, insultarem e proscreverem o vosso nome como infame por causa do Filho do Homem. 23Alegrai-vos nesse dia e exultai[84]; eis que a vossa recompensa é grande no céu. Pois o mesmo faziam os seus pais aos profetas.
24Mas ai de vós, os ricos, porque já recebestes a vossa consolação[85]!
25Ai de vós, os que estais agora saciados, porque haveis de ter fome[86]!
Ai de vós, os que agora rides, porque vos haveis de lamentar e chorar!
26Ai de vós, quando todos os homens disserem bem de vós!
Pois o mesmo faziam os seus pais aos falsos profetas».
Amor aos inimigos (Mt 5,38-48) – 27«Mas digo-vos a vós que ouvis: amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam. 28Bendizei os que vos amaldiçoam, rezai pelos que vos maltratam. 29Ao que te bate numa face, oferece também a outra, e ao que te leva a capa não impeças que leve também a túnica. 30Dá a todo aquele que te pede, e a quem tirar o que é teu não peças de volta. 31E, tal como quereis que os homens vos façam, fazei-lhes de igual modo. 32Se amais os que vos amam, que graça mereceis? Também os pecadores amam quem os ama. 33E, se fizerdes bem a quem vos faz bem, que graça mereceis? É que também os pecadores o fazem. 34E, se emprestardes àqueles de quem esperais receber, que graça mereceis? Também os pecadores emprestam aos pecadores, a fim de receberem o mesmo.
35Pelo contrário, amai os vossos inimigos, fazei o bem, emprestai sem nada esperar de volta: a vossa recompensa será grande, e sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é generoso para com os ingratos e os maus».
Não julgueis (Mt 7,1-5) – 36«Tornai-vos misericordiosos[87], tal como também o vosso Pai é misericordioso. 37Não julgueis e jamais sereis julgados, não condeneis e jamais sereis condenados[88], perdoai e sereis perdoados. 38Dai e ser-vos-á dado: uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante ser-vos-á dada no regaço, pois com a medida com que medirdes sereis medidos».
39Disse-lhes também uma parábola: «Poderá um cego guiar outro cego? Não cairão ambos numa cova? 40Um discípulo não está acima do mestre, mas todo o que ficou bem preparado será como o seu mestre. 41Porque vês o cisco que está no olho do teu irmão e não reparas na trave que está no teu próprio olho? 42Como podes dizer ao teu irmão: "Irmão, deixa que tire o cisco que está no teu olho", e não vês a trave que está no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então verás com clareza para tirar o cisco que está no olho do teu irmão».
A árvore boa (Mt 7,16-21; 12,33-35) – 43«Não há árvore boa que dê fruto que não presta nem árvore que não presta que dê bom fruto. 44De facto, cada árvore se conhece pelo seu próprio fruto: não se apanham figos dos espinhos, nem se colhem uvas das silvas. 45O homem bom, do bom tesouro do coração, extrai o bem, e o mau, do mau tesouro do coração, extrai o mal[89]: é da abundância do coração que a sua boca fala».
A casa sobre a rocha (Mt 7,24-27) – 46«Porque me chamais "Senhor, Senhor" e não fazeis o que digo? 47Todo aquele que vem a mim, ouve as minhas palavras e as põe em prática, mostrar-vos-ei a quem ele é semelhante. 48É semelhante a um homem que edifica uma casa: escavou, aprofundou e colocou o alicerce sobre a rocha. Quando veio uma inundação e a torrente irrompeu contra aquela casa, não foi capaz de a abalar, por estar bem edificada. 49Mas o que ouve e não põe em prática é semelhante a um homem que edificou uma casa sobre a terra, sem alicerce. A torrente irrompeu contra ela, imediatamente desabou, e foi grande a ruína daquela casa».
7 Cura do servo do centurião (Mt 8,5-13; Jo 4,46-53) – 1Quando acabou de dizer todas estas suas palavras aos ouvidos do povo, entrou em Cafarnaum.
2Ora, um certo centurião[90] tinha um servo que muito estimava, mas, porque tinha um mal, estava prestes a morrer. 3Tendo ouvido falar de Jesus, enviou-lhe uns anciãos dos judeus, pedindo-lhe que viesse salvar o seu servo. 4Ao aproximar-se de Jesus, eles suplicavam-lhe encarecidamente, dizendo: «Ele é digno que lhe faças isto, 5pois ama o nosso povo, e a sinagoga foi ele que no-la edificou».
6Jesus foi com eles. Quando Ele já não estava longe da casa, o centurião enviou uns amigos, dizendo-lhe: «Senhor, não te incomodes, pois não sou digno de que entres debaixo do meu teto. 7Por isso, nem sequer me considerei digno de ir ter contigo. Mas diz uma palavra, e o meu servo será curado. 8É que também eu sou um homem sujeito à autoridade, tendo soldados às minhas ordens; e digo a um: "Vai", e ele vai; a outro: "Vem", e ele vem; e ao meu servo: "Faz isto" e ele faz».
9Ao ouvir isto, Jesus ficou admirado com ele e, voltando-se para a multidão que O seguia, disse: «Digo-vos que nem em Israel encontrei uma tal fé».
10E quando voltaram para casa, os que tinham sido enviados encontraram o servo com saúde.
Ressurreição do filho de uma viúva, em Naim – 11E aconteceu que, logo de seguida, foi para uma cidade chamada Naim. Acompanhavam-no os seus discípulos e uma numerosa multidão.
12Quando se aproximou da porta da cidade, eis que um defunto era levado a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva. Com ela estava uma considerável multidão da cidade. 13Ao vê-la, o Senhor[91] compadeceu-se profundamente dela e disse-lhe: «Não chores». 14E, aproximando-se, tocou no caixão[92]. Os que o transportavam pararam, e Ele disse: «Jovem, Eu te digo: levanta-te[93]!». 15O morto sentou-se e começou a falar, e Jesus[94] entregou-o à sua mãe[95].
16O medo apoderou-se de todos, e glorificavam Deus, dizendo: «Um grande profeta surgiu entre nós!», e: «Deus visitou o seu povo!». 17Esta notícia acerca dele espalhou-se na Judeia inteira e por todos os arredores.
Embaixada de João Baptista a Jesus (Mt 11,2-6) – <spanstyle="color:red">18Os discípulos de João anunciaram-lhe tudo isto. E João, chamando a si dois dos seus discípulos, 19enviou-os ao Senhor, dizendo: «És Tu o que está para vir ou havemos de esperar outro?». 20Ao chegarem junto de Jesus, os homens disseram: «João Batista enviou-nos a ti, dizendo: "És Tu o que está para vir[96] ou havemos de esperar outro?"».
21Naquela hora Jesus curou muitos das suas doenças, tormentos e espíritos malignos, e a muitos cegos concedeu a graça de ver. 22Então, respondendo, disse-lhes:
«Ide anunciar a João o que vedes e ouvis: os cegos voltam a ver, os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, aos pobres é anunciada a boa nova. 23E feliz é aquele que não encontrar em mim motivo de escândalo»[97].
Juízo de Jesus sobre João Batista (Mt 11,7-19) – 24Depois de os mensageiros de João terem partido, Ele começou a falar às multidões acerca de João: «Que fostes observar no deserto? Uma cana agitada pelo vento? 25Mas que fostes ver? Um homem vestido com vestes finas? Eis que aqueles que usam vestes gloriosas e luxuosas estão nos palácios reais. 26Mas, então, que fostes ver? Um profeta? Sim, digo-vos, e mais que profeta. 27É acerca dele que está escrito:
Eis que envio o meu mensageiro à tua frente, que há de preparar o teu caminho diante de ti[98].
28Digo-vos: entre os nascidos de mulher ninguém é maior que João; mas o mais pequeno no reino de Deus é maior que ele».
29Todo o povo que ouviu, assim como os publicanos, reconheceram a justiça de Deus, ao serem batizados com o batismo de João. 30Mas os fariseus e os entendidos na lei recusaram o desígnio de Deus para si, ao não serem batizados por ele.
31«A quem, pois, hei de comparar os homens desta geração, a quem são semelhantes? 32São semelhantes às crianças sentadas na praça pública que se interpelam umas às outras, dizendo:
"Tocámos flauta para vós e não dançastes,
entoámos lamentações e não chorastes."
33Veio João Batista, que não come pão nem bebe vinho, e dizeis: "Tem um demónio". 34Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizeis: "Eis um homem comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores". 35Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos»[99].
Unção de Jesus por uma pecadora (Mt 26,6-13; Mc 14,13-9; Jo 12,3-8) – 36Ora, um dos fariseus pedia a Jesus[100] que comesse consigo[101]. Tendo entrado em casa do fariseu, reclinou-se à mesa. 37Eis que havia na cidade uma certa mulher pecadora que, ao saber que Ele estava reclinado à mesa na casa do fariseu, trouxe um frasco de alabastro com bálsamo, e 38colocou-se atrás, junto aos seus pés. A chorar, começou a banhar-lhe os pés com as lágrimas e secou-os com os cabelos da sua cabeça; beijava-lhe repetidamente os pés e ungia-os com o bálsamo[102].
39Ao ver isto, o fariseu que o tinha convidado[103] disse para consigo: «Este, se fosse profeta, saberia quem e de que género é a mulher que lhe toca, porque é uma pecadora».
40Respondendo, Jesus disse-lhe: «Simão, tenho algo a dizer-te». «Diz, Mestre» – disse ele. 41«Um credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários[104], e o outro cinquenta. 42Não tendo eles com que pagar, perdoou a ambos. Ora qual deles o amará mais?». 43Respondendo, Simão disse: «Aquele, suponho, a quem mais perdoou». Disse-lhe Jesus: «Julgaste bem». 44E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei na tua casa e não me deste água para os pés[105]; ela, porém, banhou os meus pés com lágrimas e secou-os com os seus cabelos. 45Não me deste um beijo; ela, porém, desde que entrei, não parou de beijar-me repetidamente os pés. 46Não me ungiste a cabeça com azeite; ela, porém, com bálsamo ungiu os meus pés. 47Graças a isso te digo: estão perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou. Mas a quem pouco se perdoa, pouco ama». 48E disse à mulher[106]: «Estão perdoados os teus pecados».
49Os que estavam com Ele reclinados à mesa começaram a dizer entre si: «Quem é este que até pecados perdoa?». 50Mas Ele disse à mulher: «A tua fé te salvou. Vai em paz».
8 As discípulas de Jesus – 1E aconteceu que, de seguida, Ele percorria cada cidade e povoação proclamando e anunciando a boa nova do reino de Deus. Iam com Ele os Doze 2e algumas mulheres que tinham sido curadas de espíritos malignos e enfermidades: Maria chamada Madalena[107], da qual tinham saído sete demónios, 3e Joana mulher de Cusa, administrador de Herodes, Susana e muitas outras que os serviam com os seus bens.
Parábola do semeador (Mt 13,1-9; Mc 4,1-9) – 4Estando reunida uma numerosa multidão e acorrendo a Ele gentes de cada cidade, disse por meio de uma parábola[108]: 5«Saiu o semeador a semear a sua semente. E ao semeá-la, uma parte caiu junto ao caminho: foi calcada, e as aves do céu devoraram-na. 6Outra parte caiu sobre a rocha: ao brotar, secou por não ter humidade. 7Outra parte caiu no meio dos espinhos: os espinhos brotaram com ela e sufocaram-na. 8Outra parte caiu em terra boa: brotou e deu fruto cem vezes mais». E, ao dizer isto, exclamava: «Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!».
Porque fala Jesus em parábolas (Mt 13,10-17; Mc 4,10-12) – 9Perguntavam-lhe os seus discípulos que parábola seria aquela. 10Ele disse: «A vós foi dado conhecer os mistérios do reino de Deus, mas aos outros em parábolas, para que vendo, não vejam, e ouvindo, não entendam»[109].
Explicação da parábola (Mt 13,18-23; Mc 4,13-20) – 11«A parábola é esta: a semente é a palavra de Deus. 12Os que estão junto ao caminho são os que ouvem, mas logo vem o Diabo e arranca a palavra do seu coração, para que, acreditando, não se salvem. 13Os que estão sobre a rocha são aqueles que, quando ouvem, acolhem a palavra com alegria; mas estes, como não têm raiz, por algum tempo acreditam e, no tempo da provação, perdem-se. 14A parte que caiu entre os espinhos, estes são os que ouvem, mas, ao caminhar, são sufocados pelos cuidados, pelas riquezas e pelos prazeres da vida, e não chegam a dar fruto. 15A parte que cai em terra boa, estes são os que, ouvindo a palavra com um coração nobre e bom[110], a guardam e dão fruto com perseverança».
Parábola da candeia (Mc 4,21-25) – 16«Ninguém, ao acender uma candeia, a esconde com um vaso ou a coloca debaixo de uma cama; pelo contrário, coloca-a sobre um candelabro para que os que entram vejam a luz. 17Porque nada há escondido que não se torne manifesto, nem secreto que não seja conhecido e venha a ser manifesto. 18Tomai cuidado, então, como ouvis! Pois àquele que tem ser-lhe-á dado, e àquele que não tem, até o que julga ter lhe será tirado».
A verdadeira família de Jesus (Mt 12,46-50; Mc 3,31-35) – 19Vieram ter com Ele a sua mãe e os seus irmãos, mas não conseguiam chegar junto dele por causa da multidão. 20Anunciaram-lhe, então: «A tua mãe e os teus irmãos estão lá fora e querem ver-te». <spanstyle="color:red">21Ele, porém, em resposta disse-lhes: «A minha mãe e os meus irmãos são estes: os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática»[111].
A tempestade acalmada (Mt 8,18.23-27; Mc 4,35-41) – 22Aconteceu que, num daqueles dias, Ele subiu com os seus discípulos para um barco e disse-lhes: «Atravessemos para a outra margem do lago»[112]; e partiram. 23Enquanto navegavam, Ele adormeceu. Abateu-se, então, uma tempestade de vento sobre o lago; eles estavam a ficar inundados e corriam perigo. 24Aproximando-se, acordaram-no, dizendo: «Mestre, mestre, estamos a morrer!». Ele, acordando, repreendeu severamente o vento e as ondas[113], que amainaram, e fez-se bonança. 25Disse-lhes, então: «Onde está a vossa fé?». Cheios de temor, admiraram-se, dizendo uns aos outros: «Quem é este que até aos ventos e à água dá ordens, e eles obedecem-lhe?».
Cura do endemoniado de Gérasa (Mt 8,28-34; Mc 5,1-20) – 26Navegaram, então, até à região dos gerasenos[114], que está defronte da Galileia. 27Quando Ele saiu para terra veio ao seu encontro um homem da cidade, que tinha demónios e que há muito tempo não vestia roupa, e morava não em casa, mas nos sepulcros. 28Ao ver Jesus, pôs-se a gritar, caiu diante dele e disse com voz forte: «Que há entre mim e ti, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Peço-te que não me atormentes». <spanstyle="color:red">29De facto, Jesus tinha ordenado ao espírito impuro que saísse do homem, pois há muito tempo o espírito se apoderara dele; e estava amarrado com correntes e preso com grilhões, mas ele, quebrando as cadeias, era empurrado pelo demónio para os desertos[115].
30Jesus interrogou-o: «Qual é o teu nome?». Ele disse: «Legião», porque tinham entrado nele muitos demónios. 31Suplicavam-lhe que não os mandasse ir para o abismo. 32Ora, estava ali uma vara de bastantes porcos[116] a pastar no monte. Suplicaram-lhe que lhes permitisse entrar neles, e Ele permitiu-lhes. 33Ao saírem do homem, os demónios entraram nos porcos; a vara lançou-se pelo precipício para o lago e afogou-se.
34Ao ver o que tinha acontecido, os que apascentavam fugiram e foram anunciá-lo para a cidade e para os campos. 35Saíram, então, para ver o que tinha acontecido e foram ter com Jesus. Encontraram o homem do qual tinham saído os demónios, sentado, vestido e de perfeito juízo junto aos pés de Jesus[117], e ficaram com medo. 36Os que tinham visto anunciaram-lhes como o endemoniado fora salvo[118]. 37Então toda a gente da região dos Gerasenos lhe pediu que se afastasse deles, porque estavam tomados por um grande medo. E Ele, subindo para um barco, regressou.
38O homem, do qual tinham saído os demónios, pedia-lhe para ficar com Ele, mas Jesus mandou-o embora, dizendo: 39«Regressa para tua casa e conta o quanto Deus te fez». Então ele partiu, proclamando por toda a cidade o quanto Jesus lhe fizera.
Cura da mulher que sofria de hemorragias e ressurreição da filha de Jairo (Mt 9,18-26; Mc 5,21-43) – 40Quando Jesus regressou, a multidão recebeu-o, pois todos o esperavam. 41E eis que veio um homem, de nome Jairo, que era chefe da sinagoga. Caindo a seus pés, suplicava-lhe que entrasse na sua casa, 42porque tinha uma filha única, com cerca de doze anos, que estava a morrer. Enquanto Ele se dirigia para lá, as multidões quase o sufocavam.
43Entretanto, uma mulher que tinha um fluxo de sangue havia doze anos e tinha gasto todos os seus bens com os médicos, mas não pudera ser curada por nenhum, 44aproximou-se por trás[119], tocou na franja da sua veste e subitamente o seu fluxo de sangue parou. 45Então Jesus disse: «Quem me tocou?». Como todos negavam, Pedro[120] disse: «Mestre, as multidões comprimem-te e apertam-te». 46Mas Jesus disse: «Alguém me tocou, pois Eu percebi que um poder[121] saía de mim». 47A mulher, vendo que não passara despercebida, veio e, a tremer, caiu diante dele; e, perante todo o povo, anunciou a razão pela qual lhe tinha tocado e como ficara subitamente curada. 48Ele disse-lhe: «Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz».
49Ainda Ele falava, e veio alguém da casa do chefe da sinagoga, dizendo: «A tua filha está morta. Não incomodes mais o Mestre». 50Mas Jesus, ouvindo, respondeu-lhe: «Não tenhas medo! Acredita apenas, e ela será salva».
51Ao chegar à casa, não deixou que ninguém entrasse com Ele, a não ser Pedro, João e Tiago[122], e o pai e a mãe da menina. 52Todos choravam e batiam no peito[123] por causa dela. Ele, porém, disse: «Não choreis, pois ela não morreu, mas está a dormir». 53E riam-se dele, sabendo que estava morta. 54Ele, porém, agarrando-lhe a mão, chamou dizendo: «Menina, levanta-te». 55O espírito dela voltou, e ela levantou-se subitamente. Ele ordenou, então, que lhe dessem de comer. 56Os seus pais ficaram espantados, mas Ele recomendou-lhes que a ninguém dissessem o que tinha acontecido[124].
9 Missão dos Doze (Mt 10,1.5-14; Mc 6,7-13) – 1Tendo convocado os Doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demónios e para curar doenças. 2Enviou-os a proclamar o reino de Deus e a curar os doentes 3e disse-lhes: «Não leveis nada para o caminho: nem bastão, nem bolsa, nem pão, nem dinheiro[125]; e não tenhais sequer duas túnicas. 4Na casa em que entrardes, permanecei lá até de lá sairdes. 5Quanto aos que não vos acolherem, ao sairdes dessa cidade sacudi o pó dos vossos pés[126] como testemunho contra eles».
6Então, tendo saído, atravessavam as povoações, anunciando a boa nova e curando por toda a parte.
Dúvidas de Herodes sobre Jesus (Mt 14,1s; Mc 6,14-16) – 7O tetrarca Herodes, porém, ouviu falar de tudo o que estava a acontecer e andava perplexo por causa do que era dito: por alguns, que João tinha ressuscitado dos mortos; <spanstyle="color:red">8por outros, que Elias tinha aparecido[127]; e, por outros ainda, que um profeta dos antigos tinha ressuscitado. 9Mas Herodes disse: «A João, eu o decapitei; mas quem é este do qual ouço tais coisas?». E procurava vê-lo.
Multiplicação dos pães e dos peixes (Mt 14,13-21; Mc 6,30-44; Jo 6,1-13) – 10Quando voltaram, os apóstolos contaram-lhe tudo o que tinham feito. Tomando-os consigo, retirou-se a sós para uma cidade chamada Betsaida. 11As multidões, porém, quando o souberam, seguiram-no. E Ele, acolhendo-as, falava-lhes do reino de Deus e curava os que tinham necessidade de cuidados.
12O dia começou a declinar. Os Doze, indo ter com Ele, disseram-lhe: «Manda embora a multidão, para irem às povoações e campos em redor encontrar alojamento e comida, porque aqui estamos num lugar deserto». 13Mas Ele disse-lhes: «Dai-lhes vós de comer». Eles disseram: «Não temos mais do que cinco pães e dois peixes. A não ser que vamos nós comprar alimentos para todo este povo». 14Eram, de facto, cerca de cinco mil homens[128].
