Lc 2: Difference between revisions

From Biblia: Os Quatro Evangelhos e os Salmos
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2 Nascimento de Jesus – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>Ora aconteceu que, naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto<ref name="ftn35">César Augusto foi imperador de Roma entre 27 a. C. e 14 d. C.. Este recenseamento deve ter ocorrido no ano 6 d.C., dez anos depois da morte de Herodes, o Grande, quando Jesus tinha c. doze anos. Escrevendo à distância e sem dados históricos precisos, Lc adianta uma data aproximada, com o intento de enquadrar historicamente o acontecimento. A expressão ''todo o mundo habitado'' designava, na altura, o império romano.</ref> para ser recenseado todo o mundo habitado. <span style="color:red"><sup>2</sup></span>Este primeiro recenseamento realizou-se quando Quirino<ref name="ftn36">Trata-se de Públio Sulpício Quirino, governador da província romana da Síria, entre 4 e 1 a.C., e responsável pela política romana no Médio Oriente.</ref> era governador da Síria.
<span style="color:red">Nascimento de Jesus – </span><span style="color:red"><sup>1</sup></span>Ora aconteceu que, naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto<ref name="ftn35">César Augusto foi imperador de Roma entre 27 a. C. e 14 d. C.. Este recenseamento deve ter ocorrido no ano 6 d.C., dez anos depois da morte de Herodes, o Grande, quando Jesus tinha c. doze anos. Escrevendo à distância e sem dados históricos precisos, Lc adianta uma data aproximada, com o intento de enquadrar historicamente o acontecimento. A expressão ''todo o mundo habitado'' designava, na altura, o império romano.</ref> para ser recenseado todo o mundo habitado. <span style="color:red"><sup>2</sup></span>Este primeiro recenseamento realizou-se quando Quirino<ref name="ftn36">Trata-se de Públio Sulpício Quirino, governador da província romana da Síria, entre 4 e 1 a.C., e responsável pela política romana no Médio Oriente.</ref> era governador da Síria.


<span style="color:red"><sup>3</sup></span>E todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. <span style="color:red"><sup>4</sup></span>Também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, para a Judeia, para a cidade de David<ref name="ftn37">No AT, a cidade de David é sempre Jerusalém (2Sm 5,7.9; 6,10.12; Is 22,9). A atribuição deste título a Belém deve ter a ver com Mq 5,1 (1Sm 16,1; Mt 2,6; Jo 7,42).</ref>, que se chamava Belém, por ele ser da casa e da linhagem de David, <span style="color:red"><sup>5</sup></span>a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que estava grávida.
<span style="color:red"><sup>3</sup></span>E todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. <span style="color:red"><sup>4</sup></span>Também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, para a Judeia, para a cidade de David<ref name="ftn37">No AT, a cidade de David é sempre Jerusalém (2Sm 5,7.9; 6,10.12; Is 22,9). A atribuição deste título a Belém deve ter a ver com Mq 5,1 (1Sm 16,1; Mt 2,6; Jo 7,42).</ref>, que se chamava Belém, por ele ser da casa e da linhagem de David, <span style="color:red"><sup>5</sup></span>a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que estava grávida.
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Apresentação de Jesus no templo e cântico de Simeão – <span style="color:red"><sup>22</sup></span>Quando se cumpriram os dias da purificação deles<ref name="ftn47">A Lei prescrevia a apresentação da mãe no templo (Lv 12,1-8), mas não a do menino.</ref>, segundo a Lei de Moisés, levaram-no<ref name="ftn48">Lit.: ''subiram-no''.</ref> a Jerusalém para o apresentar ao Senhor, <span style="color:red"><sup>23</sup></span>como está escrito na Lei do Senhor: ''Todo o primogénito macho será consagrado ao Senhor''<ref name="ftn49">Lit.: ''todo o varão que rasga a mãe, santo para o Senhor será chamado''.</ref>, <span style="color:red"><sup>24</sup></span>e para oferecer um sacrifício segundo o que está dito na Lei do Senhor: ''um par de rolas ou duas pequenas pombas''<ref name="ftn50">Sobre a lei do resgate, cf. Ex 34,20; Nm 18,15-16. Nada se diz sobre o resgate de Jesus, mas sim sobre a purificação da mãe: duas rolas ou duas pombas (Lv 12,8).</ref>.
<span style="color:red">Apresentação de Jesus no templo e cântico de Simeão – </span><span style="color:red"><sup>22</sup></span>Quando se cumpriram os dias da purificação deles<ref name="ftn47">A Lei prescrevia a apresentação da mãe no templo (Lv 12,1-8), mas não a do menino.</ref>, segundo a Lei de Moisés, levaram-no<ref name="ftn48">Lit.: ''subiram-no''.</ref> a Jerusalém para o apresentar ao Senhor, <span style="color:red"><sup>23</sup></span>como está escrito na Lei do Senhor: ''Todo o primogénito macho será consagrado ao Senhor''<ref name="ftn49">Lit.: ''todo o varão que rasga a mãe, santo para o Senhor será chamado''.</ref>, <span style="color:red"><sup>24</sup></span>e para oferecer um sacrifício segundo o que está dito na Lei do Senhor: ''um par de rolas ou duas pequenas pombas''<ref name="ftn50">Sobre a lei do resgate, cf. Ex 34,20; Nm 18,15-16. Nada se diz sobre o resgate de Jesus, mas sim sobre a purificação da mãe: duas rolas ou duas pombas (Lv 12,8).</ref>.