Disse, então, aos seus discípulos: «Fazei-os reclinar-se em grupos de cinquenta». 15Assim fizeram e todos se reclinaram. 16Tomando os cinco pães e os dois peixes, e levantando os olhos ao céu, pronunciou sobre eles a bênção, partiu-os e dava-os[129] aos discípulos para que os distribuíssem à multidão. 17Todos comeram e ficaram saciados; e recolheu-se o que lhes sobrara dos pedaços: doze cestas.
Confissão messiânica de Pedro e primeiro anúncio da paixão e ressurreição (Mt 16,13-21; Mc 8,27-31) – 18E aconteceu que, estando a rezar sozinho, estavam com Ele os discípulos. Interrogou-os, então, dizendo: «Quem dizem as multidões que Eu sou?». 19Eles, respondendo, disseram: «João Batista; outros, Elias; e outros, que um profeta dos antigos ressuscitou». 20Disse-lhes, então: «Vós, porém, quem dizeis que Eu sou?». Pedro, respondendo, disse: «O Cristo de Deus»[130]. 21Ele, repreendendo-os severamente, ordenou-lhes que não dissessem isto a ninguém, 22afirmando: «É necessário o Filho do Homem sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos doutores da lei, ser morto e ao terceiro dia ressuscitar»[131].
Condições para seguir Jesus (Mt 16,24-28; Mc 8,34-9,1) – 23E dizia a todos: «Se alguém quer vir atrás de mim, negue-se a si mesmo[132], tome cada dia[133] a sua cruz e siga-me. 24Pois aquele que quiser salvar a sua vida há de perdê-la, mas aquele que perder a vida por causa de mim há de salvá-la. 25Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder-se e arruinar-se a si próprio? 26Portanto, aquele que se envergonhar de mim e das minhas palavras, deste se envergonhará o Filho do Homem, quando vier na sua glória, na do Pai e dos santos anjos. 27Em verdade vos digo: alguns dos que aqui estão não provarão a morte, até que vejam o reino de Deus»[134].
Transfiguração de Jesus (Mt 17,1-9; Mc 9,2-8) – 28E aconteceu que, após estas palavras, cerca de oito dias depois, tomando consigo Pedro, João e Tiago, subiu ao monte para rezar. 29E aconteceu que, enquanto rezava, alterou-se o aspeto do seu rosto[135], e a sua veste ficou de uma brancura refulgente. 30E eis que dois homens conversavam com Ele: eram eles Moisés e Elias 31que, tendo aparecido em glória, falavam do seu êxodo que estava prestes a cumprir-se em Jerusalém[136].
32Pedro e os companheiros estavam cheios de sono. Ao despertarem, viram a sua glória e os dois homens que estavam com Ele. 33E aconteceu que, ao afastarem-se dele, Pedro disse a Jesus: «Mestre, que bom é nós estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias». Não sabia o que dizia.
34Enquanto ele dizia isto, surgiu uma nuvem[137] que os cobriu de sombra, e ficaram cheios de medo ao entrarem na nuvem. 35E da nuvem surgiu uma voz, dizendo: «Este é o meu Filho, o eleito[138]: escutai-o!»[139]. 36Quando a voz surgiu, Jesus encontrou-se sozinho. Eles ficaram calados e por aqueles dias não anunciaram a ninguém o que tinham visto.
Cura de um jovem endemoniado (Mt 17,14-21; Mc 9,14-29) – 37Aconteceu que, no dia seguinte, enquanto eles desciam do monte, veio ao encontro dele uma numerosa multidão. 38E eis que um homem, de entre a multidão, começou a clamar, dizendo: «Mestre, peço-te que ponhas os olhos no meu filho, porque é o único[140] que tenho. 39Eis que um espírito se apodera dele; de imediato se põe a gritar, contorce-o e fá-lo espumar[141]. Só a muito custo se retira dele, deixando-o quebrado. 40Pedi aos teus discípulos que o expulsassem, mas não conseguiram». 41Respondendo, Jesus disse: «Ó geração descrente e perversa! Até quando estarei junto de vós e vos hei de suportar? Traz aqui o teu filho».
42Ainda ele se aproximava, o demónio atirou-o ao chão e sacudiu-o com violência. Jesus, porém, repreendeu severamente o espírito impuro, curou o menino e entregou-o ao seu pai. 43Todos ficavam perplexos perante a grandeza de Deus.
Segundo anúncio da paixão e ressurreição (Mt 17,22s; Mc 9,30-32) – Estando todos admirados com tudo o que fazia, Jesus disse aos seus discípulos: 44«Quanto a vós, ponde nos vossos ouvidos estas palavras: o Filho do Homem está prestes a ser entregue nas mãos dos homens». 45Eles, porém, não compreendiam tal coisa; estava-lhes velado para que o não percebessem. E tinham medo de o interrogar acerca disso.
Discussão entre os discípulos: quem é o maior (Mt 18-1-5; Mc 9,33-37) – 46Surgiu, então, uma discussão entre eles: qual deles seria o maior. 47Jesus, conhecendo o pensamento do coração deles, pegou numa criança, colocou-a junto de si e 48disse-lhes: «aquele que acolher esta criança em meu nome, é a mim que acolhe; e aquele que me acolher, acolhe aquele que me enviou. Pois aquele que for o mais pequeno entre todos vós, esse é que é grande».
Uso do nome de Jesus (Mc 9,38-41) – 49Em resposta, João disse: «Mestre, vimos alguém a expulsar demónios em teu nome, e tentámos impedi-lo, porque não segue connosco». 50Mas disse-lhe Jesus: «Não impeçais, pois quem não é contra vós, é a vosso favor».
Hostilidade dos samaritanos – 51Aconteceu que, ao completarem-se os dias da sua elevação[142], Ele tomou a firme decisão[143] de ir para Jerusalém e 52enviou mensageiros à sua frente[144]. Eles foram e entraram numa povoação de samaritanos, de modo a preparar algo para Ele. 53Mas não o acolheram[145], porque tomara a decisão de ir para Jerusalém. 54Ao ver isto, os discípulos Tiago e João disseram: «Senhor, queres que digamos para um fogo descer do céu[146] e os destruir?». 55Mas Ele, voltando-se, repreendeu-os severamente. 56E foram para outra povoação.
Seguir Jesus (Mt 8,18-22) – 57Quando eles iam no caminho, disse-lhe alguém: «Seguir-te-ei para onde quer que vás». 58Disse-lhe Jesus: «As raposas têm tocas, e as aves do céu ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça».
59Disse a outro: «Segue-me». Mas ele disse: «Senhor, permite-me que vá primeiro sepultar o meu pai». 60Disse-lhe Ele: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos. Tu, porém, vai anunciar o reino de Deus».
61Disse-lhe ainda outro: «Seguir-te-ei, Senhor, mas permite que primeiro me despeça dos da minha casa». 62Disse-lhe Jesus: «Ninguém, que tenha lançado mão ao arado e olhe para trás, é apto para o reino de Deus»[147].
10 A missão dos setenta e dois (Mt 9,37s) – 1Depois disto, o Senhor designou outros setenta e dois[148] e enviou-os à sua frente, dois a dois, a toda a cidade e lugar onde Ele estava prestes a ir. 2Dizia-lhes: «A seara[149] é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara. 3Ide. Eis que vos envio como cordeiros no meio de lobos. 4Não leveis saca, nem bolsa, nem sandálias, nem saudeis ninguém pelo caminho. 5Se entrardes numa casa, dizei primeiro: "Paz a esta casa!" 6E se lá houver alguém de paz[150], repousará sobre ele a vossa paz; se não, regressará a vós. 7Permanecei nessa casa comendo e bebendo do que tiverem, pois o trabalhador é digno do seu salário.
Não andeis de casa em casa. 8E, se entrardes numa cidade e vos acolherem, comei o que vos apresentarem, 9curai os doentes que nela houver e dizei-lhes: "Está próximo de vós o reino de Deus". 10Mas, se entrardes numa cidade e não vos acolherem, saí para as suas praças e dizei: 11"Até o pó da vossa cidade, que se apegou aos nossos pés, sacudimos para vós. Sabei, no entanto: o reino de Deus está próximo". 12Digo-vos que, naquele dia, haverá mais tolerância para Sodoma do que para essa cidade».
Imprecações contra as cidades incrédulas (Mt 11,20-24) – 13«Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e Sídon se tivessem realizado as ações poderosas[151] que entre vós se realizaram, há muito se teriam convertido, cobrindo-se de pano rude[152] e sentando-se na cinza. 14Aliás, haverá mais tolerância para Tiro e Sídon no juízo do que para vós. 15E tu, Cafarnaum, serás elevada até ao céu? Até ao inferno[153] descerás. 16Quem vos ouve a mim ouve, e quem vos rejeita a mim rejeita; mas quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou».
Regresso dos discípulos – 17Os setenta e dois voltaram com alegria, dizendo: «Senhor, até os demónios se submetem a nós em teu nome». 18Mas Ele disse-lhes: «Via Satanás como um relâmpago a cair do céu. 19Eis que vos dei a autoridade para pisar serpentes e escorpiões, e sobre todo o poder do inimigo; e ninguém jamais vos causará dano. 20Contudo, não vos alegreis porque os espíritos se submetem a vós; alegrai-vos antes porque os vossos nomes estão inscritos nos céus».
Revelação aos humildes (Mt 11,25-27) – 21Naquela mesma hora exultou de alegria no Espírito Santo e disse: «Louvo-te, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. 22Tudo me foi entregue por meu Pai; ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, e quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho quiser revelar».
23E, voltando-se para os discípulos, disse-lhes a sós: «Felizes os olhos que veem o que vós vedes. 24Pois digo-vos que muitos profetas e reis quiseram ver o que vós vedes e não viram, e ouvir o que ouvis e não ouviram».
Parábola do bom samaritano (Mt 22,35-40; Mc 12,28-31) – 25Eis então que um entendido na Lei se levantou para o pôr à prova, dizendo: «Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?». 26Ele disse-lhe: «Na Lei, que está escrito? Como lês?». 27Ele, respondendo, disse: «Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua força, e com todo o teu entendimento, e o teu próximo como a ti mesmo». 28Disse-lhe Ele: «Respondeste bem. Faz isso e viverás»[154].
29Mas ele, querendo justificar-se, disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?». 30Retorquindo, Jesus disse: «Um homem descia de Jerusalém para Jericó[155] e caiu nas mãos de salteadores que, depois de o despirem e lhe baterem, se foram embora, deixando-o meio morto. 31Por acaso, um sacerdote descia por aquele caminho; ao vê-lo, passou ao largo. 32De igual modo, também um levita que passava por aquele lugar, ao vê-lo, passou ao largo. 33Mas um samaritano[156], que seguia no caminho, passou junto dele e, ao vê-lo, ficou profundamente compadecido. 34E, indo ter com ele, ligou-lhe as feridas, derramando azeite e vinho; depois de o colocar sobre a sua montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. 35No dia seguinte, ao sair, deu dois denários ao estalajadeiro e disse: "Cuida dele e o que gastares a mais eu to restituirei quando voltar".
36Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?». 37Ele disse: «O que usou de misericórdia para com ele». 37Disse-lhe Jesus: «Vai e faz tu o mesmo»[157].
Marta e Maria – 38Enquanto eles prosseguiam, Ele entrou numa certa povoação. Recebeu-o uma mulher, de nome Marta. 39Esta tinha uma irmã chamada Maria[158] que, sentada aos pés do Senhor, escutava a sua palavra. 40Marta, porém, andava de um lado para o outro com muito serviço. Então, parando, disse: «Senhor, não te importa que a minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me». 41Respondendo, disse-lhe o Senhor: «Marta, Marta, estás preocupada e alvoroçada com muitas coisas, 42mas uma só é necessária. Maria escolheu a parte boa, que não lhe será tirada».
11 A oração do Senhor (Mt 6,9-13) – 1E aconteceu que, estando Ele num certo lugar a rezar[159], quando acabou, disse-lhe um dos seus discípulos: «Senhor, ensina-nos a rezar, tal como João ensinou os seus discípulos». 2Disse-lhes, então: «Quando rezardes, dizei:
Pai[160],
santificado seja o teu nome,
venha o teu reino,
3dá-nos cada dia o nosso pão quotidiano,
4perdoa-nos os nossos pecados,
pois também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende
e não nos leves até à provação».
Parábola do amigo importuno – 5E disse-lhes: «Quem de vós terá um amigo e irá ter com ele a meio da noite para lhe dizer: "Amigo, empresta-me três pães, 6visto que um amigo meu chegou de viagem e nada tenho para lhe pôr à frente"; 7e ele, de dentro, respondendo, dirá: "Não me importunes, a porta já está fechada, e os meus filhos estão na cama comigo; não posso levantar-me para tos dar"? 8Digo-vos: ainda que não se levante para lhos dar por ser seu amigo, levantar-se-á por causa da falta de vergonha dele e dar-lhe-á tudo quanto necessite».
Confiança na oração (Mt 7,7-11) – 9«Também Eu vos digo: pedi e ser-vos-á dado, procurai e encontrareis, batei e abrir-se-vos-á; 10pois todo o que pede recebe, o que procura encontra, e ao que bate abrir-se-á.
11Haverá algum pai entre vós a quem o filho peça[161] um peixe, e em vez do peixe lhe dê uma serpente? 12Ou que peça um ovo e lhe dê um escorpião? 13Ora, se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo àqueles que lho pedem».
Exorcismos e sinais do reino (Mt 12,22-30, Mc 3,22-27) – 14Estava Ele a expulsar um demónio que era mudo, e aconteceu que, tendo o demónio saído, o mudo falou, e as multidões admiraram-se.
15Mas alguns de entre eles disseram: «É por Belzebu[162], o chefe dos demónios, que expulsa os demónios!». 16Outros, para o porem à prova, pediam-lhe um sinal do céu. 17Ele, porém, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: «Todo o reino dividido contra si mesmo fica deserto, e cai casa sobre casa. 18Se também Satanás se divide contra si mesmo, como há de subsistir o seu reino? Porque dizeis que é por Belzebu que Eu expulso os demónios. 19Ora, se Eu expulso os demónios por Belzebu, os vossos filhos por quem os expulsam? Por isso, eles serão os vossos juízes. 20Mas, se Eu expulso os demónios pelo poder de Deus[163], então chegou a vós o reino de Deus.
21Quando aquele que é forte[164], bem armado, guarda o seu palácio, todos os seus bens estão em paz. 22Mas, quando vem um mais forte do que ele e o vence, tira-lhe a armadura, na qual confiava, e distribui os seus despojos. 23Quem não está comigo está contra mim, e quem não recolhe comigo dispersa»[165].
O espírito impuro pode voltar para o homem (Mt 12,43-45) – 24«Quando o espírito impuro sai do homem, anda por lugares áridos em busca de repouso e, não encontrando, então diz: "Voltarei à minha casa, de onde saí". 25Ao chegar, encontra-a varrida e em ordem. 26Então vai e toma consigo sete outros espíritos[166] piores que ele; e, entrando, estabelecem ali morada. A situação final desse homem torna-se pior que a primeira».
A verdadeira felicidade – 27Aconteceu que, enquanto Ele dizia estas coisas, uma mulher de entre a multidão, erguendo a voz, disse-lhe: «Feliz o ventre que te carregou e os peitos que te amamentaram». 28Ele, porém, respondeu: «Felizes, antes, os que ouvem a palavra de Deus e a observam».
Jesus e o sinal de Jonas (Mt 12,38-42; Mc 8,11s) – 29Como a multidão se aglomerasse, começou a dizer: «Esta geração é uma geração má! Procura um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal de Jonas. 30Assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas[167], assim o será também o Filho do Homem para esta geração. 31A rainha do sul[168] erguer-se-á, no dia do juízo[169], com os homens desta geração, e há de condená-los, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; e eis aqui quem é maior que Salomão. 32Os homens de Nínive levantar-se-ão, no dia do juízo, com esta geração, e hão de condená-la, porque se converteram perante a pregação de Jonas; e eis aqui quem é maior que Jonas».
A vista, candeia do corpo (Mt 6,22) – 33«Ninguém, ao acender uma candeia, a coloca num lugar escondido ou debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro, para que os que entram vejam a luz. 34A candeia do corpo é o teu olho. Quando o teu olho é límpido, também todo o teu corpo é luminoso; quando ele é mau, também o teu corpo é trevas. 35Toma cuidado, pois, para que a luz que há em ti não seja trevas! 36Portanto, se todo o teu corpo é luminoso, não tendo trevas em parte nenhuma, todo ele será luminoso, como quando a candeia com o seu brilho te ilumina».
Crítica aos doutores da lei e fariseus (Mt 23,1-36) – 37Ainda Ele falava, quando um fariseu lhe pediu para tomar a refeição consigo. Tendo entrado, reclinou-se à mesa. 38O fariseu admirou-se, ao ver que não se tinha lavado primeiro, antes da refeição. 39Mas disse-lhe o Senhor: «Ora, vós, os fariseus, purificais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina[170] e de maldade. 40Insensatos! Quem fez o exterior não fez também o interior? 41Dai, antes, de esmola[171] o que está dentro, e eis que tudo fica puro para vós. 42Mas ai de vós, os fariseus, porque pagais o dízimo da hortelã, da arruda[172] e de toda a verdura, e negligenciais o juízo[173] e o amor de Deus; era necessário fazer estas coisas, e não pôr de lado as outras. 43Ai de vós, os fariseus, porque amais o primeiro assento nas sinagogas e as saudações nas praças públicas. 44Ai de vós, porque sois como os sepulcros não assinalados[174], e os homens que caminham por cima não se apercebem».
45Em resposta, um dos entendidos na lei disse-lhe: «Mestre, ao dizer isso também nos injurias». 46Ele, porém, disse: «E ai de vós, os entendidos na lei, porque carregais os homens com fardos difíceis de suportar e vós nem com um dos vossos dedos tocais nos fardos. 47Ai de vós, porque edificais os sepulcros dos profetas[175] que os vossos pais mataram. 48Portanto, sois testemunhas e coniventes com as obras dos vossos pais, porque eles os mataram e vós edificais os sepulcros. 49Foi por isso que também a sabedoria de Deus disse: "Enviar-lhes-ei profetas e apóstolos; a alguns deles hão de matar e perseguir, 50para que a esta geração se peça contas do sangue de todos os profetas, derramado desde a fundação do mundo, 51desde o sangue de Abel[176] até ao sangue de Zacarias, que pereceu entre o altar e o templo[177]". Sim, digo-vos: serão pedidas contas a esta geração. 52Ai de vós, os entendidos na lei, porque tirastes a chave do conhecimento: vós não entrastes e impedistes os que estavam a entrar».
53Quando Ele saiu dali, os doutores da lei e os fariseus começaram a hostilizá-lo terrivelmente e a fazê-lo falar sobre muitas coisas, 54armando-lhe ciladas para o apanharem nalguma coisa que saísse da sua boca.
12 O fermento dos fariseus (Mt 10,26s) – 1Entretanto, tendo-se a multidão reunido aos milhares, a ponto de se pisarem uns aos outros, começou a dizer, primeiro aos seus discípulos: «Tende cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia! 2Nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nem escondido que não venha a conhecer-se. 3Assim, tudo o que tiverdes dito às escuras será ouvido às claras; e o que tiverdes dito aos ouvidos, no interior das casas, será proclamado sobre os telhados».
Confessar Jesus sem medo (Mt 10,19.28-33; 12,32; Mc 3,11.29) – 4«Digo-vos, meus amigos: não tenhais medo dos que matam o corpo e depois disso nada mais têm para fazer. 5Mostrar-vos-ei de quem deveis ter medo: deveis ter medo daquele que, depois de matar, tem autoridade para lançar na Geena[178]. Sim, digo-vos: desse deveis ter medo. 6Não se vendem cinco pardais por duas moedas[179]? E nem um deles fica esquecido diante de Deus. 7Mas até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não tenhais medo: valeis mais do que muitos pardais.
8Digo-vos: todo aquele que me confessar diante dos homens, também o Filho do Homem o confessará diante dos anjos de Deus. 9Mas quem me negar diante dos homens será negado diante dos anjos de Deus. 10E todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do Homem ser-lhe-á perdoado; mas àquele que blasfemar contra o Espírito Santo não será perdoado. 11Quando vos levarem às sinagogas, aos magistrados e às autoridades, não vos preocupeis como haveis de vos defender ou com o que haveis de dizer, <spanstyle="color:red">12pois o Espírito Santo vos ensinará, naquela hora, o que é necessário dizer»[180].
Perigo das riquezas – 13Disse-lhe alguém de entre a multidão: «Mestre, diz ao meu irmão que divida a herança comigo»[181]. 14Mas Ele disse-lhe: «Homem, quem me constituiu juiz[182] ou árbitro entre vós?». 15E disse-lhes: «Vede bem: guardai-vos de toda a ganância, porque, mesmo que alguém possua em abundância, a sua vida não consiste nos seus bens».