<span style="color:red"><sup>25</sup></span>Ora, eis que havia em Jerusalém um homem cujo nome era Simeão, um homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava sobre ele<ref name="ftn51">Ou ''<nowiki>o Espírito [que estava] sobre ele era Santo</nowiki>''.</ref>. <span style="color:red"><sup>26</sup></span>Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que não veria a morte antes de ver o Cristo do Senhor. <span style="color:red"><sup>27</sup></span>E veio ao templo movido pelo Espírito<ref name="ftn52">Lit.: ''no Espírito''.</ref>. Quando os pais trouxeram o menino Jesus, para com Ele procederem segundo o costume da Lei, <span style="color:red"><sup>28</sup></span>Simeão<ref name="ftn53">Lit.: ''ele''.</ref> acolheu-o nos braços, bendisse a Deus e disse:
<span style="color:red"><sup>25</sup></span>Ora, eis que havia em Jerusalém um homem cujo nome era Simeão, um homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava sobre ele<ref name="ftn51">Ou ''<nowiki>o Espírito [que estava] sobre ele era Santo</nowiki>''.</ref>. <span style="color:red"><sup>26</sup></span>Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que não veria a morte antes de ver o Cristo do Senhor. <span style="color:red"><sup>27</sup></span>E veio ao templo movido pelo Espírito<ref name="ftn52">Lit.: ''no Espírito''.</ref>. Quando os pais trouxeram o menino Jesus, para com Ele procederem segundo o costume da Lei, <span style="color:red"><sup>28</sup></span>Simeão<ref name="ftn53">Lit.: ''ele''.</ref> acolheu-o nos braços, bendisse a Deus e disse:
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<span style="color:red"><sup>39</sup></span>Quando cumpriram tudo segundo a Lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré. <span style="color:red"><sup>40</sup></span>O menino crescia e fortalecia-se, enchendo-se de sabedoria, e a graça de Deus estava sobre Ele.
<span style="color:red"><sup>39</sup></span>Quando cumpriram tudo segundo a Lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré. <span style="color:red"><sup>40</sup></span>O menino crescia e fortalecia-se, enchendo-se de sabedoria, e a graça de Deus estava sobre Ele.


Jesus entre os doutores, no templo – <span style="color:red"><sup>41</sup></span>Os seus pais iam todos os anos a Jerusalém<ref name="ftn58">A Lei de Moisés sugeria que os judeus deveriam fazer três peregrinações por ano (Ex 23,14-17; 34,22-23; Dt 16,16). Talvez Lc se inspire em 1Sm 1,3.7.</ref> para a festa da Páscoa <span style="color:red"><sup>42</sup></span>e, quando fez doze anos<ref name="ftn59">Era pelos doze anos que o rapaz israelita se tornava ''filho do preceito'' (''bar-mitsvāh'').</ref>, eles subiram até lá segundo o costume da festa. <span style="color:red"><sup>43</sup></span>E, completados os dias, quando regressavam a casa, o menino<ref name="ftn60">O termo grego ''paîs ''(''criança'', ''menino'') é diferente do ''paidíon ''do v. 40 (que normalmente designa um menino até cerca dos sete anos). </ref> Jesus ficou em Jerusalém sem que os seus pais soubessem. <span style="color:red"><sup>44</sup></span>Pensando que Ele estava na caravana, percorreram um dia de caminho e procuravam-no entre os parentes e os conhecidos. <span style="color:red"><sup>45</sup></span>Não o tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura.
 