16Disse-lhes, então, uma parábola[183]: «A terra de um homem rico deu uma boa colheita. 17E discutia consigo próprio, dizendo: "Que hei de fazer, dado que não tenho onde recolher os meus frutos?". 18Disse, então: "Vou fazer assim: destruirei os meus celeiros e edificarei uns maiores; lá recolherei todo o grão e os meus bens. 19E direi à minha alma: "Alma, tens muitos bens em depósito para muitos anos: descansa, come, bebe e regala-te!". 20Mas Deus disse-lhe: "Insensato! Esta noite a tua vida[184] ser-te-á reclamada. O que preparaste, para quem será?". 21Assim acontece àquele que acumula para si e não se torna rico diante de Deus».
Desprendimento e confiança em Deus (Mt 6,25-34) – 22Disse, então, aos seus discípulos: «Por isso vos digo: não vos preocupeis com a vida, quanto ao que haveis de comer, nem com o corpo, quanto ao que haveis de vestir. <spanstyle="color:red">23Pois a vida é mais do que o alimento, e o corpo mais do que a roupa.
24Reparai nos corvos: não semeiam nem ceifam, não têm despensa nem celeiro, e Deus alimenta-os. Quanto mais não valeis vós do que as aves! 25Quem de vós, por se preocupar, pode acrescentar um cúbito[185] ao tempo da sua vida? 26Portanto, se nem do mínimo sois capazes, porque vos preocupais com o restante?
27Reparai como crescem os lírios: não se afadigam nem fiam. Digo-vos: nem Salomão, em toda a sua glória, se vestia como um deles. 28Ora, se no campo Deus veste assim a erva, que hoje existe e amanhã é lançada ao forno, quanto mais a vós, gente de pouca fé?
29Vós, não procureis o que comer nem o que beber e não vos inquieteis, 30pois os pagãos do mundo é que procuram tudo isso. O vosso Pai sabe que precisais dessas coisas. 31Procurai antes o seu reino e essas coisas vos serão dadas por acréscimo. 32Não tenhas medo, pequenino rebanho[186], porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o reino».
O tesouro do céu (Mt 6,19-21) – 33«Vendei os vossos bens e dai esmola. Fazei para vós mesmos bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável nos céus onde o ladrão não se aproxima nem a traça destrói. 34Pois onde está o vosso tesouro, aí também estará o vosso coração».
Vigilância (Mt 24,43-51; Mc 13,33-37) – 35«Estejam os vossos rins cingidos[187] e as candeias acesas. 36E vós, sede semelhantes a homens que estão à espera do seu senhor quando regressar das bodas, para que, quando vier e bater, imediatamente lhe abram a porta[188]. 37Felizes aqueles servos que o senhor, quando vier, encontrar vigilantes! Amen vos digo: há de cingir-se, recliná-los à mesa e, passando por eles, há de servi-los. 38Se vier na segunda ou na terceira vigília da noite e assim os encontrar, felizes são eles!
39Compreendei isto: se o senhor da casa soubesse a hora a que viria o ladrão, não teria deixado que a sua casa fosse arrombada. 40Estai também vós preparados, porque à hora em que menos pensais vem o Filho do Homem».
Parábola do servo fiel e do servo infiel (Mt 24,45-51; Mc 13,33-37) – 41Disse Pedro: «Senhor, é para nós que dizes esta parábola ou também para todos?». 42Disse o Senhor: «Quem é, portanto, o administrador fiel e prudente que o senhor colocará à frente dos seus servidores para dar, no tempo oportuno, a ração de trigo? 43Feliz aquele servo que, quando vier o seu senhor, o encontrar a fazer assim. 44Em verdade vos digo: colocá-lo-á à frente de todos os seus bens.
45Mas, se aquele servo disser no seu coração: "O meu senhor tarda em vir", e começar a bater nos servos e nas servas, a comer e beber e a embriagar-se, 46virá o senhor daquele servo no dia em que menos espera e na hora que não conhece, há de cortá-lo ao meio[189] e dar-lhe-á a sorte dos descrentes[190]. 47Aquele servo que, conhecendo a vontade do seu senhor, não se preparou ou não fez segundo a sua vontade, levará muitas vergastadas. 48Mas aquele que, não a conhecendo, tenha feito coisas merecedoras de chicote, levará poucas vergastadas. A todo aquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e a quem muito se confiou, mais lhe será pedido»[191].
Divisões por causa de Jesus (Mt 10,34-36) – 49«Vim lançar fogo sobre a terra[192] e que desejo Eu, senão que já estivesse ateado! 50Mas tenho um batismo para nele ser batizado[193] e como estou angustiado, até que se consume!
51Pensais que vim estabelecer paz na terra? Não, eu vos digo, mas a divisão. 52De facto, a partir de agora estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três. 53Estarão divididos pai contra filho e filho contra pai, mãe contra a filha e filha contra a mãe, sogra contra a sua nora e nora contra a sogra»[194].
Discernimento dos sinais. Juízo e reconciliação (Mt 5,25s; 16,2s) – 54Dizia também às multidões: «Quando vedes a nuvem que se levanta a poente, imediatamente dizeis: "Vem aí chuva", e assim acontece. 55E quando sopra o vento sul, dizeis: "Vai estar um calor ardente", e assim acontece. 56Hipócritas! Sabeis discernir o aspeto da terra e do céu; e este tempo, como não sabeis discerni-lo?
57Porque não julgais, também por vós próprios, o que é justo? 58Assim, quando vais com o teu adversário ao magistrado, esforça-te por te pores de acordo com ele no caminho; não aconteça que ele te arraste até ao juiz, o juiz te entregue ao oficial de justiça, e o oficial de justiça te lance na prisão. 59Digo-te: não sairás de lá, até que restituas a última moeda[195]».
13 Apelo à conversão – 1Nessa altura apareceram alguns que lhe traziam notícias sobre os galileus[196], cujo sangue Pilatos misturara com os sacrifícios deles. 2Ele, em resposta, disse-lhes:
«Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os galileus, porque sofreram tais coisas? 3Não, digo-vos; mas, se não vos converterdes, perecereis todos de modo semelhante. 4Ou aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre em Siloé e os matou: julgais que eles foram mais culpados do que todos os homens que habitavam em Jerusalém? 5Não, digo-vos; mas se não vos converterdes, perecereis todos de modo semelhante».
Parábola da figueira – 6Disse, então, esta parábola: «Alguém tinha uma figueira plantada na sua vinha e nela foi procurar fruto, mas não encontrou. 7Disse ao vinhateiro: "Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira e não encontro. Portanto corta-a; para que há de ocupar inutilmente a terra?". 8Ele, porém, respondendo disse-lhe: "Senhor, deixa-a ainda este ano. Entretanto, cavarei à volta dela e deitarei estrume. 9Talvez venha a dar fruto no futuro; senão, cortá-la-ás"».
Cura de uma mulher ao sábado – 10Estava Ele a ensinar, a um sábado, numa das sinagogas, 11e eis que estava lá uma mulher que há dezoito anos tinha um espírito de enfermidade: estava encurvada e não se conseguia erguer totalmente. 12Ao vê-la, Jesus chamou-a a si e disse-lhe: «Mulher, estás livre da tua enfermidade». 13Impôs-lhe as mãos e, subitamente, ela endireitou-se e começou a glorificar Deus[197].
14Mas, em resposta, o chefe da sinagoga, indignado por Jesus ter curado ao sábado, dizia à multidão: «Há seis dias em que se deve trabalhar; vinde ser curados nesses e não ao sábado». 15Respondeu-lhe o Senhor e disse: «Hipócritas! Não solta cada um de vós, ao sábado, o seu boi ou jumento da manjedoura e o leva a beber? 16Sendo esta mulher filha de Abraão, que Satanás aprisionou há dezoito anos, não era necessário ser liberta dessa prisão em dia de sábado?».
17Quando Ele disse isto, todos os que se lhe opunham ficaram envergonhados, enquanto toda a multidão se alegrava por todas as ações gloriosas realizadas por Ele.
Parábola do grão de mostarda (Mt 13,31s; Mc 4,30-32) – 18Dizia-lhes: «A que é semelhante o reino de Deus, a que hei de compará-lo? 19É semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e lançou no seu próprio jardim. Cresceu, tornou-se árvore e as aves do céu habitaram nos seus ramos».
Parábola do fermento (Mt 13,33) – 20E disse de novo: «A que hei de comparar o reino de Deus? 21É semelhante ao fermento[198] que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até que tudo fermentasse»[199].
A porta estreita – 22Atravessava, então, cidades e povoações a ensinar, continuando a viagem[200] para Jerusalém. 23Alguém lhe disse: «Senhor, são poucos os que se salvam?». Ele disse-lhes: 24«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque, digo-vos, muitos procurarão entrar e não serão capazes. 25A partir do momento em que o senhor da casa se levantar e fechar a porta, e vós começardes a ficar de fora e a bater à porta, dizendo: "Senhor, abre-nos", então, respondendo, ele vos dirá: "Não sei de onde vós sois". 26Começareis, então, a dizer: "Comemos e bebemos na tua presença, e ensinaste nas nossas praças". 27E ele dir-vos-á[201]: "Não sei de onde vós sois. Afastai-vos de mim, todos os que praticais a injustiça". 28Aí haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac e Jacob e todos os profetas no reino de Deus, mas vós a serdes lançados fora. 29Virão do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e reclinar-se-ão à mesa no reino de Deus. 30Eis que há últimos que serão primeiros, e há primeiros que serão últimos».
Aproximação da morte de Jesus em Jerusalém (Mt 23,37-39) – 31Nessa hora foram ter com Ele alguns fariseus, dizendo-lhe: «Sai e vai-te daqui, porque Herodes quer matar-te». 32Disse-lhes, então: «Ide dizer a essa raposa: eis que expulso demónios e realizo curas hoje e amanhã, porém ao terceiro dia chego à consumação. 33No entanto, é necessário que hoje, amanhã e no dia seguinte eu vá, porque não é admissível que um profeta pereça fora de Jerusalém[202].
34Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te têm sido enviados! Quantas vezes quis reunir os teus filhos, como uma galinha reúne os seus pintainhos debaixo das asas, e vós não quisestes! 35Eis que a vossa casa vos é abandonada[203]. Digo-vos: jamais me vereis, até que digais Bendito o que vem em nome do Senhor!»[204].
14 Cura de um hidrópico ao sábado – 1E aconteceu que, tendo Ele entrado em casa de um dos chefes dos fariseus a um sábado para comer, eles estavam a observá-lo. 2E eis que um homem que era hidrópico[205] estava diante dele.
3Em resposta, Jesus disse aos entendidos na lei e aos fariseus: «É permitido ao sábado[206] curar ou não?». 4Eles, porém, permaneceram calados. Tomando-o, então, curou-o e mandou-o embora. 5E disse-lhes: «Quem de vós, se um filho ou um boi cair num poço, em dia de sábado, não o vai tirar imediatamente?». 6Mas não foram capazes de replicar a nada disto.
Humildade e caridade – 7Dizia, então, aos convidados uma parábola, ao notar como eles escolhiam os primeiros lugares[207]: 8«Quando fores convidado por alguém para uma boda, não te reclines no primeiro lugar, não aconteça que alguém mais importante do que tu tenha sido convidado por ele, 9e venha aquele que a ti e a ele convidou e te diga: "Dá o lugar a este". Passarias, então, a ocupar com vergonha o último lugar. 10Mas, quando fores convidado, vai reclinar-te no último lugar, para que, quando vier aquele que te convidou, te diga: "Amigo, sobe mais um pouco". Tal será para ti um motivo de glória diante de todos os que estiverem reclinados à mesa contigo. 11Porque todo o que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado»[208].
12Mas dizia também a quem o tinha convidado: «Quando deres um almoço ou uma ceia, não chames os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos, não aconteça que também eles te convidem e assim te retribuam. 13Quando deres um banquete, convida os pobres[209], aleijados, coxos e cegos. 14Serás feliz por não terem como retribuir-te, pois ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos».
Parábola do banquete (Mt 22,1-10) – 15Ao ouvir isto, um dos que estavam reclinados à mesa com Ele disse-lhe: «Feliz o que comer pão[210] no reino de Deus». 16Ele disse-lhe: «Um certo homem fez um grande banquete e convidou a muitos. 17E enviou o seu servo à hora do banquete para dizer aos convidados: "Vinde, que já está pronto". 18E um a um começaram todos a desculpar-se. O primeiro disse-lhe: "Comprei um campo e tenho necessidade de ir vê-lo; peço-te que me desculpes". 19Outro disse: "Comprei cinco juntas de bois e vou experimentá-las; peço-te que me desculpes". 20Outro disse: "Desposei uma mulher e, por isso, não posso ir".
21Ao regressar, o servo anunciou tudo isso ao seu senhor. Então o senhor da casa, irado, disse ao seu servo: "Sai depressa para as praças e ruas da cidade e traz para aqui os pobres, aleijados, cegos e coxos". 22Disse o servo: "Senhor, fiz o que mandaste, e ainda há lugares". 23Disse o senhor ao servo: "Sai pelos caminhos e veredas e força-os a entrar para que se encha a minha casa. 24Pois digo-vos: nenhum daqueles homens que foram convidados provará do meu banquete"».
Exigências do discipulado (Mt 10,37-39) – 25Acompanhavam-no numerosas multidões e Ele, voltando-se, disse-lhes: 26«Se alguém vem a mim e não menospreza[211] o próprio pai, a mãe, a esposa, os filhos, os irmãos, irmãs e até a própria vida, não pode ser meu discípulo. 27Aquele que não carrega a própria cruz e vem atrás de mim, não pode ser meu discípulo. 28Quem de vós, ao querer edificar uma torre, não se senta primeiro a calcular o custo, para ver se tem como a concluir? 29Não aconteça que, tendo ele assentado o alicerce, e não sendo capaz de a terminar, todos os que estiverem a ver comecem a escarnecer dele, 30dizendo: "Este homem começou a edificar e não foi capaz de terminar". 31Ou qual é o rei que, ao partir para a guerra contra outro rei, não se senta primeiro a deliberar se é capaz de, com dez mil homens, se opor a outro que, com vinte mil, vem contra ele? 32Se não, enquanto o outro ainda está longe, envia-lhe uma delegação a pedir-lhe as condições de paz. 33Assim, todo aquele que de entre vós não renunciar a todos os seus bens não pode ser meu discípulo».
A força do sal (Mt 5,13; Mc 9,50) – 34«O sal é bom, mas se também o sal se tornar insípido, com que há de ser temperado? 35Não é bom nem para a terra nem para o estrume; lançam-no fora. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça».
15 Parábola da ovelha perdida (Mt 18,12-14) – 1Aproximavam-se dele todos os publicanos e os pecadores para o ouvir. 2Então os fariseus e doutores da lei começaram a murmurar, dizendo: «Este acolhe pecadores e come com eles».
3Disse-lhes, então, esta parábola[212]: 4«Quem de entre vós, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai à procura da perdida até a encontrar? 5Ao encontrá-la, põe-na aos seus ombros e alegra-se; 6ao ir para casa, convoca os amigos e os vizinhos, dizendo-lhes: "Alegrai-vos comigo[213], porque encontrei a minha ovelha perdida". 7Digo-vos que assim haverá mais alegria no céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não têm necessidade de conversão»[214].
Parábola da dracma perdida – 8«Ou qual a mulher que, tendo dez dracmas[215], se perder uma delas, não acende uma candeia, varre a casa e procura com cuidado até a encontrar? 9Ao encontrá-la, convoca as amigas e vizinhas, dizendo: "Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma que tinha perdido". 10Assim vos digo que há alegria diante dos anjos de Deus por um só pecador que se converte».
Parábola do pai misericordioso – 11Disse ainda: «Um homem tinha dois filhos. 12O mais novo deles disse ao pai: "Pai, dá-me a parte dos bens que me toca". O pai repartiu os bens entre eles. 13Não muitos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma região distante e aí esbanjou os seus bens, vivendo dissolutamente. 14Depois de ele gastar tudo, surgiu uma grande fome naquela região, e ele começou a passar privações.
15Uniu-se, então, a um dos cidadãos daquela região, que o mandou para os seus campos guardar porcos[216]. 16Desejava saciar-se com as bolotas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava.
17Então, caindo em si, disse: "Quantos assalariados de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui morro de fome! 18Vou levantar-me, ter com meu pai e dizer-lhe: 'Pai, pequei contra o céu e para contigo; 19não mais sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus assalariados'". 20E levantando-se foi ter com o seu pai.
Ainda ele estava longe, quando o seu pai o viu e se compadeceu profundamente; correndo, então, lançou-se-lhe ao pescoço e beijou-o repetidamente. 21Disse-lhe o filho: "Pai, pequei contra o céu e para contigo; não mais sou digno de ser chamado teu filho".
22O pai, porém, disse aos seus servos: "Trazei depressa a melhor veste[217] e vesti-lha, dai-lhe um anel para a sua mão e sandálias[218] para os pés; 23trazei o vitelo gordo, matai-o e festejemos comendo, <spanstyle="color:red">24porque o meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado". E começaram a festejar.
25Ora, o seu filho mais velho estava no campo[219]. Quando voltou e se aproximou da casa, ouviu músicas e danças, 26chamou um dos servos e procurou saber o que era aquilo. 27Ele disse-lhe: "O teu irmão voltou, e o teu pai matou o vitelo gordo, porque o recebeu de volta são e salvo". 28Ficou irado e não queria entrar, mas o seu pai saiu para lhe suplicar. 29Em resposta, disse ao seu pai: "Eis que há tantos anos te sirvo, nunca transgredi uma ordem tua e nunca me deste um cabrito para eu festejar com os meus amigos. 30Mas, quando veio esse teu filho, que devorou os teus bens com prostitutas, mataste-lhe o vitelo gordo". 31Ele disse-lhe: "Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu; 32mas era necessário festejar e alegrarmo-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado"».
16 Parábola do administrador infiel – 1Dizia ainda aos discípulos: «Havia um homem rico que tinha um administrador, e este foi-lhe denunciado por esbanjar os seus bens. 2Então, chamando-o, disse-lhe: "Que é isto que ouço acerca de ti? Presta contas da tua administração, pois não podes continuar a administrar". 3Disse, então, o administrador para consigo: "Que hei de fazer, dado que o meu senhor me tira a administração? De cavar, não sou capaz; de mendigar, tenho vergonha. 4Já sei o que hei de fazer, para que, quando for removido da administração, haja quem me acolha em sua casa". 5Chamando a si cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: "Quanto deves ao meu senhor?". 6Ele disse: "Cem medidas[220] de azeite". Ele, porém, disse-lhe: "Toma os documentos, senta-te depressa e escreve cinquenta". 7Disse depois a outro: "E tu, quanto deves?". Ele disse: "Cem medidas[221] de trigo". Disse-lhe: "Toma os documentos e escreve oitenta".
8E o senhor elogiou o administrador injusto[222] por ter agido com esperteza[223]. De facto, os filhos deste mundo são mais espertos para com a sua geração do que os filhos da luz».
Servir a Deus ou ao dinheiro (Mt 6,24) – 9«Também Eu vos digo: fazei para vós amigos com as riquezas injustas, para que, quando faltar, vos acolham nas tendas eternas. 10Quem é fiel no pouco também é fiel no muito, e quem é injusto no pouco também é injusto no muito. 11Se, portanto, não fostes fiéis com as riquezas injustas, quem vos confiará o que é verdadeiro? 12E se, naquilo que é de outro, não fostes fiéis, quem vos dará aquilo que é vosso? <spanstyle="color:red">13Nenhum escravo[224] pode servir a dois senhores, pois ou odiará um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas».
A reação dos fariseus. Questão do divórcio (Mt 5,32; 19,9; Mc 10,11) – 14Os fariseus, que eram amigos do dinheiro, ouviam tudo isto e troçavam dele. 15Disse-lhes, então: «Vós sois os que se têm a si mesmos por justos diante dos homens; mas Deus conhece os vossos corações, pois o que entre os homens é exaltado é abominável diante de Deus. 16A Lei e os Profetas chegaram até João. Desde então, o reino de Deus é anunciado como boa nova e todos se esforçam para nele entrar. 17Mas é mais fácil passar o céu e a terra que cair um só traço de uma letra da Lei. 18Todo aquele que repudia a sua mulher e casa com outra comete adultério[225]; e quem casa com uma repudiada pelo marido comete adultério».
Parábola do homem rico e do pobre Lázaro – 19«Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino, banqueteando-se dia após dia esplendidamente. 20Um pobre, de nome Lázaro[226], jazia ao seu portão, coberto de chagas, 21desejando saciar-se do que caía da mesa do rico, mas até os cães[227] vinham lamber-lhe as chagas. 22Ora, aconteceu que o pobre morreu e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão[228]. Morreu também o rico e foi sepultado.
23Então no inferno[229], estando em tormentos, ao levantar os olhos viu Abraão de longe e Lázaro no seu seio. 24E ele, gritando, disse: "Pai Abraão, tem misericórdia de mim e envia Lázaro para que molhe a ponta do seu dedo em água e me refresque a língua, porque estou atormentado nestas chamas". 25Disse Abraão: "Filho, recorda-te que recebeste os teus bens durante a tua vida e, de igual modo, Lázaro os males. Agora, é aqui consolado enquanto tu és atormentado. 26Além de tudo isso, um grande abismo foi fixado entre vós e nós, de modo que os que querem passar daqui para vós não podem, nem os daí podem atravessar até nós".
27Mas ele disse: "Peço-te, então, pai, que o envies à casa do meu pai, 28pois tenho cinco irmãos, a fim de os advertir, para que não venham também eles para este lugar de tormento". 29Disse Abraão. "Têm Moisés e os Profetas. Que os ouçam!" 30Mas ele disse: "Não, pai Abraão; se alguém de entre os mortos for ter com eles, hão de converter-se". 31Disse-lhe, então: "Se não ouvem Moisés e os Profetas, também não se convencerão se alguém ressuscitar dos mortos"».
17 Escândalo e perdão (Mt 18,6s; Mc 9,42) – 1 </nowiki>Disse, então, aos seus discípulos: «É impossível que não venham os escândalos[230], mas ai daquele por meio do qual eles vêm: 2ganharia mais se lhe atassem uma pedra de moinho à volta do pescoço e o lançassem ao mar do que ser motivo de escândalo para um destes pequeninos. 3Tende cuidado convosco! Se o teu irmão pecar, repreende-o severamente; e, se ele se arrepender, perdoa-lhe. 4E, se pecar contra ti sete vezes ao dia e sete vezes voltar para te dizer "estou arrependido", perdoar-lhe-ás».
Fé e serviço (Mt 17,20; 21,21; Mc 11,22s) – 5Disseram, então, os apóstolos ao Senhor: «Aumenta-nos a fé[231]». 6Disse o Senhor: «Se tivésseis fé[232] do tamanho de um grão de mostarda[233], diríeis a esta amoreira[234]: "Arranca-te e planta-te no mar", e ela vos obedeceria.
7Quem de entre vós, que tenha um servo a lavrar ou a apascentar, lhe dirá quando ele regressar do campo: "Vem imediatamente reclinar-te à mesa"? 8Não lhe dirá antes: "Prepara-me algo para cear, cinge-te e serve-me enquanto como e bebo, e depois disto comerás e beberás tu"? 9Terá de agradecer ao servo, porque fez o que foi ordenado? 10Assim também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: "Somos servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer"».
Cura dos dez leprosos – 11E aconteceu que, ao ir para Jerusalém, Ele atravessava a Samaria[235] e a Galileia. 12E, tendo Ele entrado numa povoação, vieram-lhe ao encontro dez leprosos[236], que ficaram à distância. 13Eles levantaram a voz, dizendo: «Jesus, Mestre[237], tem misericórdia de nós!». 14Ao vê-los, disse-lhes: «Ide mostrar-vos aos sacerdotes»[238]. E aconteceu que, enquanto eles iam, ficaram purificados.
15Mas um deles, ao ver que fora curado, voltou glorificando Deus com voz forte, 16e caiu com o rosto por terra a seus pés, dando-lhe graças. Era um samaritano. 17Em resposta, Jesus disse: «Não foram os dez purificados? Onde estão os outros nove? 18Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?». 19Disse-lhe, então: «Levanta-te e vai; a tua fé te salvou».
A vinda do reino de Deus e o dia do Filho do Homem – 20Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus[239], Ele, respondendo, disse-lhes: «O reino de Deus não vem de forma observável[240], 21nem dirão: "Ei-lo aqui" ou "Ei-lo ali"; de facto, eis que o reino de Deus está entre vós».
22Disse, então, aos discípulos: «Dias virão em que desejareis ver um dos dias do Filho do Homem e não vereis. 23E dir-vos-ão: "Ei-lo ali" ou "Ei-lo aqui"; não vades nem os sigais. 24Pois assim como o relâmpago, quando resplandece, brilha de uma extremidade à outra do céu[241], assim será o Filho do Homem no seu dia. 25Mas primeiro é necessário que Ele sofra muito e seja rejeitado por esta geração.
26E tal como aconteceu nos dias de Noé, assim será também nos dias do Filho do Homem: 27comiam, bebiam, casavam, davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio que a todos destruiu. 28O mesmo aconteceu nos dias de Lot: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam, edificavam. 29Mas, no dia em que Lot saiu de Sodoma, choveu fogo e enxofre do céu que a todos destruiu.
30Assim será no dia em que o Filho do Homem se revelar. 31Naquele dia, aquele que estiver no terraço e tiver os seus utensílios em casa não desça para os apanhar e, do mesmo modo, quem estiver no campo não volte atrás[242]. 32Recordai-vos da mulher de Lot.
33Aquele que procurar preservar a sua vida[243] há de perdê-la, e aquele que a perder há de conservá-la[244]. 34Digo-vos que nessa noite estarão dois num leito: um será levado[245] e o outro deixado; 35estarão duas a moer, no mesmo lugar: uma será levada e a outra deixada»[246]. 37Em resposta, disseram-lhe: «Onde será isso, Senhor?»[247]. Ele disse-lhes: «Onde estiver o corpo, aí se reunirão os abutres[248]».
18 Parábola do juiz e da viúva – 1Dizia-lhes[249], então, uma parábola[250] acerca da necessidade de eles rezarem sempre, sem desanimar: 2«Havia numa certa cidade um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. 3Havia também, naquela cidade, uma viúva que ia ter com ele, dizendo: "Faz-me justiça contra o meu adversário". 4Por algum tempo ele não quis, mas depois disse para consigo: "Embora eu não tema a Deus nem respeite os homens, 5porque esta viúva me importuna, far-lhe-ei justiça para que não venha continuamente azucrinar-me[251]"».
6Disse o Senhor: «Ouvi o que diz o juiz injusto. 7E não fará Deus justiça aos seus eleitos que por Ele clamam dia e noite? Vai fazê-los esperar? 8Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Contudo, quando o Filho do Homem vier, encontrará porventura a fé sobre a terra?».
Parábola do fariseu e do publicano – 9Disse também esta parábola para alguns que estavam convencidos de que eram justos, desprezando os demais: 10«Dois homens subiram ao templo para rezar; um era fariseu e o outro publicano. 11O fariseu, em pé, rezava para consigo: "Ó Deus, dou-te graças porque não sou como os demais homens, que são ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano. 12Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo o que adquiro".
13O publicano, porém, mantendo-se longe, nem os olhos queria levantar ao céu, mas batia no seu peito, dizendo: "Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador". 14Digo-vos: este desceu justificado para sua casa, ao contrário do outro. Porque todo o que se exalta será humilhado, mas o que se humilha será exaltado».
Jesus e as crianças (Mt 19,13-15; Mc 10,13-16) – 15Traziam-lhe também as criancinhas para que lhes tocasse, mas, ao ver isto, os discípulos repreendiam-nas severamente. 16Jesus, porém, chamou-as a si, dizendo: «Deixai as crianças vir a mim, não as impeçais, pois dos que são como elas é o reino de Deus. 17Amen vos digo: aquele que não acolher o reino de Deus como uma criança, jamais nele entrará».
O homem rico (Mt 19,18-30; Mc 10,17-22) – 18Então um dos chefes interrogou-o, dizendo: «Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?». 19Disse-lhe Jesus: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus. 20Sabes os mandamentos: Não cometas adultério, não mates, não roubes, não levantes falso testemunho, honra o teu pai e a tua mãe».
21Ele disse: «Tudo isso tenho observado desde a juventude». 22Ao ouvir isto, Jesus disse-lhe: «Resta-te ainda uma coisa: vende tudo o que tens, distribui pelos pobres e terás um tesouro nos céus. Então vem e segue-me». <spanstyle="color:red">23Ao ouvir isto ficou muito triste, porque era muito rico.
Os ricos e o reino de Deus (Mt 19,23-26; Mc 10,23-27) – 24Jesus, ao vê-lo ficar muito triste, disse: «Como é difícil aos que têm riquezas entrar no reino de Deus! 25De facto, é mais fácil entrar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus». 26Os que ouviram disseram: «Quem pode, então, ser salvo?». 27Mas Ele disse: «O que é impossível aos homens é possível a Deus».
Recompensa pelo desprendimento (Mt 19,27-30; Mc 10,28-31) – 28Disse-lhe Pedro: «Eis que nós deixámos as nossas coisas e te seguimos!». 29Ele disse-lhes: «Amen vos digo: não há ninguém que tenha deixado casa, ou mulher[252], ou irmãos, ou pais ou filhos por causa do reino de Deus 30que não receba muito mais neste tempo e, no tempo que há de vir, a vida eterna».
Terceiro anúncio da paixão e ressurreição (Mt 20,17-19; Mc 10,32-34) – 31Tomando consigo os Doze, disse-lhes: «Eis que subimos para Jerusalém, e vai consumar-se tudo o que foi escrito por meio dos Profetas acerca do Filho do Homem, 32pois será entregue aos pagãos, escarnecido, injuriado e cuspido. 33Depois de o chicotearem, matá-lo-ão, e ao terceiro dia ressuscitará».
34Mas eles nada disto entenderam: estas palavras estavam-lhes escondidas e não percebiam o que estava a ser dito.
Cura do cego de Jericó (Mt 20,29-34; Mc 10,46-52) – 35Ora aconteceu que, quando Ele se aproximava de Jericó, estava um cego sentado junto ao caminho a mendigar. 36Ao ouvir a multidão a passar, procurou saber o que seria. 37Anunciaram-lhe: «É Jesus o Nazareno[253] que está a passar». 38Então clamou, dizendo: «Jesus, filho de David, tem misericórdia de mim!». 39Os que iam à frente repreendiam-no severamente para que se calasse, mas ele gritava ainda mais: «Filho de David, tem misericórdia de mim!».
40Então, parando, Jesus ordenou que lho trouxessem. E, quando ele se aproximou, interrogou-o: 41«Que queres que te faça?». Ele disse: «Senhor, que eu volte a ver!». 42Jesus disse-lhe: «Volta a ver, a tua fé te salvou». 43Subitamente, ele voltou a ver e seguia-o, glorificando Deus. Todo o povo, ao ver isto, deu louvor a Deus.
19 Conversão de Zaqueu – 1Tendo entrado em Jericó, Ele atravessava a cidade[254]. 2E eis que um homem chamado Zaqueu[255], que era chefe de publicanos e rico, 3procurava ver quem era Jesus; mas não podia por causa da multidão, porque era de pequena estatura. 4Correndo mais à frente, subiu a um sicómoro para o ver, porque Ele estava prestes a passar por ali. 5Quando chegou ao lugar, Jesus, olhando para cima, disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, pois hoje é necessário que fique em tua casa». 6Ele desceu depressa e acolheu-o com alegria. 7Ao ver isto, todos murmuravam, dizendo: «Entrou para se hospedar junto de um homem pecador»[256].
8Mas, de pé, Zaqueu disse ao Senhor: «Eis, Senhor, que vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se defraudei alguém nalguma coisa, restituirei quatro vezes mais». 9Disse-lhe Jesus: «Hoje a salvação veio a esta casa, uma vez que também ele é filho de Abraão. 10Pois o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido».
Parábola das minas (Mt 25,14-30) – 11Estando eles a ouvir estas coisas, Ele, prosseguindo, disse uma parábola, por estar perto de Jerusalém e por eles pensarem que o reino de Deus estava prestes[257] a manifestar-se. 12Disse, então:
«Um homem bem-nascido partiu para uma região distante, para tomar posse de um reino e depois voltar. 13Chamando dez servos seus, deu-lhes dez minas[258] e disse-lhes: "Fazei-as render até que eu venha". 14Os seus conterrâneos, porém, odiavam-no e enviaram atrás dele uma embaixada, dizendo: "Não queremos que ele reine sobre nós".
15E aconteceu que, quando regressou, depois de ter tomado posse do reino, mandou chamar a si os servos a quem dera o dinheiro, para saber o que tinham lucrado. 16Apresentou-se o primeiro e disse: "Senhor, a tua mina rendeu dez minas". 17Ele disse-lhe: "Muito bem, servo bom, porque foste fiel no mínimo, terás autoridade sobre dez cidades". 18Veio o segundo e disse: "A tua mina, Senhor, deu cinco minas". 19Disse também a este: "Fica também tu à frente de cinco cidades". 20Veio o outro e disse: "Senhor, eis a tua mina que eu tinha guardada num lenço, 21pois tinha medo de ti, porque és um homem austero; tiras o que não puseste e ceifas o que não semeaste". 22Disse-lhe: "Pela tua boca te julgo, servo mau! Sabias que eu sou um homem austero, tiro o que não pus e ceifo o que não semeei? 23Então por que razão não entregaste o meu dinheiro ao banco? E eu, ao voltar, tê-lo-ia reclamado com juros". 24E disse aos que estavam presentes: "Tirai-lhe a mina e dai-a ao que tem as dez minas". 25Mas disseram-lhe: "Senhor, ele tem dez minas".
26Digo-vos: a todo o que tem será dado e ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. 27Quanto a estes meus inimigos que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e trucidai-os diante de mim». 28E, dito isto, seguiu adiante, subindo para Jerusalém.
Entrada messiânica em Jerusalém (cf. Mt 21,1-9; Mc 11,1-10; Jo 12,12-19) – 29E aconteceu que, quando se aproximaram de Betfagé[259] e Betânia, junto ao monte, chamado das Oliveiras, enviou dois dos discípulos, 30dizendo: «Ide à povoação em frente. Quando nela entrardes, encontrareis um jumentinho preso, no qual nunca ninguém se sentou. Depois de o soltar, trazei-o. 31E se alguém vos perguntar: "Por que razão o soltais?", direis assim: "O Senhor tem necessidade dele"».
32Os que foram enviados partiram e encontraram tudo como lhes tinha dito. 33Quando estavam a soltar o jumentinho, disseram-lhes os seus donos: «Porque soltais o jumentinho?». 34Eles disseram: «O Senhor tem necessidade dele».
35Trouxeram-no, então, a Jesus e, lançando as suas capas sobre o jumentinho[260], ajudaram Jesus a subir. 36Enquanto Ele avançava, estendiam as suas capas no caminho. 37Quando Ele já estava próximo da descida do Monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos, alegrando-se, começou a louvar Deus com voz forte por todas as ações poderosas que tinham visto, 38dizendo:
«Bendito o que vem, o rei, em nome do Senhor!
Paz no céu e glória nas alturas!»[261].
39Alguns fariseus de entre a multidão disseram-lhe: «Mestre, repreende severamente os teus discípulos». 40Ele, em resposta, disse: «Digo-vos que, se estes se calarem, as pedras gritarão".
Lamentações sobre Jerusalém – 41Quando se aproximou, ao ver a cidade, Jesus chorou sobre ela, 42dizendo: «Se também tu tivesses reconhecido neste dia aquilo que te conduz à paz[262]! Mas agora está escondido dos teus olhos. 43Porque dias virão sobre ti em que os teus inimigos te rodearão de trincheiras, te cercarão e te apertarão de todo o lado; 44hão de aniquilar-te, e aos teus filhos contigo, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, dado que não reconheceste o tempo da tua visita»[263].
Expulsão dos vendedores do templo (Mt 21,12s; Mc 11,15-18; Jo 2,13-16) – 45Entrando, então, no templo, começou a expulsar os que vendiam, 46dizendo-lhes: «Está escrito: A minha casa será casa de oração, mas vós fizestes dela um antro de salteadores»[264].
47Estava todos os dias no templo a ensinar. Os chefes dos sacerdotes e os doutores da lei procuravam matá-lo, assim como os chefes do povo[265], 48mas não encontravam modo de o fazer, pois todo o povo estava embevecido ao ouvi-lo[266].
20 Controvérsia sobre a autoridade de Jesus (Mt 21,23-27; Mc 11,27-33) – 1E aconteceu que, num dos dias em que Ele estava a ensinar o povo no templo e a anunciar a boa nova, os chefes dos sacerdotes e os doutores da lei com os anciãos apresentaram-se 2e disseram-lhe[267]: «Diz-nos com que autoridade fazes estas coisas ou quem é que te deu tal autoridade». 3Respondendo, disse-lhes: «Vou perguntar também eu uma coisa; dizei-me: 4o batismo de João era do céu ou dos homens?».
5Eles, porém, discutiam entre si, dizendo: «Se dissermos "do céu", dirá: "Por que razão não acreditastes nele?"; 6se dissermos "dos homens", todo o povo nos apedrejará, pois está convencido de que João é um profeta». 7E responderam que não sabiam de onde era. 8Então Jesus disse-lhes: «Nem Eu vos digo com que autoridade faço estas coisas».
Parábola dos vinhateiros homicidas (Mt 21,33-46; Mc 12,1-12) – 9Começou, então, a dizer ao povo esta parábola[268]: «Um homem plantou uma vinha, arrendou-a a uns agricultores e partiu de viagem por bastante tempo. 10Em tempo oportuno, enviou um servo aos agricultores para que lhe dessem parte do fruto da vinha, mas os agricultores espancaram-no e mandaram-no embora sem nada. 11Enviou de novo outro servo; mas eles também a esse espancaram, ultrajaram e mandaram-no embora sem nada. 12Enviou ainda um terceiro, mas eles, depois de o ferirem, expulsaram-no.
13Disse, então, o senhor da vinha: "Que hei de fazer? Enviarei o meu filho amado, talvez o respeitem". 14Mas, ao vê-lo, os agricultores discutiam uns com os outros, dizendo: "Este é o herdeiro; matemo-lo, para que a herança se torne nossa". 15E, depois de o lançarem para fora da vinha, mataram-no. Ora, que lhes fará o senhor da vinha? 16Virá, destruirá esses agricultores e dará a vinha a outros».
Ao ouvirem isto, disseram: «De modo nenhum!»[269]. 17Mas Ele, fixando neles o olhar, disse: «Que significa isto que está escrito:
A pedra que rejeitaram os construtores
tornou-se pedra angular [270]?
18Todo aquele que cair sobre essa pedra ficará despedaçado, e ela esmagará aquele sobre o qual cair»[271].
19Na mesma hora, os doutores da lei e os chefes dos sacerdotes procuraram deitar-lhe as mãos, mas tiveram medo do povo; de facto, perceberam que tinha sido para eles que dissera esta parábola.
O imposto a César (Mt 22,15-22; Mc 12,13-17) – 20Puseram-se, então, a observá-lo atentamente e enviaram espiões, que se fingiam justos, para o surpreender em alguma palavra, de modo a entregá-lo ao poder e à autoridade do governador. 21Interrogaram-no, dizendo: «Mestre, sabemos que falas e ensinas com retidão e não tens em consideração as aparências, mas ensinas o caminho de Deus[272] de acordo com a verdade. 22É-nos permitido ou não pagar tributo a César?».
23Reparando na sua malícia, disse-lhes: 24«Mostrai-me um denário. De quem é a imagem e a inscrição[273]?». Eles disseram: «De César». 25Ele disse-lhes: «Então devolvei a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus». 26E não foram capazes de o surpreender em nada diante do povo e, admirados com a sua resposta, calaram-se.
Os saduceus e a ressurreição (Mt 22,23-33; Mc 12,18-27) – 27Aproximaram-se alguns saduceus – que negam haver ressurreição[274] – e interrogaram-no, dizendo: 28«Mestre, Moisés deixou-nos escrito: "Se o irmão de alguém morrer, tendo mulher mas sem filhos, o seu irmão case[275] com ela[276] e dê descendência ao seu irmão". 29Ora, havia sete irmãos: o primeiro casou-se com uma mulher e morreu sem filhos; 30também o segundo 31e o terceiro casaram com ela e o mesmo aconteceu também aos sete: não deixaram filhos e morreram. 32Por último, também a mulher morreu. 33Na ressurreição, de qual deles será ela mulher[277]? É que todos os sete a tiveram como mulher».
34Disse-lhes Jesus: «Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. <spanstyle="color:red">35Os que forem considerados dignos de alcançar esse mundo – a ressurreição dos mortos – não se casam nem se dão em casamento, 36pois já não podem morrer; são semelhantes aos anjos. E, sendo filhos da ressurreição[278], são filhos de Deus. 37Que os mortos ressuscitam, também Moisés o indicou no episódio da sarça, quando diz: O Senhor Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob. 38Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, pois todos vivem para Ele».
39Em resposta, alguns dos doutores da lei disseram: «Mestre, disseste bem». 40E já não ousavam interrogá-lo sobre nada.
O Messias, Senhor de David (Mt 22,41-45; Mc 12,35-37) – 41Mas disse-lhes: «Como podem dizer que o Cristo é filho de David? 42O próprio David diz no livro dos Salmos:
Disse o Senhor ao meu Senhor: "Senta-te à minha direita,
43até que ponha os teus inimigos como estrado dos teus pés"[279].
44Portanto, David chama-lhe "Senhor". Como pode ser seu filho?».
Crítica aos doutores da lei (Mt 23,1.5-7.14; Mc 12,38-40) – 45Estando todo o povo a ouvir, disse aos seus discípulos: 46«Tende cuidado com os doutores da lei que têm prazer em caminhar com vestes longas, gostam de saudações nas praças públicas, dos primeiros assentos nas sinagogas e dos primeiros lugares nos banquetes; 47eles devoram as casas das viúvas usando longas orações como pretexto. Estes receberão uma condenação mais severa».