<span style="color:red">Jesus entre os doutores, no templo – </span><span style="color:red"><sup>41</sup></span>Os seus pais iam todos os anos a Jerusalém<ref name="ftn58">A Lei de Moisés sugeria que os judeus deveriam fazer três peregrinações por ano (Ex 23,14-17; 34,22-23; Dt 16,16). Talvez Lc se inspire em 1Sm 1,3.7.</ref> para a festa da Páscoa <span style="color:red"><sup>42</sup></span>e, quando fez doze anos<ref name="ftn59">Era pelos doze anos que o rapaz israelita se tornava ''filho do preceito'' (''bar-mitsvāh'').</ref>, eles subiram até lá segundo o costume da festa. <span style="color:red"><sup>43</sup></span>E, completados os dias, quando regressavam a casa, o menino<ref name="ftn60">O termo grego ''paîs ''(''criança'', ''menino'') é diferente do ''paidíon ''do v. 40 (que normalmente designa um menino até cerca dos sete anos). </ref> Jesus ficou em Jerusalém sem que os seus pais soubessem. <span style="color:red"><sup>44</sup></span>Pensando que Ele estava na caravana, percorreram um dia de caminho e procuravam-no entre os parentes e os conhecidos. <span style="color:red"><sup>45</sup></span>Não o tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura.


<span style="color:red"><sup>46</sup></span>E aconteceu que, três dias depois, o encontraram no templo, sentado no meio dos mestres, a ouvi-los e a interrogá-los. <span style="color:red"><sup>47</sup></span>Todos os que o ouviam estavam espantados com a sua inteligência e as suas respostas.
<span style="color:red"><sup>46</sup></span>E aconteceu que, três dias depois, o encontraram no templo, sentado no meio dos mestres, a ouvi-los e a interrogá-los. <span style="color:red"><sup>47</sup></span>Todos os que o ouviam estavam espantados com a sua inteligência e as suas respostas.
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<span style="color:red"><sup>51</sup></span>Desceu, então, com eles, foi para Nazaré e era-lhes submisso. Sua mãe conservava todas estas palavras no seu coração. <span style="color:red"><sup>52</sup></span>E Jesus ''crescia em'' sabedoria, em idade e ''em graça, junto de Deus e dos homens''<ref name="ftn64">Cf. 1,80; 2,40. Esta conclusão parece inspirar-se em 1Sm 2,21.26.</ref>.
<span style="color:red"><sup>51</sup></span>Desceu, então, com eles, foi para Nazaré e era-lhes submisso. Sua mãe conservava todas estas palavras no seu coração. <span style="color:red"><sup>52</sup></span>E Jesus ''crescia em'' sabedoria, em idade e ''em graça, junto de Deus e dos homens''<ref name="ftn64">Cf. 1,80; 2,40. Esta conclusão parece inspirar-se em 1Sm 2,21.26.</ref>.