21 A generosidade da viúva pobre (Mc 12,41-44) – 1Ao levantar os olhos, viu os ricos a deitar os seus donativos na arca do tesouro. 2Viu, então, uma viúva necessitada a deitar lá duas pequenas moedas 3e disse: «Em verdade vos digo: esta pobre viúva deitou mais do que todos; 4pois todos estes deitaram do que lhes sobrava como donativo, mas esta, na sua penúria, deitou tudo o que tinha para viver[280]».
A destruição do templo (Mt 24,1s; Mc 13,1s) – 5Estando alguns a falar acerca do templo, que estava ornado com belas pedras e ofertas votivas[281], Ele disse: 6«Quanto a isto que estais a contemplar, dias virão em que não ficará pedra sobre pedra que não venha a ser derrubada»[282].
Sinais antecedentes do fim: falsos messias, guerras e perseguições (Mt 10,17-22; 24,3-14; Mc 13,3-13) – 7Interrogaram-no, então, dizendo: «Mestre, quando será isso e qual o sinal, quando essas coisas estiverem prestes a acontecer?». 8Ele disse: «Tomai cuidado, não vos deixeis enganar[283]! Pois muitos virão em meu nome[284], dizendo: "Sou eu" e "O tempo está próximo". Não vades atrás deles. 9Quando ouvirdes falar de guerras[285] e de rebeliões, não fiqueis aterrorizados; é necessário que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será imediatamente o fim».
10Dizia-lhes, então: «Há de levantar-se povo contra povo e reino contra reino; 11haverá grandes tremores de terra e por todo o lado fomes e pestes, acontecimentos terríficos e, do céu, haverá grandes sinais».12«Mas, antes de tudo isto, hão de deitar-vos as mãos e perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e às prisões[286], levando-vos à presença de reis e governadores por causa do meu nome; 13será para vós ocasião de dar testemunho[287]. 14Portanto, ponde nos vossos corações não vos preocupardes como haveis de defender-vos, 15pois Eu vos darei boca e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer. 16Mas sereis entregues até pelos pais, irmãos, familiares e amigos, e hão de causar a morte a alguns de vós; 17sereis odiados por todos por causa do meu nome. 18Mas nem um só cabelo da vossa cabeça se perderá. 19Com a vossa perseverança ganhai as vossas vidas».
Sinais antecedentes do fim: destruição de Jerusalém (Mt 24,15-22; Mc 13,14-20) – 20«Quando virdes Jerusalém cercada por exércitos, sabei, então, que a sua desolação está próxima. 21Então, os que estiverem na Judeia fujam para os montes, os que estiverem no meio da cidade[288] afastem-se e os que estiverem nos campos não entrem nela; 22porque esses serão dias de vingança, para que se cumpra tudo o que está escrito.
23Ai daquelas que tiverem um filho no ventre e das que amamentarem naqueles dias! Haverá uma grande calamidade sobre a terra e ira contra este povo. 24Cairão ao fio da espada[289] e serão levados como cativos para todos os povos. E Jerusalém será espezinhada pelos pagãos, até que se complete o tempo dos pagãos»[290].
Vinda gloriosa do Filho do Homem (Mt 24,29-31; Mc 13,24-27) – 25«Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas e, sobre a terra, angústia sobre os povos, com perplexidade perante o bramido do mar e das ondas, 26enquanto os homens desfalecerão de medo, na expectativa do que sobrevirá ao mundo habitado, pois os poderes dos céus serão abalados. 27Verão, então, o Filho do Homem vir numa nuvem com poder e grande glória. 28Quando isto começar a acontecer, erguei-vos e levantai as vossas cabeças, porque está próxima a vossa libertação».
Parábola da figueira (Mt 24,32-35; Mc 13,28-32) – 29E disse-lhes uma parábola: «Vede a figueira e todas as árvores: 30quando já têm rebentos, ao olhar, ficais a saber por vós próprios que o verão já está próximo; 31assim também vós, quando virdes estas coisas acontecer, sabei que está próximo o reino de Deus. 32Amen vos digo: não passará esta geração, até que todas estas coisas aconteçam. 33O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão».
Necessidade de estar vigilante – 34«Tende cuidado convosco, não aconteça que os vossos corações se tornem pesados com a embriaguez, a bebedeira e as preocupações da vida, e aquele dia venha sobre vós de improviso, 35como uma armadilha[291], pois virá sobre todos os que habitam sobre a face de toda a terra. 36Estai despertos, rezando todo o tempo para que consigais fugir de tudo isto que está prestes a acontecer, e comparecer diante do Filho do Homem».
Últimos dias do ministério de Jesus – 37Durante o dia Jesus estava no templo a ensinar, mas à noite saía e pernoitava no monte, chamado das Oliveiras. 38E todo o povo vinha de madrugada ter com Ele ao templo, para o ouvir.
22 Determinação em matar Jesus (Mt 26,3-5; Mc 14,1s) – 1Aproximava-se a festa dos Ázimos[292], chamada Páscoa. 2Os chefes dos sacerdotes e os doutores da lei procuravam o modo de o eliminar, pois tinham medo do povo.
Traição de Judas (Mt 26,14-16; Mc 14,10s) – 3Satanás entrou em Judas[293], chamado Iscariotes, que era do número dos Doze; <spanstyle="color:red">4foi falar com os chefes dos sacerdotes e os oficiais[294] sobre o modo de entregar Jesus[295]. 5Alegraram-se e combinaram dar-lhe dinheiro. 6Ele aceitou e procurava uma boa oportunidade, sem a multidão, para lho entregar.
Preparação da ceia pascal (Mt 26,17-19; Mc 14,12-16) – 7Chegou, então, o dia dos Ázimos, em que era necessário imolar a Páscoa. 8Jesus enviou Pedro e João, dizendo: «Ide preparar-nos a Páscoa para que a comamos». 9Eles disseram-lhe: «Onde queres que a preparemos?». 10Ele disse-lhes: «Eis que, ao entrardes na cidade, virá ao vosso encontro um homem carregando uma bilha de água[296]. Segui-o até à casa em que entrar 11e direis ao senhor da casa: «O mestre diz-te: "Onde é a sala em que hei de comer a Páscoa com os meus discípulos?"». 12Ele vos mostrará no andar superior uma sala grande e mobilada. Preparai-a lá». 13Eles partiram, encontraram tudo tal como Ele lhes dissera e prepararam a Páscoa.
A ceia do Senhor (Mt 26,20-29; Mc 14,17-25; Jo 13,2.21-26; 1Cor 11,23-25) – 14Quando chegou a hora, reclinou-se à mesa e os apóstolos com Ele. 15E disse-lhes: «Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco, antes de padecer; 16pois digo-vos que não mais a comerei, até que ela se cumpra no reino de Deus».
17E, recebendo um cálice, depois de dar graças, disse: «Tomai isto e reparti entre vós, 18pois digo-vos que, de agora em diante, não mais beberei do fruto da videira, até que venha o reino de Deus». <spanstyle="color:red">19E, tomando um pão, depois de dar graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: «Este é o meu corpo dado em favor de vós. Fazei isto em minha memória»[297]. 20Depois de cear, fez o mesmo com o cálice, dizendo: «Este cálice é a nova aliança[298] no meu sangue, derramado em favor de vós». 21«Mas eis que a mão do que me vai entregar está comigo à mesa. 22De facto, o Filho do Homem parte, como está determinado, mas ai daquele homem por quem é entregue»! 23Então eles começaram a debater entre si qual deles estaria prestes a fazer tal coisa.
Os chefes devem servir (Mt 20,24-28; Mc 10,41-45) – 24Surgiu também uma discussão entre eles, sobre qual deveria ser considerado o maior. 25Ele, porém, disse-lhes:
«Os reis dos pagãos exercem domínio sobre eles, e os que têm autoridade sobre eles são chamados benfeitores[299]. 26Vós, porém, não sejais assim. Pelo contrário, o maior entre vós seja como o mais novo[300], e o que manda como o que serve. 27Quem é, de facto, o maior: o que está reclinado à mesa ou o que serve? Não é o que está reclinado à mesa? Ora, Eu estou no meio de vós como o que serve. 28Vós sois os que perseverastes comigo nas minhas provações, 29e Eu disponho[301] para vós um reino como o meu Pai o dispôs para mim, 30para que comais e bebais à minha mesa, no meu reino, e vos senteis em tronos a julgar as doze tribos de Israel».
Anúncio da negação de Pedro (Mt 26,34s; Mc 14,30s; Jo 13,37s) – 31«Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos joeirar como o trigo, 32mas Eu pedi por ti para que a tua fé não desfaleça. E tu, uma vez convertido[302], fortalece os teus irmãos». 33Ele disse-lhe: «Senhor, estou preparado para ir contigo para a prisão e para a morte». 34Mas Ele disse-lhe: «Digo-te, Pedro: não cantará hoje o galo sem que por três vezes tenhas negado conhecer-me».
A iminência da provação – 35E disse-lhes: «Quando vos enviei sem saca, sem bolsa e sem sandálias, faltou-vos alguma coisa?». Eles disseram: «Nada». 36Disse-lhes, então: «Mas, agora, quem tem saca pegue nela, assim como na bolsa, e quem não tem venda a sua capa e compre uma espada. 37Pois digo-vos: é necessário que seja consumado em mim isto que está escrito: Foi contado entre os malfeitores. De facto, o que está escrito acerca de mim tem agora consumação. 38Eles disseram: «Senhor, eis aqui duas espadas». Mas Ele disse-lhes: «Basta!».
Oração de Jesus no Monte das Oliveiras (Mt 26,30.36-46; Mc 14,26.32-38) – 39Então, saindo, foi como de costume para o Monte das Oliveiras. Seguiram-no também os discípulos. 40Quando chegou ao lugar, disse-lhes: «Rezai para não entrardes em tentação». 41E Ele afastou-se deles quase à distância do lançamento de uma pedra e, ajoelhando-se, rezava, 42dizendo: «Pai, se queres, afasta de mim este cálice[303]! No entanto, não se faça a minha vontade mas a tua». 43Apareceu-lhe, então, um anjo do céu a confortá-lo.
44Tendo entrado em agonia, rezava mais intensamente, e o seu suor tornou-se como gotas de sangue que caíam na terra. 45Levantando-se da oração, ao ir ter com os discípulos, encontrou-os a dormir de tristeza. 46E disse-lhes: «Porque dormis? Levantai-vos e rezai, para que não entreis em tentação».
Prisão de Jesus (Mt 26,47-56; Mc 14,43-50; Jo 18,3-11) – 47Ainda Ele falava, e eis que chegou uma multidão. Um dos Doze, chamado Judas, ia à frente deles e aproximou-se de Jesus para o beijar. 48Mas Jesus disse-lhe: «Judas, é com um beijo que entregas o Filho do Homem?». 49Ao verem o que iria acontecer, os que estavam com Ele disseram: «Senhor, atacamos com a espada?». 50E um deles atacou o servo do sumo-sacerdote e cortou-lhe a orelha direita. 51Mas, em resposta, Jesus disse: «Deixai! Basta!». E, tocando-lhe na orelha, curou-o. 52Depois, disse Jesus aos que estavam junto a si, os chefes dos sacerdotes, os guardiães do templo e os anciãos: «Como se faz a um salteador, saístes com espadas e varapaus? 53Dia após dia, enquanto estava convosco no templo, não me deitastes as mãos: mas esta é a vossa hora e o poder das trevas».
Pedro renega Jesus (Mt 26,57s.69-75; Mc 14,53s.64-72; Jo 18,12-18.25-27) – 54Tendo-se apoderado de Jesus, levaram-no e fizeram-no entrar na casa do sumo-sacerdote. Pedro seguia-o de longe. 55Mas, quando acenderam uma fogueira no meio do pátio e se sentaram juntos, Pedro foi sentar-se no meio deles.
56Uma jovem serva, ao vê-lo sentado ao lume, olhou-o fixamente e disse: «Também este estava com Ele». 57Mas ele negou, dizendo: «Não o conheço, ó mulher». 58Pouco depois, um outro, ao vê-lo, afirmou: «Também tu és um deles». Mas Pedro afirmou: «Ó homem, não sou». 59E, cerca de uma hora depois, um outro insistia, dizendo: «Na verdade, também este estava com Ele, pois também é galileu». 60Disse Pedro: «Ó homem, não sei o que dizes».
E, subitamente, ainda ele falava, um galo cantou. 61Voltando-se, o Senhor fixou o olhar em Pedro. Pedro recordou-se, então, daquilo que o Senhor lhe dissera: «Antes que hoje um galo cante, negar-me-ás três vezes». 62E, saindo, chorou amargamente.
Jesus é ultrajado (Mt 26,67; Mc 14,65) – 63Os homens que o guardavam escarneciam dele, espancando-o. 64Depois de o terem vendado, interrogavam-no, dizendo: «Profetiza! Quem te bateu?». 65E, blasfemando, diziam muitas outras coisas contra Ele.
Jesus diante do Sinédrio (Mt 27,1; 26,57.63-65; Mc 15,1; 14,53.61-64; Jo 18,19-24) – 66Quando se fez dia, reuniu-se o conselho dos anciãos do povo, os chefes dos sacerdotes e também os doutores da lei. Levaram-no ao sinédrio deles, 67dizendo: «Se tu és o Cristo, diz-nos». Ele disse-lhes: «Se vos disser, não acreditareis, 68e se vos perguntar, jamais respondereis. 69A partir de agora o Filho do Homem estará sentado à direita do poder de Deus»[304]. 70Disseram todos: «Tu és, então, o Filho de Deus?». Ele disse-lhes: «Vós dizeis que Eu sou». 71Eles disseram: «Que necessidade temos ainda de testemunhas? Nós próprios o ouvimos da sua boca».
23 Jesus perante Pilatos (Mt 27,2.11-14; Mc 15,1-5; Jo 18,28-38) – 1Tendo-se levantado toda a assembleia deles, levaram-no à presença de Pilatos. 2Começaram, então, a acusá-lo, dizendo: «Encontrámos este homem[305] a incitar o nosso povo[306], a impedir de pagar os impostos a César e a dizer que Ele próprio é o Cristo, o rei». 3Então Pilatos perguntou-lhe, dizendo: «Tu és o rei dos judeus?». Ele, respondendo-lhe, afirmou: «Tu o dizes». 4Pilatos disse, então, aos chefes dos sacerdotes e às multidões: «Não encontro culpa alguma neste homem». 5Mas eles insistiam, dizendo: «Instiga o povo, ensinando por toda a Judeia, tendo começado desde a Galileia até aqui».
Jesus perante Herodes – 6Ao ouvir isto, Pilatos indagou se o homem era galileu 7e, ao perceber que era da jurisdição de Herodes[307], remeteu-o a Herodes[308], que também estava em Jerusalém nesses dias. 8Herodes, ao ver Jesus, alegrou-se muito, pois desde há muito tempo que o queria ver, por causa do que ouvia dizer acerca dele, e esperava ver algum sinal feito por Ele. 9Interrogou-o com muitas perguntas[309], mas Ele nada lhe respondeu.
10Estavam presentes os chefes dos sacerdotes e os doutores da lei que o acusavam com veemência. 11Então Herodes, com as suas tropas, escarnecendo dele, revestiu-o com uma veste esplêndida e remeteu-o a Pilatos. 12Naquele dia, Herodes e Pilatos tornaram-se amigos um do outro, pois antes havia inimizade entre eles.
A condenação de Jesus à morte (Mt 27,20-26; Mc 15,11-15; Jo 18,38-19,1) – 13Então Pilatos, tendo convocado os chefes dos sacerdotes, os magistrados[310] e o povo, 14disse-lhes: «Trouxestes-me este homem como agitador do povo, mas eis que eu, ao inquiri-lo na vossa presença, não encontrei neste homem culpa alguma em relação àquilo de que o acusais; 15nem mesmo Herodes, pois remeteu-o para nós. Eis que Ele não cometeu nada que seja merecedor de morte. 16Portanto, depois de o castigar, vou libertá-lo». (17)[311]
18Então gritaram todos em conjunto, dizendo: «Leva esse e liberta-nos Barrabás»[312]. 19Este fora metido na prisão por causa de uma revolta acontecida na cidade, e por assassínio.
20Pilatos, querendo libertar Jesus, interpelou-os de novo. 21Eles, porém, vociferavam, dizendo: «Crucifica-o! Crucifica-o!». 22Ele, pela terceira vez, disse-lhes: «Mas que mal fez este? Não encontro nele culpa alguma punível com a morte[313]. Portanto, depois de o castigar, vou libertá-lo». 23Eles, porém, insistiam com grandes gritos, pedindo que fosse crucificado, e os seus gritos prevaleciam.
24Então Pilatos decidiu que o pedido deles se realizasse: 25libertou aquele que, por revolta e assassínio, fora lançado na prisão, como lhe pediam, e entregou Jesus à vontade deles.
A caminho do Calvário (Mt 27,31s; Mc 15,20s; Jo 19,16s) – 26Quando o levaram, agarraram um certo Simão, de Cirene[314], que vinha do campo, e puseram-lhe a cruz em cima para a levar atrás de Jesus. 27Seguia-o uma grande multidão do povo e de mulheres que batiam no peito[315] e se lamentavam por Ele. 28Mas Jesus, voltando-se para elas, disse: «Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos, 29porque eis que vêm dias em que dirão: "Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram". 30Começarão, então, a dizer aos montes: "Caí sobre nós", e às colinas: "Escondei-nos". 31Porque se fazem isto com o madeiro verde, o que acontecerá com o seco?». 32Levavam também com Ele outros dois malfeitores para serem executados.
Crucificação de Jesus (Mt 27,32-44; Mc 15,21-32; Jo 19,17-27.29) – 33Quando chegaram ao lugar chamado Caveira, ali o crucificaram, bem como aos dois malfeitores, um à direita e o outro à esquerda. 34Jesus dizia: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem». Dividiram, então, as suas vestes, lançando sortes[316]. 35O povo estava presente a observar. E os chefes, por sua vez, troçavam, dizendo: «Salvou outros, que se salve a si mesmo, se é o Cristo de Deus, o eleito!»[317]. 36Também os soldados o escarneciam. Aproximando-se, ofereciam-lhe vinagre, 37dizendo: «Se Tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!».
38Por cima dele havia um letreiro: «Este é o rei dos judeus». 39Um dos malfeitores suspenso na cruz[318] blasfemava contra Ele, dizendo: «Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!». 40Mas o outro, em resposta, repreendendo-o severamente, afirmou: «Nem a Deus temes, tu que estás sujeito à mesma pena?»[319]. 41Para nós é justo, pois recebemos o que as nossas ações mereciam, mas este nada fez de errado». 42E dizia: «Jesus, recorda-te de mim quando fores para o teu reino». 43Ele disse-lhe: «Amen te digo: hoje estarás comigo no paraíso».
Morte de Jesus (Mt 27,45-56; Mc 15,33-41; Jo 19,25.28-30) – 44Era já quase a hora sexta e fez-se trevas sobre toda a terra até à hora nona[320], 45quando o sol se eclipsou[321]; o véu do templo rasgou-se[322] a meio e 46Jesus, clamando com voz forte, disse: «Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito»[323]. Dito isto, expirou.
47Ao ver o que acontecera, o centurião glorificava Deus, dizendo: «Realmente, este homem era justo!»[324]. <spanstyle="color:red">48Todas as multidões que tinham comparecido para aquele espetáculo, ao observar o que acontecera, voltavam batendo no peito. 49Estavam presentes, mas ao longe, a ver estas coisas, todos os seus conhecidos, bem como as mulheres que o seguiam desde a Galileia.
Sepultura de Jesus (Mt 27,57-61; Mc 15,42-47; Jo 19,38-42) – 50Eis que havia um homem, de nome José, um membro do Conselho, homem bom e justo. 51Este não tinha concordado com a decisão nem com o procedimento deles. Era de Arimateia, cidade dos judeus, e esperava o reino de Deus. 52Este, indo ter com Pilatos, pediu o corpo de Jesus. 53Ao descê-lo da cruz[325], envolveu-o num lençol e pô-lo num sepulcro escavado na rocha[326], onde ainda ninguém tinha sido posto. 54Era o dia da preparação, e estava a despontar o sábado. 55Seguiram-no as mulheres que tinham vindo com Ele desde a Galileia; observaram o sepulcro e como fora posto o seu corpo. 56Ao regressarem, prepararam aromas e perfumes, e no sábado repousaram segundo o mandamento.
24 O sepulcro vazio e anúncio da ressurreição (Mt 28,1-8; Mc 16,1-4; Jo 20,1-13) – 1Mas, no primeiro dia da semana, ao amanhecer, foram ao sepulcro levando os aromas que tinham preparado[327]. 2Encontraram a pedra removida[328] do sepulcro 3e, ao entrarem, não encontraram o corpo do Senhor Jesus[329]. 4E aconteceu que, estando elas perplexas com isto, eis que se lhes apresentaram dois homens em vestes resplandecentes. 5Estando elas cheias de medo, e com o rosto inclinado para a terra, eles disseram-lhes: «Porque procurais entre os mortos aquele que está vivo[330]? 6Não está aqui; ressuscitou. Recordai-vos de como vos falou quando ainda estava na Galileia, 7dizendo: «É necessário o Filho do Homem ser entregue às mãos de homens pecadores, ser crucificado e ao terceiro dia ressuscitar».
8Recordaram-se, então, das suas palavras 9e, ao voltar do sepulcro, anunciaram tudo isto aos onze e a todos os outros. 10Eram Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago[331], e as outras que estavam com elas. Diziam estas coisas aos apóstolos, 11mas estas palavras pareceram-lhes sem sentido e não acreditavam nelas. 12Mas Pedro, levantando-se, correu para o sepulcro e, debruçando-se, viu apenas as ligaduras de linho. E voltou para casa, admirado com o sucedido.
Aparição aos discípulos de Emaús (Mc 16,12s) – 13E eis que nesse mesmo dia dois deles estavam a caminho de uma povoação, de nome Emaús, que distava sessenta estádios[332] de Jerusalém. 14Eles conversavam um com o outro acerca de tudo o que acontecera.
15E aconteceu que, enquanto eles conversavam e debatiam, o próprio Jesus, aproximando-se, pôs-se a caminhar com eles. 16Os seus olhos, porém, estavam impedidos de o reconhecer.
17Disse-lhes, então: «Que palavras são essas que trocais entre vós enquanto caminhais?». Pararam com ar pesaroso. 18Um deles, de nome Cléofas, respondendo disse-lhe: «Serás Tu o único forasteiro em Jerusalém a não saber o que lá aconteceu nestes dias?». 19E Ele disse-lhes: «O quê?». Eles disseram-lhe: «O que diz respeito a Jesus de Nazaré, que se tornou um profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo, 20de tal modo que os chefes dos sacerdotes e os nossos magistrados o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. 21Nós esperávamos que fosse Ele quem estava prestes a resgatar Israel, mas, com tudo isto, já lá vai o terceiro dia desde que estas coisas aconteceram. 22No entanto, algumas mulheres de entre nós deixaram-nos espantados: tendo estado de manhã cedo junto ao sepulcro, 23ao não encontrarem o seu corpo, vieram dizer que tinham tido uma visão de uns anjos que dizem que Ele está vivo. 24Alguns dos que estão connosco foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres haviam dito; mas a Ele não o viram».
25Então Ele disse-lhes: «Ó desprovidos de inteligência e lentos de coração para acreditar em tudo quanto disseram os Profetas! 26Não era necessário que o Cristo sofresse estas coisas, para entrar na sua glória?». 27E, começando a partir de Moisés[333] e de todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, o que a Ele dizia respeito.
28Aproximaram-se da povoação para onde iam, e Ele fez menção de seguir adiante, 29mas eles insistiram com Ele, dizendo: «Fica connosco, porque é tarde e o dia já está a declinar». Entrou, então, para permanecer com eles. 30E aconteceu que, quando Ele se reclinou com eles à mesa, tomando o pão, pronunciou a bênção[334] e, partindo-o, deu-lho. 31Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-no, mas Ele deixou de lhes ser visível. 32Diziam, então, um ao outro: «Não nos ardia o nosso coração quando Ele no caminho nos falava, quando nos abria as Escrituras?».
33E, levantando-se, nessa mesma hora voltaram para Jerusalém. Encontraram reunidos os onze e os que estavam com eles, 34que diziam: «Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão». 35Então eles contaram o que acontecera no caminho, e como Ele se lhes dera a conhecer na fração do pão.
Jesus aparece aos Onze (Mc 16,14-19; Jo 20,19-23) – 36Enquanto eles falavam disto, Ele apresentou-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!», 37mas, aterrorizados e assustados, pensavam estar a ver um espírito.
38Disse-lhes: «Porque estais perturbados e por que razão surgem esses pensamentos no vosso coração? 39Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo. Tocai-me e vede, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho».
40Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. 41E dado que, de alegria, ainda não acreditavam e estavam admirados, disse-lhes: «Tendes aqui alguma coisa para comer?». 42Eles deram-lhe um pedaço de peixe assado. 43Tomando-o, comeu diante deles[335].
Missão dos discípulos – 44Disse-lhes, então: «Estas são as minhas palavras, que vos disse enquanto estava convosco: "É necessário que se cumpra tudo o que está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos acerca de mim».
45Abriu-lhes, então, a inteligência para entenderem as Escrituras. 46E disse-lhes: «Assim está escrito que o Cristo havia de sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, 47e que havia de ser proclamada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos. Começando por Jerusalém, 48vós sois testemunhas destas coisas. 49E eis que Eu vou enviar sobre vós a promessa do meu Pai[336]; vós, ficai na cidade[337] até serdes revestidos com o poder do alto».
Ascensão de Jesus (Mc 16,19s) – 50Então levou-os para fora até junto de Betânia e, erguendo as suas mãos, abençoou-os. 51E aconteceu que, enquanto Ele os abençoava, ia-se afastando deles e era elevado ao céu. 52E eles, depois de se ajoelharem diante dele, voltaram para Jerusalém com grande alegria, 53e estavam continuamente no templo a bendizer a Deus[338].
- ↑ César Augusto foi imperador de Roma entre 27 a. C. e 14 d. C.. Este recenseamento deve ter ocorrido no ano 6 d.C., dez anos depois da morte de Herodes, o Grande, quando Jesus tinha c. doze anos. Escrevendo à distância e sem dados históricos precisos, Lc adianta uma data aproximada, com o intento de enquadrar historicamente o acontecimento. A expressão todo o mundo habitado designava, na altura, o império romano.
- ↑ Trata-se de Públio Sulpício Quirino, governador da província romana da Síria, entre 4 e 1 a.C., e responsável pela política romana no Médio Oriente.
- ↑ No AT, a cidade de David é sempre Jerusalém (2Sm 5,7.9; 6,10.12; Is 22,9). A atribuição deste título a Belém deve ter a ver com Mq 5,1 (1Sm 16,1; Mt 2,6; Jo 7,42).
- ↑ A hospedaria ou sala dos hóspedes (katályma, em grego; em 22,11 o termo designa a sala da última ceia) estaria sobrelotada e, por razões de recato e de pureza ritual, não era o lugar adequado para dar à luz. Maria ter-se-ia recolhido ao curral dos animais, como sugere a palavra manjedoura (neste v. e também no v. 12). Não se trata seguramente de uma estalagem, porque, para se referir a ela, Lc usa a palavra pandokheîon (10,34).
- ↑ Em virtude do seu ofício (viviam afastados da prática religiosa e lidavam com animais impuros), os pastores eram considerados marginais. Numa clara ilustração da teologia lucana (a salvação destina-se, em primeiro lugar, aos excluídos), eles são os primeiros destinatários da mensagem (1,52).
- ↑ A expressão glória do Senhor é usada também no relato da transfiguração (9,32), nas narrativas pascais (24,26) e nas referências à vinda escatológica (9,26; 21,27).
- ↑ Salvador é um título que o AT reserva para Deus. No NT é usado com frequência para Jesus (Jo 4,42; At 5,31; 13,23; Ef 5,23; Fl 3,20; 2 Pd 1,1.11; 2,20). Messias Senhor (cf. v. 26) é o título messiânico usado pelo AT (versão grega), ao passo que o NT usa Cristo Senhor.
- ↑ Glória a Deus (Sl 148,1) e paz na terra (Is 9,5s; 52,7; 57,19; Mq 5,4; Ef 2,14-17; Lc 1,79) são os sinais claros da paz messiânica, em substituição da pax romana.
- ↑ Em grego eudokía (benevolência).
- ↑ Lit.: deram a conhecer acerca da palavra (rhḗma) que lhes tinha sido falada.
- ↑ Depois das manifestações divinas e dos milagres, Lc refere que os presentes dão glória a Deus (5,25.26; 7,16; 13,13; 17,15.18; At 4,21) e lhe dirigem o louvor (18,43; 19,37; At 3,8.9).
- ↑ Lit.: no ventre.
- ↑ A Lei prescrevia a apresentação da mãe no templo (Lv 12,1-8), mas não a do menino.
- ↑ Lit.: subiram-no.
- ↑ Lit.: todo o varão que rasga a mãe, santo para o Senhor será chamado.
- ↑ Sobre a lei do resgate, cf. Ex 34,20; Nm 18,15-16. Nada se diz sobre o resgate de Jesus, mas sim sobre a purificação da mãe: duas rolas ou duas pombas (Lv 12,8).
- ↑ Ou o Espírito [que estava] sobre ele era Santo.
- ↑ Lit.: no Espírito.
- ↑ Lit.: ele.
- ↑ Para melhor compreender o cântico de Simeão (Nunc dimittis), onde se revelam alguns dos traços da missão do menino, cf. Is 40,5; 42,6; 45,25; 46,13; 49,6; 52,10.
- ↑ O oráculo de Simeão tem Maria como único destinatário e parece pressupor o conhecimento de Jo 19,25.
- ↑ Lit.: ela era muito avançada nos dias; cf. Sl 23,6; 26,8; 27,4; 84,5.11.
- ↑ Lit.: resgate, como no caso da lei dos primogénitos (v. 7).
- ↑ A Lei de Moisés sugeria que os judeus deveriam fazer três peregrinações por ano (Ex 23,14-17; 34,22-23; Dt 16,16). Talvez Lc se inspire em 1Sm 1,3.7.
- ↑ Era pelos doze anos que o rapaz israelita se tornava filho do preceito (bar-mitsvāh).
- ↑ O termo grego paîs (criança, menino) é diferente do paidíon do v. 40 (que normalmente designa um menino até cerca dos sete anos).
- ↑ O deî grego expressa frequentemente nos evangelhos uma necessidade teológica.
- ↑ A expressão meu Pai, motivo da incompreensão de Maria e José (v. 50), volta a aparecer no final do evangelho (23,46; 24,49), em jeito de inclusão.
- ↑ Lit.: a palavra que.
- ↑ Cf. 1,80; 2,40. Esta conclusão parece inspirar-se em 1Sm 2,21.26.
- ↑ Lc situa a missão de João e a de Jesus (v. 23) na história do mundo pagão (império romano) e na do povo judeu (1,5 e 2,1-2). Tibério, que sucede a César Augusto, foi imperador romano entre 14 e 37 d.C. O décimo quinto ano do seu reinado será o ano 28 ou 29 da era cristã. Pôncio Pilatos foi governador da Judeia, Idumeia e Samaria, entre 26 e 36 da era cristã. Herodes Ântipas governou a Galileia e a Pereia, de 4 a.C. a 39 d.C.. Filipe foi governador de alguns distritos a nordeste do Lago de Tiberíades, de 4 a.C. a 34 d.C.. Lisânias é pouco conhecido e dependeria do rei Herodes Agripa II. Talvez Lc o inclua aqui pelo facto de o seu território ser pagão, num aceno à universalidade da salvação.
- ↑ Príncipe dependente de uma autoridade estrangeira ocupante, governante inferior a um rei.
- ↑ Anás foi deposto do cargo de sumo-sacerdote, no ano 15 d.C.. É aqui nomeado porque, sendo sogro de Caifás, continuava a exercer uma grande influência (Jo 18,13-24; At 4,6). Caifás foi sumo-sacerdote entre 18 e 36 d.C. Era o chefe do povo de Israel e é nomeado por último em contraposição com o imperador romano. O chamamento de João tem muito a ver com o de Jeremias (Jr 1,1). Assim se realça o seu caráter profético.
- ↑ Is 40,3-5.
- ↑ Isto é, toda a criatura; trata-se de uma expressão hebraica (Gn 6,12).
- ↑ Vv. 10-14. Estes vv. são específicos de Lc. Com a pergunta que devemos fazer? (At 2,37; 16,30; 22,10) realça-se a disponibilidade de todos (as multidões) e particularmente dos pecadores públicos (cobradores de impostos e soldados) para a conversão. Se João não lhes exige que deixem a sua profissão, é porque converter-se apenas exige mudar de estilo de vida, praticando a justiça e a caridade.
- ↑ De origem grega (khristós), este título significa ungido e corresponde ao hebraico māchîah, Messias (em Israel eram ungidos os sacerdotes, os profetas e os reis). Era entendido, por esta altura, em sentido eminentemente político (20,41; 22,67; 23,2.35.39). Não raras vezes os discípulos de João se interrogam se o seu mestre não será o messias (Jo 1,19-20; 3,28).
- ↑ Hýdati também pode ter um sentido instrumental (com água).
- ↑ Forte é um título messiânico ao qual Lc vai voltar, em 11,22 (cf. Is 9,5; 11,2). Lc contrapõe o batismo de João ao de Jesus (At 1,5; 11,16).
- ↑ Desatar as correias das sandálias era uma atitude de escravo que um hebreu não podia permitir a um membro do seu povo (Jo 8,33). Os Profetas usam as imagens da ceifa, da pá de joeirar (Jr 15,7; 51,2) e do fogo aplicado à palha (Is 5,24; 47,14; Jl 2,5; Na 1,10) para falar do juízo de Deus. Ao referir que se trata de um fogo inextinguível (cf. Is 66,24; Mc 9,43.48), João dá um colorido escatológico à sua imagem. Sobre o juízo divino e o dia do Senhor, cf. Sl 7,8; Is 13,9; Ez 13,5; Dn 8,19; Am 5,18-20; Mt 25,31-46; 1Cor 3,13.15; 1Ts 2,19.
- ↑ Herodíade era neta de Herodes, o Grande. Deixou o marido e tio, Filipe, para se unir a Herodes Ântipas (Mt 14,3; Mc 6,17-18).
- ↑ Assim se encerra a missão de João, ainda antes do batismo de Jesus. Deste modo, Lc distingue a missão de um e de outro, assinalando dois períodos distintos da história da salvação. Só em 9,7-9 fará uma referência breve à morte de João.
- ↑ De forma solidária, Jesus participa no processo da conversão do seu povo e dá-lhe sentido. A oração de Jesus é um tema caro a Lc (5,16; 6,12; 9,18.28-29; 10,21; 11,1; 22,32.40-46; 23,34.46). Sobre os céus que se rasgam, cf. Is 63,19.
- ↑ Ao contrário de Mt, que coloca a genealogia no início do evangelho, Lc apresenta-a depois de Jesus ter sido revelado como Filho de Deus. Além disso, Mt parte de Abraão para Jesus, e Lc de Jesus para Adão e Deus, realçando a universalidade de Jesus e da sua mensagem. A genealogia pretende fundamentar a ascendência davídica de Jesus e a sua legitimidade messiânica.
- ↑ Lc é o único a referir os trinta anos de Jesus. Pode tratar-se de uma alusão a David que começou a reinar com a mesma idade (2Sm 5,4). Era tido como filho de José é uma forma de sublinhar a conceção virginal de Jesus.
- ↑ É evidente a dupla referência ao Espírito recebido no batismo. Com ele, Jesus vai vencer as tentações e dar início à sua missão (4,14.18).
- ↑ Lc une Mc 1,13 (tentação durante os quarenta dias) com Mt 4,2 (três tentações ao fim de quarenta dias). O número quarenta designa, na Escritura, uma geração (1Sm 13,1), o tempo que Moisés passou na montanha (Ex 24,18), a caminhada de Elias (1Rs 19,8) e o tempo que Israel vagueou pelo deserto, antes de entrar na Terra Prometida (Js 5,6).
- ↑ O nome Diabo (do grego diábolos: aquele que divide) é o mais frequente para designar o inimigo de Deus e do seu reino. O tentador retoma a palavra divina, pronunciada aquando do batismo (3,22: Tu és o meu filho amado...), pondo em relação a tentação com a teofania batismal.
- ↑ Dt 8,3 e Mt 4,4.
- ↑ Lit.: se te ajoelhares diante de mim.
- ↑ A prostração e a adoração remetem para a submissão total. Contudo, segundo Dt 6,13, aqui citado, só a Deus se deve adorar e servir; adorar é o mesmo verbo ajoelhar do v. 7 (proskynéō), estando Satanás a tentá-lo e a tentar que Jesus o reconheça como Deus.
- ↑ Sl 91,11-12.
- ↑ Esta é a primeira vitória de Jesus sobre o Diabo. Outras vão acontecer em 4,41; 6,18; 7,21; 8,2; 10,17-18. A última será em 22,3.53, já no cenário da paixão. A primeira vitória é sinal da última.
- ↑ Lc conjuga, nestes dois vv., a citação de Is 61,1-2a e 42,7, cortando intencionalmente a parte final: o dia da vingança da parte do nosso Deus (Is 61 2b). O ano da graça ou ano favorável é o ano jubilar, celebrado em Israel de cinquenta em cinquenta anos (Lv 25,8-17).
- ↑ É Lc quem mais destaca a atualidade da salvação (2,11; 5,26; 13,32; 19,9; 23,43).
- ↑ Em grego parabolḗ.
- ↑ Apesar de não ter nascido lá, Nazaré é vista como a terra de origem de Jesus, pois foi aí que ele cresceu. Com base no passado, Jesus prevê a rejeição futura do seu povo.
- ↑ Dektós, o mesmo termo do v. 19 (traduzido por favorável).
- ↑ Cf. 1Rs 17,1-24; 18,1; Tg 5,17.
- ↑ Cf. 2Rs 5,1-15.
- ↑ Ninguém pode deter o caminho de Jesus, que só terminará em Jerusalém (13,33).
- ↑ Lit.: e na autoridade a sua palavra existia. Lc mostra a autoridade de Jesus, mediante os ensinamentos (v. 32) e exorcismos (v. 36).
- ↑ É a primeira referência a Simão, que seguirá Jesus a partir de 5,1-11.
- ↑ Lit.: pediram-lhe por ela.
- ↑ Judeia. Alguns mss. e também Mc 1,39 usam a palavra Galileia. Sendo o país dos judeus genericamente conhecido como Judeia, Lc usa esta terminologia no sentido de país e não de região.
- ↑ Ao contrário dos outros evangelistas, Lc nunca lhe chama mar.
- ↑ Lit.: afasta-te para o profundo.
- ↑ Epistátēs (o que está acima, mestre) é um título que só se encontra em Lc e sempre na boca dos discípulos (8,24.45; 9,33.49), à exceção de 17,13.
- ↑ É a única vez que Lc atribui a Pedro este duplo nome (Mc 16,16; Jo 21,2.3.7.11).
- ↑ Lc dá um relevo particular a Pedro, e é o único evangelista a sublinhar que, para seguir o Mestre, os discípulos devem deixar tudo (v. 28; 12,33; 14,33; 18,22).
- ↑ A lepra era vista como um castigo divino (Dt 28,27.35), fruto do pecado que exclui da comunidade (Lv 13-14).
- ↑ Uma vez curado, o ex-leproso devia mostrar-se ao sumo-sacerdote para o rito de purificação (Lv 14,2s). Não é de todo claro se este testemunho tem a ver com o leproso ou com Jesus.
- ↑ 5,17-6,11: secção de controvérsias.
- ↑ Levi é o nome dado por Lc e Mc a Mateus, o cobrador de impostos, que Jesus chamou para seu discípulo (Mt 9,9; Mc 2,14).
- ↑ Lit.: os filhos do noivado (toùs huioùs toû nymphônos): estes são os filhos do quarto nupcial ou os convidados para o banquete nupcial; a expressão pode indicar quer os amigos do noivo, quer os convidados para as núpcias em sentido geral.
- ↑ Os exemplos têm como finalidade levar à escolha entre o ritualismo judaico (o velho) e a novidade do evangelho (o novo). O assunto é versado também em Mt 9,17.
- ↑ À censura dos fariseus, Jesus responde com exemplos da Escritura (Lv 24,5-9; 1Sm 21,2-7). Sobre os pães da proposição, cf. Ex 25,30; Lv 24,5-9; 1Sm 21,3-5; 1Cr 9,28-32; Ez 41,16-26.
- ↑ Lit.: ressequida.
- ↑ A entrega de Jesus à oração é típica de Lc e diz muito da importância que lhe dá.
- ↑ Na tradição bíblica, receber um nome novo é receber uma nova missão (Ex 3,14-15; Lv 24,11; 1Sm 1,20; Pr 18,10; Is 1,26).
- ↑ Os zelotes opunham-se, de modo violento, à ocupação dos romanos.
- ↑ Judas, filho de Tiago, é Judas Tadeu (Mt 10,3; Mc 3,18). Iscariotes pode significar oriundo de Keriot (povoação da Palestina meridional: Js 15,25; Am 2,2), mentiroso (raiz aramaica) ou sicário (como transcrição semítica da palavra latina sicarius).
- ↑ Já o AT anunciava que os esfomeados seriam saciados (Is 49,10; Jr 31,12.25; Ez 34,29; 36,29) e acrescentava ao pranto (Is 25,6-9) o anúncio da alegria.
- ↑ Lit.: saltai (de alegria).
- ↑ Depois das quatro bem-aventuranças, Lc apresenta quatro imprecações sobre aqueles que são felizes neste mundo, segundo um esquema que vem já do AT (Is 3,10-11; Jr 17,5-8).
- ↑ Is 65,13-14.
- ↑ Lc prefere a linguagem veterotestamentária da misericórdia (Ex 34,6s; Dt 4,31; Sl 78,38; 86(85),15...) à da perfeição (Mt 5,48). Dado que o termo misericordiosos ilustra bem o sentido de conjunto do texto (vv. 36-42), pode ter sido esse o utilizado por Jesus.
- ↑ Os passivos aqui usados (passivos divinos ou teológicos) evocam a ação divina e dispensam que se fale no nome de Deus.
- ↑ Lit.: e o mau do mau extrai o mal.
- ↑ O centurião é um oficial do exército romano que comanda cerca de cem soldados. Lc refere explicitamente o bom relacionamento deste com os judeus (vv. 3-5) e a sua humildade (vv. 6-7). Ao dar-lhe importância, está a preparar terreno para a entrada dos gentios na Igreja.
- ↑ Lc atribui este título a Jesus cerca de vinte vezes, Mt e Mc usam-no uma única vez (Mt 21,3; Mc 11,3).
- ↑ Na Palestina, os corpos eram levados para a sepultura numa padiola e envoltos num lençol. Lc apresenta a cena ao modo greco-romano. Tocar num cadáver era motivo de impureza (Nm 5,2).
- ↑ Levanta-te é o verbo usado para falar da ressurreição dos mortos (Dn 12,2). Lc usa-o para falar da ressurreição no último dia (20,37) e das ressurreições operadas por Jesus (v. 22; 8,54).
- ↑ Jesus é acrescento da tradução.
- ↑ A evocação do milagre de Elias (1Rs 17,23) é aqui ainda mais clara.
- ↑ Lit.: és Tu o que vem.
- ↑ É com a linguagem de Isaías que Jesus fala dos seus milagres e da sua pregação (Is 26,19; 29,18; 35,5s; 61,1).
- ↑ Eram muitos os que esperavam o profeta precursor do dia do Senhor (Jo 1,21; 6,14; 7,40). Para o apresentar, Jesus cita Ml 3,1.
- ↑ Para Lc, os filhos da sabedoria são aqueles que acolhem Jesus pela fé (v. 30).
- ↑ Lit.: pedia-lhe.
- ↑ Lc é o único evangelista a apresentar fariseus favoráveis a Jesus, convidando-o para a sua mesa (11,37; 14,1) e prevenindo-o das insídias de Herodes (13,31).
- ↑ Para o fariseu, verdadeiramente insólito não é o que a mulher faz, mas o facto de ela estar ali, tornando impuro o lugar. Este acontecimento ilustra um dos temas preferidos de Lc, a misericórdia de Jesus para com os pecadores (15; 19,1-10; 23,40-43).
- ↑ Lit.: chamado.
- ↑ O denário era uma moeda romana (de um siclo, ou seja, doze gramas) e correspondia ao rendimento de um dia de trabalho agrícola.
- ↑ A água para os pés era, no mundo antigo, uma das exigências da hospitalidade (Gn 18,4; 19,2).
- ↑ Lit.: e disse a ela.
- ↑ Na sua missão, Jesus forma uma comunidade nova, constituída pelos Doze e por diversas mulheres. Os Doze só vão ser enviados em missão em 9,1-2. A referência às mulheres como discípulas de Jesus (cf. Mt 27,55 e Mc 15,41) é um facto excecional no ambiente da Palestina e muito realçado por Lc. Em primeiro lugar, aparece Maria de Magdala da qual tinham saído sete demónios, um modo muito hebraico de realçar a gravidade do problema e a dimensão da cura. Nada permite afirmar que esta seja a pecadora arrependida da narrativa anterior (Lc 7,36-50), como o fez crer a tradição.
- ↑ O discurso parabólico de Lc é reduzido (cf. Mt 13,1-52 e Mc 4,1-34). Está dividido em dois temas: o mistério de Jesus reservado aos discípulos durante a sua missão (v. 10) e proclamado publicamente após a Páscoa (vv. 16-17).
- ↑ Lc cita uma parte do texto de Is 6,9s (cf. também Dt 29,3; Sl 115,6). O texto completo vai ser citado apenas em At 28,26s, acusando a recusa de uma boa parte de Israel.
- ↑ Ou coração belo e bom (kardía kalê kaì agathê).
- ↑ Irmãos é uma palavra que deve ser enquadrada e entendida no contexto da família patriarcal com que se designava não apenas os filhos do mesmo casal (linha direta), mas também os dos tios (linha colateral), como se pode ver em Gn 13,8 e Dt 1,16. A tónica colocada na palavra de Deus escutada e posta em prática não elimina os laços familiares, antes os alarga e ultrapassa (Lc 11,28).
- ↑ O mar era visto como repositório das forças do mal (Is 51,9s; Dn 7,2-7; Sl 65,8; 89,10; 93,3s). Com esta sua atitude, Jesus manifesta ter poder sobre elas e ser Senhor das forças da natureza.
- ↑ Lit.: a agitação da água.
- ↑ A região dos gerasenos (Mc) ou gadarenos (Mt) é pagã e situa-se na margem oriental do Lago de Tiberíades (também conhecido por Lago de Genesaré).
- ↑ Os desertos são, na mentalidade bíblica, a morada dos seres demoníacos (Lv 16,10; Is 13,21; 34,12.14; Tb 8,3; Br 4,35). Por vezes, o evangelho partilha este modo de ver (Lc 4,1; 11,24).
- ↑ Os porcos, animais impuros, são a ilustração da impureza desta terra pagã (Mc 5,11).
- ↑ Junto aos pés de Jesus é a atitude normal do discípulo, em Lc (10,39; At 22,3).
- ↑ Em Lc, o verbo salvar tanto designa a cura física (6,9; 8,48.50; 17,19; 18,42; 23,35.37.39) como a regeneração espiritual (7,50; 8,12; 19,10).
- ↑ A mulher assume um comportamento discreto, dada a impureza legal da sua doença (Lv 15,1).
- ↑ Testemunhos antigos acrescentam: e os seus companheiros.
- ↑ A força de que Jesus fala é o poder e a graça de Deus que por Ele atuam.
- ↑ São os discípulos que acompanham o Mestre noutros momentos importantes: o da transfiguração (9,28) e o de Getsémani (Mt 26,37 e Mc 14,33). Ao contrário de Mc, Lc menciona João antes de Tiago, como em 9,28 e At 1,13.
- ↑ Lit.: golpeavam-se.
- ↑ Cf. 1Rs 17,1-22 (idêntico milagre operado por Elias).
- ↑ Lit.: prata.
- ↑ Sacudir o pó dos pés é um gesto de rutura com os que não acolhem a mensagem. Deste modo, eram considerados pagãos e a sua terra impura (Ne 5,13); cf. ordem igual em Mt 10,14; Mc 6,11 e a sua execução em At 13,51.
- ↑ O regresso de Elias é predito por Ml 3,23 (cf. também Mt 17,19 e Mc 9,11).
- ↑ Os grupos de cinquenta evocam a organização de Israel no deserto (Ex 18,21.25), proposta como a ordem ideal do povo de Deus (Js 8,12; 1 Mc 3,55; Mc 6,44).
- ↑ Os gestos de Jesus evocam a ceia judaica e a própria ceia eucarística, ainda que a ação de graças só aconteça em 22,19.
- ↑ Jesus já tinha sido proclamado Cristo (ou Messias) pelos anjos (1,32-33; 2,11), por Simeão (2,26.30) e pelos demónios (4,41), mas é Pedro o primeiro dos discípulos a dar-lhe este título.
- ↑ Lc não refere o motivo do segredo messiânico, mas deduz-se: Pedro pensa num messianismo temporal, e Jesus aponta para outro, como se infere do anúncio da paixão. Anciãos, chefes dos sacerdotes e doutores da lei são as três categorias de pessoas que compõem o sinédrio.
- ↑ Jesus fala para todos os seus discípulos e não apenas para os Doze (14,27; 17,33; Mt 8,22; 10,38-39).
- ↑ Expressão característica de Lc que sublinha o facto de o discipulado ser permanente.
- ↑ Ver chegar o reino de Deus significa reconhecer a realeza de Jesus ressuscitado (22,69; At 2,36).
- ↑ Lc evita o termo metamorfose que tem para os seus leitores uma ressonância pagã. Prefere falar da transformação do rosto e da glória de Jesus (v. 32).
- ↑ Moisés e Elias aparecem e falam da glória de Jesus porque foram associados à obra de Deus (Ex 34,29-35; 2Cor 3,7-11) e voltaram a Ele de modo misterioso (Dt 34,5s; 2Rs 2,11s).
- ↑ A nuvem que envolve evoca Lc 1,35 e sugere as teofanias veterotestamentárias (Ex 40,35; Nm 9,18.22; 10,34).
- ↑ O escolhido ou eleito é um título que volta a aparecer em Lc 23,35. Provém certamente de Is 49,7 e encontra-se nos escritos apocalípticos do judaísmo.
- ↑ No batismo, a voz do céu apresenta Jesus como Filho muito amado (3,22), usando palavras do Sl 2,7; na transfiguração, apresenta-o como o profeta a quem se deve escutar (cf. At 3,22, citando Dt 18,15).
- ↑ Como em 7,12 e 8,42, Lc insiste nesta condição de filho único, lembrando provavelmente o milagre de Elias (1Rs 17,12).
- ↑ Lit.: contorce-o com espuma.
- ↑ A palavra grega analḗmpsis evoca quer a morte, quer a ascensão de Jesus.
- ↑ Lit.: fixou a sua face... (também no v. 53) / endureceu o seu rosto ... (Is 50,7). Lc sublinha a partida de Jesus para Jerusalém, onde vai consumar-se o mistério pascal.
- ↑ Lit.: à frente da sua face.
- ↑ Os judeus evitavam qualquer tipo de contacto com os samaritanos (e vice-versa), dadas as divergências religiosas e o facto de os considerarem impuros, em virtude da sua origem pagã (2Rs 17,24-41; Sir 50,25-26; Jo 4,9). Jesus desvaloriza tudo isso (10,33-37; 17,16-19).
- ↑ Alusão ao castigo de Elias sobre os enviados de Acazias, rei da Samaria (2 Rs 1,10-12).
- ↑ Estes dois vv. exclusivos de Lc, recordam o chamamento de Eliseu por Elias (1Rs 19,19-21). Jesus é mais exigente do que Elias, pois este permite que Eliseu se despeça dos seus.
- ↑ Em alguns mss. lê-se setenta (o mesmo acontece no v. 17). Em ambos os casos, Lc pretende indicar o número das nações pagãs, segundo Gn 10 (70, na versão hebraica; 72, na versão grega). Lc segue a versão grega e encontra neste envio uma antecipação da missão aos pagãos, que só começou depois da Páscoa e do Pentecostes (Lc 24,47; At 1,8). O episódio é exclusivo de Lc.
- ↑ O grego therismós diz respeito ao ato de colher no tempo próprio e, por extensão de sentido, à própria seara. A imagem da ceifa/colheita é usada pelos Profetas para designar o julgamento de Deus (Is 41,15.16; Jl 4,13). Também para João Batista é obra de Deus (3,17).
- ↑ Lit.: filho da paz, um semitismo para designar aquele que acolhe de Deus o dom da paz.
- ↑ Lit.: poderes (dynámeis); habitualmente este termo é traduzido por milagre, mas a etimologia remete para aquele que realiza tais ações e não tanto para quem as vê.
- ↑ Revestir-se de saco (veste grosseira e, por isso, incómoda e nada confortável) e cobrir-se de cinza eram sinais exteriores do arrependimento e da conversão (Jn 3,7-10).
- ↑ Lit.: Hades, o inferno na mitologia grega.
- ↑ A questão do doutor da lei é respondida por ele próprio, com recurso ao AT (Dt 6,4-9; Lv 19,18).
- ↑ C. 25 quilómetros separam Jerusalém de Jericó. A estrada que liga as duas cidades atravessa o deserto da Judeia. Os assaltos eram frequentes.
- ↑ As parábolas de Lc obedecem ao esquema de três personagens (cf. 14,18-20; 19,6-24; 20,10-12). Sobre os samaritanos, cf. 9,52-53 nota.
- ↑ A parábola aparece encaixada entre duas ordens em que impera o verbo fazer (vv. 25.28). A tónica não é colocada no saber e no dizer, mas no fazer.
- ↑ Marta e Maria são seguramente as duas irmãs de que fala também Jo 11,1-40; 12,1-3.
- ↑ São frequentes, em Lc, as referências à oração de Jesus e, em 5,33, já tinha feito alusão à oração dos discípulos de João.
- ↑ A invocação Pai, sem adjetivo ou pronome, liga esta a outras orações de Jesus (10,21; 22,42; 23,34.46). A de Lc é mais breve do que a de Mt e apresenta algumas diferenças.
- ↑ Alguns mss. acrescentam um pão, lhe dará uma pedra.
- ↑ Belzebu (de Baal-Zebub, senhor das moscas) é, na sua origem, o nome de uma divindade da Síria. Tornou-se depois um dos nomes do príncipe dos demónios (2Rs 1,2; Mt 10,25; Mc 3,22).
- ↑ Lit.: dedo de Deus (Ex 8,15; Sl 8,4; Lc 17,21).
- ↑ Lit.: quando o forte.
- ↑ A severidade da sentença (Mt 12,30), em claro contraste com 9,50 e Mc 9,40, explica-se pelo contexto polémico em que é proferida.
- ↑ Cf. 8,2. O número sete sugere a grandeza da investida e a total possessão da pessoa.
- ↑ O apelo à conversão, que fez de Jonas um sinal para os habitantes de Nínive (Jn 3,2-5), fará de Jesus, o Filho do Homem, um sinal para esta geração.
- ↑ Rainha do sul designa a rainha de Sabá (1Rs 10,1-10). Se Salomão é, no AT, o sábio por excelência (1Rs 3; 5,9-14) e Lc já havia dito que João é maior que um profeta (7,26-27), não restam dúvidas quanto à superioridade de Jesus.
- ↑ Lit.: no juízo, assim como no v. 32.
- ↑ À boa maneira profética, Jesus estabelece a contraposição entre a religião formalista e legalista do exterior, tão característica dos fariseus, e aquela religião que Deus quer, a do interior.
- ↑ A esmola é um tema caro a Lc, o único evangelista a apresentá-lo aqui, como faz também em 12,33; 16,9; 19,8.
- ↑ Lc é o único evangelista a falar da arruda, planta selvagem, cujo pagamento do dízimo era discutido (Dt 14,22-23).
- ↑ Juízo traduz krísis, que diz respeito ao exercício da justiça (julgamento), sendo diferente da expressão dikaiosýnē (justiça).
- ↑ Era costume os túmulos estarem assinalados, a fim de não serem calcados. Lc evoca a dissimulação dos fariseus, mas não deixa de referir que Deus conhece bem os seus corações (16,15).
- ↑ A partir de Herodes, o Grande, foram construídos em Israel grandes túmulos para os profetas, como a arqueologia tem documentado.
- ↑ A morte de Abel e de Zacarias são a primeira e a última das mortes reportadas pela Bíblia Hebraica (Gn 4,8-10; 2Cr 24,20-22). Representam todos os crimes da história sagrada, não tendo em conta os mártires da época macabaica. Segundo a mentalidade do povo da Bíblia, a geração presente deve assumir as responsabilidades das gerações anteriores (responsabilidade solidária e hereditária).
- ↑ Lit.: entre o altar e a casa, ou seja, no espaço entre o altar e o Santo dos Santos.
- ↑ A leitura da expressão hebraica Gē-ben-hinnom (Vale do Filho de Hinnom) dará origem à palavra Geena, um vale situado a oeste e sudoeste da colina de Jerusalém. Era o lugar onde uma fogueira ardia de modo permanente, a fim de queimar os lixos da cidade de Jerusalém.
- ↑ Lit.: dois asses (moeda romana, de cobre, com 10 gramas de peso).
- ↑ Lc apresentará esta mesma promessa de modo diferente em 21,15 e mostra a sua realização, em At 4,8; 5,32; 7,55.
- ↑ Este tipo de arbitragem ou mediação era pedido, com frequência, aos rabinos.
- ↑ Ao recusar uma missão de ordem temporal, Jesus distingue-se de Moisés (Ex 2,14) e dos rabinos do seu tempo.
- ↑ Lit.: disse-lhes uma parábola, dizendo.
- ↑ Em grego psykhḗ (alma ou vida). A palavra significa aqui, como no AT, o ser vivo por inteiro, a pessoa.
- ↑ Um cúbito corresponde a 50 centímetros. Acrescentar um cúbito significa prolongar a duração da vida.
- ↑ Pequenino rebanho é uma imagem muito frequente no AT para designar o povo de Deus (Gn 48,15; Os 4,16; 13,4-6; Mq 2,2-13; 4,6s; 7,14; Sf 3,19; Jr 31,10; 50,19; Ez 34; Is 40,11; 49,9s; Sl 23,1; 95,7). Jesus aplica esta imagem a Israel (Mt 9,36; Mc 6,34), aos hebreus pecadores (Mt 10,6; 15,24; Lc 15,4s; 19,10) ou, como aqui, ao grupo dos discípulos (Mt 26,31; Mc 14,27).
- ↑ Rins cingidos é sinal de prontidão para o trabalho (v. 37; 17,8) ou para o caminho, como parece evocar a referência às lâmpadas acesas. De facto, foi essa a atitude dos hebreus quando, em Ex 12,11, se preparavam para celebrar a Páscoa.
- ↑ A porta é acrescento da tradução.
- ↑ Cf. Mt 24,51 nota.
- ↑ Lit. colocará a parte dele com os infiéis.
- ↑ Estes vv. concluem os anteriores e sublinham a responsabilidade dos chefes das Igrejas.
- ↑ O fogo de que aqui se fala é certamente aquele que acompanha o julgamento divino nas descrições escatológicas (Is 66,15-16; Ez 38,22; 39,6; Ml 3,19; Jdt 16,17).
- ↑ Lit: tenho um batismo para ser batizado.
- ↑ A divisão das famílias é, na tradição profética, um dos sinais do fim dos tempos (Mq 7,6; Ag 2,22; Ml 3,24).
- ↑ Em grego leptón [nómisma], ou seja, moeda de menor valor.
- ↑ Jesus evoca uma intervenção sanguinária de Herodes, em Jerusalém, e uma catástrofe natural, a queda da torre de Siloé, para combater a ideia da retribuição, segundo a qual os acontecimentos eram um castigo, em virtude do pecado.
- ↑ As curas ao sábado eram objeto de controvérsia entre Jesus e os fariseus (6,6-11; 14,1-4). A doença é atribuída à possessão de Satanás (vv. 11.16). Na sua casuística, os fariseus viam nas curas de Jesus uma atividade de médico, proibida ao sábado.
- ↑ Sobre o fermento, cf. Mt 13,33. Uma medida (em grego, sáton) corresponde a c. 10 litros.
- ↑ Com estas duas parábolas, Lc conclui a primeira secção da subida de Jesus para Jerusalém. Apenas nelas Lc refere explicitamente o reino de Deus (17,20-21; Mt 13,33; Mc 8,14-21).
- ↑ Esta referência à subida de Jesus para Jerusalém parece indicar uma nova secção (13,22 – 17,10). Os vv. 22-30 falam do ingresso no reino.
- ↑ Lit: e dirá, dizendo a vós.
- ↑ Jesus anuncia a sua morte em Jerusalém, como a dos profetas rejeitados por Israel (6,23; Os 6,1-3; Mt 16,21; Mc 8,31; Jo 2,19; At 10,40).
- ↑ Cf. Jr 12,7. Deus abandonará o seu Templo e deixá-lo-á arruinar-se (21,6), para permitir que caia o castigo sobre o seu povo, tal como frequentemente anunciam os Profetas (Mq 3,12; Jr 7,1-15; 26; Ez 8-11).
- ↑ Frase do Sl 118,26 que será usada em 19,38, na entrada messiânica de Jesus em Jerusalém.
- ↑ A hidropisia consiste na acumulação anormal de líquido nos tecidos ou em certas cavidades de um organismo.
- ↑ Sobre a cura em dia de sábado, cf. 6,7 e 13,16.
- ↑ Lit.: escolhiam os primeiros lugares, dizendo-lhes.
- ↑ Esta máxima sapiencial inspira-se em Ez 21,31 e condena a orgulhosa segurança dos fariseus (16,15). Será retomada em 18,14.
- ↑ O conselho de Jesus vai ao arrepio de todos os usos e costumes da época. Todos os infelizes aqui enumerados são categorias de pobres (cf. 6,20).
- ↑ Outros mss. apresentam comer refeição.
- ↑ Lit.: odeia. O grego miséō na mentalidade semita significa amar menos (Gn 29,31.33; Dt 21,15-16; Is 60,15; Ml 1,3; Lc 16,13). Esta é uma expressão própria de uma relação em que uma das partes é preterida face a outra, mas do mesmo modo amada e apreciada; com esta oposição o mundo semita compara duas realidades para dizer que uma é preferida, pelo que nesta expressão não existe um meio-termo quando o mundo semita pretende dizer a preferência.
- ↑ Lit.: disse-lhes esta parábola, dizendo.
- ↑ O convite a partilhar a alegria que, ao longo deste cap., encontramos nos vv. 9.23-24.32 prepara, em Lc, a resposta final de Jesus às murmurações dos fariseus (vv. 7.10).
- ↑ A imagem do pastor e do seu rebanho é um tema clássico do AT para falar da relação de Deus com o seu povo. A imagem da busca e encontro da ovelha perdida é uma figura tradicional de salvação.
- ↑ A dracma é uma moeda grega, de 6 gramas, que equivale ao beqá', meio siclo hebraico e meio denário romano.
- ↑ Guardar porcos é, para um hebreu, o cúmulo da degradação, dado que o porco é considerado um animal impuro (Dt 14,8).
- ↑ Lit.: a primeira túnica.
- ↑ O anel é sinal da aliança refeita e da autoridade recuperada (Gn 41,42; Est 3,10; 8,2), e as sandálias indicam a liberdade recuperada.
- ↑ O comportamento e a linguagem do filho mais velho espelham o dos fariseus e doutores da lei (v. 2).
- ↑ Lit.: bátos (talha), uma medida que corresponde a 30 litros.
- ↑ Lit.: kóros, uma medida que corresponde a 300 litros.
- ↑ Lit.: administrador da injustiça.
- ↑ A palavra grega aqui usada, phronímōs, indica, na versão dos LXX, todo o modo de arranjar-se, honesta ou desonestamente (Gn 3,1).
- ↑ Lit.: (escravo) doméstico, sujeito a intercâmbios entre patrões.
- ↑ A proibição do repúdio é uma das mais claras ruturas de Jesus com a Lei de Moisés (Dt 24,1).
- ↑ É o único caso em que um personagem de uma parábola possui nome. Lázaro significa Deus ajuda. Muitos identificaram este personagem com o Lázaro de Jo 11, mas este não era pobre.
- ↑ A Escritura considera os cães animais repugnantes e maus (Sl 22,17.21; Pr 26,11; Mt 7,6).
- ↑ O seio de Abraão era o lugar de honra do banquete presidido por Abraão. A mesma expressão encontra-se em Jo 13,23.
- ↑ Lit.: Hades, o inferno na mitologia grega.
- ↑ Sobre os escândalos, cf. Mt 5,29.
- ↑ Ou desperta-nos a fé.
- ↑ Lit.: se tendes fé.
- ↑ Tamanho é acrescento da tradução. Sublinha-se grão de mostarda como a mais pequena de todas as sementes (Mt 13,32; Mc 4,31).
- ↑ O termo grego sykáminos significa, no AT, sicómoro. No grego profano da época pode também traduzir-se por amoreira, mas resulta menos expressivo o contraste com o grão de mostarda.
- ↑ A referência ao caminhar de Jesus abre uma nova secção no seu caminho para Jerusalém (9,51 – 19,27 [28]), como já tinha acontecido em 9,51 e 13,22. Apesar de a Samaria e a Galileia serem regiões limítrofes, esperava-se que se referisse primeiro a Galileia e depois a Samaria.
- ↑ Deviam os leprosos permanecer distantes, a fim de não contaminar ninguém (Lv 13,46).
- ↑ Este é o único caso em que o termo epistátēs (mestre), frequente em Lc, é pronunciado por alguém que não é discípulo.
- ↑ Sobre o dever de os leprosos, uma vez curados, se apresentarem ao sacerdote, cf. 5,14; Lv 13,49; 14,2-32.
- ↑ A data ou o momento da vinda do reino de Deus é a grande questão para os judeus (Dn 9,2). Os rabinos e os textos apocalípticos procuravam sinais que permitissem identificá-la.
- ↑ Lit.: com observação.
- ↑ Lit.: de sob o céu a sob o céu, segundo a ideia empírica da época de que o céu pousa numa e noutra das extremidades visíveis da terra.
- ↑ Estas advertências sublinham o caráter terrível e inevitável desse dia (Jr 4,6; 6,1; 48,6; 49,8.30; 51,6).
- ↑ A maior parte das traduções usa o verbo salvar, mas Lc emprega um termo do grego do AT que significa manter ou conservar (Js 6,17; Sl 79,11; Ez 13,18-19).
- ↑ O verbo grego zōogoneō tem, nos LXX, o significado de garantir ou conservar, mas, no grego profano, significa gerar a vida.
- ↑ Não para ser eliminado, mas para entrar no reino de Deus.
- ↑ Alguns mss. acrescentam aqui um v. com o seguinte texto: estarão dois num campo: um será levado e o outro deixado.
- ↑ A questão do lugar (Onde será isso, Senhor?) corresponde à da data (v. 20) e deixa transparecer a ideia de um reino de Deus muito à medida humana, localizado no tempo e no espaço.
- ↑ Os abutres são referidos regularmente nos textos do juízo final, no AT (Js 18,6; 34,15-16; Jr 7,33; 12,9; 15,3; Ez 29,17). Esta imagem sugere que ninguém escapará ao juízo.
- ↑ Lit.: dizia-lhes ... (v. 4) dizendo.
- ↑ Conhecida como parábola do juiz iníquo (vv. 2-5), articula-se bem com a do amigo importuno (11,5-8), por apresentarem como tema comum a persistência na oração. Orientam nesse sentido as duas expressões paulinas: rezar sempre (Rm 1,10; Fl 1,4; Cl 1,3; 2Ts 1,11) e sem desanimar (2Cor 4,1.16; Gl 6,9; Ef 3,13; 2Ts 3,13). Depois do discurso anterior e tendo em conta os vv. 6-8, não será desajustado concluir que Lc centra a oração na vinda escatológica de Jesus (20,36).
- ↑ Lit.: golpear-me debaixo dos olhos (hypōpiázō).
- ↑ Lc é o único evangelista a referir a renúncia à mulher, neste contexto. O objetivo é sublinhar que nada nem ninguém deve interferir na prioridade do amor a Deus (14,26; 1Cor 7,25-28).
- ↑ Lc prefere a forma semítica Nazōraîos, rara nos Sinópticos (Mt 2,23; 26,71), mas que aparece oito vezes nos Atos.
- ↑ Cidade é acrescento da tradução.
- ↑ Lit.: chamado com o nome Zaqueu.
- ↑ Na mentalidade judaica, frequentar a casa de um pecador era contrair impureza (5,30; 7,34; 15,2).
- ↑ Lit.: subitamente prestes a manifestar-se. Como todos os judeus, os discípulos esperavam que o reino de Deus viesse de um momento para o outro (Mc 10,37; At 1,6). Esta parábola é uma advertência contra a impaciência e lembra aos discípulos que há muito a fazer antes da vinda do seu Senhor.
- ↑ A mina é um peso semita, da ordem dos 600 gramas, equivalente a 100 dracmas e a 50 siclos.
- ↑ Betfagé era uma pequena povoação próxima de Jerusalém, sobre o Monte das Oliveiras. É também referida em Mc 11,1.
- ↑ A forma como Lc escreve alude à consagração de Salomão (1Rs 1,33.38.40).
- ↑ Lc cita o Sl 118,25, mas evita a palavra hebraica Hossana e acrescenta a Jesus o título de rei (Jo 12,13). Esta aclamação evoca o canto dos anjos, aquando do nascimento de Jesus (2,14). Cf. Mc 11,9 nota.
- ↑ Este lamento de Jesus introduz o primeiro dos três anúncios da ruína da cidade (19,43-44; 21,20-24; 23,28-31). Lc confere grande importância a este juízo histórico que prefigura o juízo escatológico.
- ↑ Lc fala do assédio romano a Jerusalém, no ano 70 d.C. (cf. 21,20-24). O tempo da tua visita é uma expressão que aponta para a visita de Deus à cidade, na pessoa de Jesus.
- ↑ Casa de oração evoca Is 56,7, ao passo que antro de salteadores evoca Jr 7,11. O templo nasceu como lugar de intercessão e de perdão (1Rs 8,30-40), mas já não cumpria a sua missão.
- ↑ Chefes do povo serão pessoas da aristocracia laica, membros do sinédrio, que Lc inclui entre os responsáveis pela morte de Jesus (23,13.35; 24,20).
- ↑ Lc insiste no contraste entre o laós (povo, povo santo) e os seus responsáveis, em relação a Jesus: o povo escutava as suas palavras (sinal de acolhimento), ao passo que os responsáveis procuravam dar-lhe a morte (20,19; 21,38; 23,27.35).
- ↑ Lit.: e disseram-lhe, dizendo.
- ↑ Esta parábola evoca Is 5,1-7, onde se afirma claramente: A vinha do Senhor do universo é a casa de Israel (v. 7).
- ↑ Lit.: não aconteça! (expressão idiomática).
- ↑ Cita-se o Sl 118,22, que se inspira em Is 28,16, e que o cristianismo primitivo aplicou à ressurreição de Jesus, fundador do novo povo de Deus (At 4,11; 1Pd 2,4.7).
- ↑ Não sendo uma citação bíblica, este v. inspira-se certamente em Is 8,14-1 e em Dn 2,44. A obra de Deus é perdição para o incrédulo e salvação para o crente (2,34; Rm 9,33; 1Pd 2,5-8).
- ↑ A expressão o caminho de Deus (Sl 25,4.9; 27,11; 51,15) é muito usada, no livro dos Atos, para designar a comunidade cristã (9,2; 16,17; 18,25-26; 19,9.23; 22,4; 24,4.22).
- ↑ Lit.: de quem tem imagem e inscrição?
- ↑ Os saduceus não partilham a fé na ressurreição dos mortos e procuram ridicularizar Jesus, apresentam-lhe uma hipótese académica a que Jesus responde não com o livro de Daniel, que eles não aceitavam, mas com a Torá, incontestada por todos.
- ↑ Lit.: tomou a mulher, na aceção de desposar (assim também nos v. seguintes).
- ↑ Este v. cita livremente Dt 25,5s. Trata-se da lei do levirato (do latim levir = cunhado) que se apoia em Dt 25,5-10, mas é proibida por Lv 18,16 e 20,21. Segundo esta lei, o cunhado desposa a viúva de seu irmão, se ele não deixou filhos, a fim de perpetuar o nome da família e de assegurar um herdeiro ao defunto. Este uso, comum aos hititas e aos assírios, perdeu importância quando as filhas começaram a poder herdar (Nm 36).
- ↑ Lit.: A mulher, pois, na ressurreição, de qual deles se tornará mulher?
- ↑ Semitismo que significa ser herdeiros do mundo novo e da sua vida.
- ↑ Lc segue exatamente o texto grego do Sl 110,1 (At 2,34; Heb 1,13).
- ↑ Lit.: toda a vida que tinha deitou.
- ↑ O templo havia sido reconstruído e embelezado por Herodes, o Grande, pelo ano 19 a.C. (Jo 2,20). As ofertas dos fiéis (2Mac 2,13) tanto podiam ser elementos da construção como da decoração do templo.
- ↑ O tema da destruição do templo não é novo. Diversos Profetas tinham anunciado a destruição do primeiro templo (Jr 7,1-15; 26,1-19; Ez 8-11; Mq 3,12), como sinal e consequência de uma aliança que se rompe entre Deus e o povo. Jesus anuncia a destruição do segundo templo, como sinal e consequência da não aceitação dele mesmo, enquanto enviado de Deus, o que causou um escândalo semelhante (Mt 26,61; 27,40; At 6,14).
- ↑ O verbo grego planáō pode traduzir-se por seduzir ou induzir em erro e pertence à terminologia da literatura apocalíptica hebraica. Tanto alude às seduções messiânicas (Mt 24,5.11.24), diabólicas ou políticas (Ap 2,20; 12,9; 13,14), como às doutrinais (1Jo 1,8; 2,26; 3,7).
- ↑ Jesus refere-se aos falsos messias que atribuem a si mesmos a sua missão e autoridade, mestres do erro que anunciam a iminência do fim (17,23; 19,11).
- ↑ Possível referência às agitações militares e políticas que acompanharam a morte de Nero, em 68 d.C., ou mesmo aos acontecimentos dos anos 70, em Jerusalém.
- ↑ Em cada sinagoga havia um pequeno sinédrio, composto de vinte elementos, que julgava os casos menores (Mt 10,17). Depois da destruição de Jerusalém, no ano 70 d.C., estes sinédrios locais tornaram-se muito importantes.
- ↑ Lit.: para testemunho. O testemunho é, segundo Lc, a função essencial dos Doze (24,48; At 1,8.22; 2,32; 3,15; 4,33; 5,32; 10,39; 13,31), de Estêvão (At 22,20) e de Paulo (At 18,5; 20,21; 22,15.18; 23,11; 26,16.22; 28,23).
- ↑ Lit.: no meio dela.
- ↑ Lit.: à boca da espada, uma expressão bíblica (cf. Gn 34,26; Js 8,24; 19,47; Jz 1,8; Sir 28,18; Heb 11,34).
- ↑ Lit.: os tempos dos pagãos. A expressão pode ser entendida em dois sentidos: o tempo da evangelização dos pagãos (Lc 24,47), no fim do qual Israel pode voltar a Cristo que recusou (Lc 13,35; Rm 11,25-27); o tempo do domínio dos pagãos sobre Jerusalém, ao qual Deus fixou um limite (Ap 11,2).
- ↑ Lit.: laço.
- ↑ Com origem diversa, a festa da Páscoa e a dos Ázimos (pães sem fermento) apareciam de tal modo ligadas que eram praticamente identificadas (Dt 16,1-8).
- ↑ Afastado de Jesus desde 4,13, Satanás reaparece agora (v. 53; cf. Jo 13,2.27).
- ↑ Os oficiais ou guardas seriam talvez levitas responsáveis pelo policiamento do templo. Apenas Lc os refere: aqui e no v. 52 (plural) e ainda em At 4,1; 5,24.26 (singular).
- ↑ Lit. o modo de o entregar.
- ↑ É provável que se trate de um sinal combinado, pois apenas as mulheres iam buscar água.
- ↑ Em minha memória (v. 20 e 1Cor 11,24) é uma fórmula que não se encontra em Mt e Mc. É ela que define a ceia eucarística como memorial do sacrifício de Jesus, ao modo da ceia pascal de Israel (Ex 12,14; 13,9; Dt 16,3).
- ↑ Apenas aqui e em 1Co 11,25 se usa o adjetivo nova, trazendo à mente Jr 31,31-34. O sacrifício de Jesus inaugura um novo tempo de salvação.
- ↑ O título benfeitor (euergétēs) é, no mundo grego, atribuído frequentemente aos deuses, heróis e reis.
- ↑ No mundo palestinense e no mundo clássico em geral, o mais novo era o último na escala hierárquica.
- ↑ O termo grego diatíthēmi (dispor, estipular, concluir) pode significar a conclusão de uma aliança (v. 20) e a formulação de um testamento (Heb 2,16).
- ↑ Convertido (epistrépsas) é, neste contexto, uma palavra de tradução difícil, dada a sua polissemia. As traduções oscilam entre convertido e voltado para trás.
- ↑ O cálice é, com frequência, no AT, o símbolo do sofrimento (Sl 75,9; Is 51,17-22; Jr 25,15; Ez 23,31-34).
- ↑ Sl 110,1.
- ↑ Homem é acrescento da tradução.
- ↑ Já em 20,20-26 Lc previu esta acusação. Os adversários de Jesus entendiam a sua realeza em sentido político e apresentam-na a Pilatos como um atentado à soberania romana (At 17,7). Vai ser este o motivo da condenação de Jesus (23,30).
- ↑ Lit.: era da autoridade de Herodes.
- ↑ Trata-se de Herodes Ântipas, tetrarca da Galileia (3,1). Herodes está em Jerusalém por causa da peregrinação da Páscoa. Lc é o único a referir a sua intervenção na paixão (At 4,27).
- ↑ Lit.: interrogou-o com bastantes palavras.
- ↑ Alguns mss. apresentam e os magistrados (árkhontes) do povo.
- ↑ O v. 17 falta em muitos mss.. Pode ter sido aqui incluído por influência de Mt 27,15 ou de Mc 15,6: tinha o costume de lhes libertar um pela festa. Este v. foi omitido, porque não está presente na grande e mais antiga tradição textual.
- ↑ Barrabás significa Filho do pai em aramaico (bar-'abbas).
- ↑ Lit.: nenhuma culpa de morte.
- ↑ Cirene era uma colónia grega, no norte de África, onde se tinham estabelecido numerosos hebreus (At 2,10; 11,20). Ao referir que Simão de Cirene leva a cruz atrás de Jesus, Lc parece querer fazer dele o modelo de discípulo (9,3; 14,27).
- ↑ Este episódio é específico de Lc e parece recordar Zc 12,10-14 (cf. Lc 23,48). Testemunha a benevolência do povo em relação a Jesus.
- ↑ Há outras referências aos Salmos, nos vv. 35.36.46.49, como também ao Êxodo (v. 44) e a Zacarias (v. 48). Estas alusões ao AT tendem a demonstrar que, na paixão de Jesus, se realizam as Escrituras (Lc 24,25-27.44-46).
- ↑ O silêncio contemplativo do povo é posto em contraste com a ironia incrédula dos chefes. Eleito é um título que alude à palavra do Pai, em 9,45, retomando Is 49,7, onde designa o Servo escolhido por Deus para a sua obra de salvação e desprezado pelos homens.
- ↑ Lit.: um dos suspensos.
- ↑ Lit.: tu que estás na mesma condenação.
- ↑ A hora sexta corresponde ao meio-dia e a hora nona aproximadamente às três horas da tarde.
- ↑ Alguns traduzem por o sol escureceu, uma expressão que se encontra em Is 13,10 e Qo 12,2. O sol que se eclipsa sobre toda a terra é um fenómeno que evoca Ex 10,22.
- ↑ Certamente o pano que tapa o Santo dos Santos (Ex 26,33). O facto de rasgar-se sugere o livre acesso a Deus (Heb 6,19-20; 9,3.6-12), assim como o fim de uma etapa e o início de uma outra, no processo da história da salvação.
- ↑ Jesus reza com o Sl 31,6, mas introduz a petição com a palavra Pai (10,21; 22,42; 23,34).
- ↑ Ao afirmar que Jesus era justo, o centurião declara a sua inocência (como Pilatos, em 23,4.14.22). Mt e Mc usam o título Filho de Deus, mas Lc troca-o por justo, provavelmente para evitar que um título assim, nos lábios de um pagão, pudesse gerar equívocos.
- ↑ Da cruz é acrescento da tradução.
- ↑ Na rocha é acrescento da tradução.
- ↑ As mulheres voltam ao túmulo a fim de concluir os ritos da sepultura de Jesus que tinham ficado incompletos em virtude de, quando Jesus foi descido da cruz, já estar a aproximar-se o sábado. Levaram os aromas que tinham preparado (23,56).
- ↑ Lit.: rolada.
- ↑ A expressão Senhor Jesus é única no evangelho e frequente em Atos (1,21; 8,16; 11,20; 15,11; etc.). Sublinha a nova condição de Jesus ressuscitado.
- ↑ Jesus ressuscitado é agora designado vivo ou vivente, título que o AT usa para Deus (Js 3,10; Jz 8,19; 1Sm 14,39).
- ↑ Lit.: Maria de Tiago.
- ↑ 60 estádios correspondem a c. 12 quilómetros. Alguns testemunhos falam de 160 estádios (c. 32 quilómetros), levando a localização de Emaús para Amwas. O assunto é muito discutido e nada consensual.
- ↑ Moisés (i.e., a Lei) e os Profetas constituíam o essencial da Escritura (16,16.29-31; 24,44; At 24,14; 28,23), tal como era lido no culto sinagogal (At 13,15).
- ↑ Lc utiliza um vocabulário eucarístico (22,9 e 9,16) para fazer sentir aos seus leitores que é na (pela) fração do pão (At 2,42.46; 20,7.11) que podem encontrar Jesus.
- ↑ Com a referência ao ressuscitado que come, Lc quer sublinhar a realidade corpórea da ressurreição, assunto de difícil aceitação pelos leitores de cultura grega (At 17,32; 1Co 15,12).
- ↑ A promessa de meu Pai é o Espírito Santo (Jo 20,22). É o primeiro anúncio do Pentecostes (At 1,8; 2,33).
- ↑ A cidade referida é Jerusalém, ponto de partida da mensagem salvífica (Lc 1,5-25) e de chegada da missão de Jesus (9,51). Será também o centro de irradiação da mensagem apostólica (At 1,8). Sobre a ligação entre o Espírito e a força, cf. Lc 1,35.
- ↑ Estes vv. são a conclusão do evangelho: o ressuscitado abençoa os seus (At 3,26) que o adoram como Senhor. No v. 53, o evangelho termina onde havia começado, no templo (1,8), formando uma grande inclusão literária.
Capítulos
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