<center>II</center>
<center>O prelúdio </center>
<center>da missão salvífica de Jesus (3,1-4,13) </center>
3 João, o Batista (Mt 3,1-12; Mc 1,1-8) – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>No décimo quinto ano do reinado de Tibério César<ref name="ftn65">Lc situa a missão de João e a de Jesus (v. 23) na história do mundo pagão (império romano) e na do povo judeu (1,5 e 2,1-2). Tibério, que sucede a César Augusto, foi imperador romano entre 14 e 37 d.C. O décimo quinto ano do seu reinado será o ano 28 ou 29 da era cristã. Pôncio Pilatos foi governador da Judeia, Idumeia e Samaria, entre 26 e 36 da era cristã. Herodes Ântipas governou a Galileia e a Pereia, de 4 a.C. a 39 d.C.. Filipe foi governador de alguns distritos a nordeste do Lago de Tiberíades, de 4 a.C. a 34 d.C.. Lisânias é pouco conhecido e dependeria do rei Herodes Agripa II. Talvez Lc o inclua aqui pelo facto de o seu território ser pagão, num aceno à universalidade da salvação.</ref>, quando Pôncio Pilatos governava a Judeia e Herodes era tetrarca<ref name="ftn66">Príncipe dependente de uma autoridade estrangeira ocupante, governante inferior a um rei.</ref> da Galileia, Filipe, seu irmão, era tetrarca das regiões da Itureia e da Traconítide, e Lisânias era tetrarca de Abilene, <span style="color:red"><sup>2</sup></span>sendo sumo-sacerdote Anás<ref name="ftn67">Anás foi deposto do cargo de sumo-sacerdote, no ano 15 d.C.. É aqui nomeado porque, sendo sogro de Caifás, continuava a exercer uma grande influência (Jo 18,13-24; At 4,6). Caifás foi sumo-sacerdote entre 18 e 36 d.C. Era o chefe do povo de Israel e é nomeado por último em contraposição com o imperador romano. O chamamento de João tem muito a ver com o de Jeremias (Jr 1,1). Assim se realça o seu caráter profético.</ref> e Caifás, a palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto.
<span style="color:red"><sup>3</sup></span>E ele percorreu toda a região à volta do Jordão a proclamar um batismo de conversão para perdão dos pecados, <span style="color:red"><sup>4</sup></span>como está escrito no livro das palavras do profeta Isaías<ref name="ftn68">Is 40,3-5.</ref>:
''Uma voz clama, no deserto:''
''"Preparai o caminho do Senhor,''
''endireitai as suas veredas.''
''<span style="color:red"><sup>5</sup></span>Todo o vale será preenchido''
''e todo o monte e colina serão abatidos;''
''o que é sinuoso tornar-se-á direito''
''e os caminhos pedregosos tornar-se-ão planos,''
''<span style="color:red"><sup>6</sup></span>e toda a carne<ref name="ftn69">Isto é, ''toda a criatura''<nowiki>; trata-se de uma expressão hebraica (Gn 6,12).</nowiki></ref>'' verá a salvação de Deus".''
<span style="color:red"><sup>7</sup></span>Dizia, então, às multidões que acorriam para serem batizadas por ele: «Geração de víboras, quem vos mostrou como fugir da ira que está prestes a chegar? <span style="color:red"><sup>8</sup></span>Produzi frutos dignos da conversão; e não comeceis a dizer entre vós: "Temos por pai Abraão", pois digo-vos que Deus é capaz de fazer surgir destas pedras filhos de Abraão. <span style="color:red"><sup>9</sup></span>O machado já está à raiz das árvores, e toda a árvore que não dá bom fruto será cortada e lançada ao fogo».
<span style="color:red"><sup>10</sup></span>As multidões interrogavam-no, dizendo<ref name="ftn70">Vv. 10-14. Estes vv. são específicos de Lc. Com a pergunta ''que devemos fazer? ''(At 2,37; 16,30; 22,10) realça-se a disponibilidade de todos (as multidões) e particularmente dos pecadores públicos (cobradores de impostos e soldados) para a conversão. Se João não lhes exige que deixem a sua profissão, é porque converter-se apenas exige mudar de estilo de vida, praticando a justiça e a caridade.</ref>: «Que devemos fazer, então?». <span style="color:red"><sup>11</sup></span>Respondendo, dizia-lhes: «Quem tem duas túnicas distribua por quem não tem, e quem tem comida faça o mesmo».
<span style="color:red"><sup>12</sup></span>Vieram também os publicanos para serem batizados e disseram-lhe: «Mestre, que devemos fazer?». <span style="color:red"><sup>13</sup></span>Ele respondeu-lhes: «Não exijais mais do que vos foi estabelecido».
<span style="color:red"><sup>14</sup></span>Também os soldados o interrogavam, dizendo: «E nós, que devemos fazer?». Disse-lhes: «Não exturcais nem denuncieis falsamente ninguém, e contentai-vos com os vossos salários».
<span style="color:red"><sup>15</sup></span>Estando o povo na expectativa e pensando todos nos seus corações se João não seria o Cristo<ref name="ftn71">De origem grega (''khristós''), este título significa ''ungido'' e corresponde ao hebraico ''māchîah, Messias'' (em Israel eram ungidos os sacerdotes, os profetas e os reis). Era entendido, por esta altura, em sentido eminentemente político (20,41; 22,67; 23,2.35.39). Não raras vezes os discípulos de João se interrogam se o seu mestre não será o messias (Jo 1,19-20; 3,28).</ref>, <span style="color:red"><sup>16</sup></span>João respondeu, dizendo a todos: «Eu batizo-vos na água<ref name="ftn72">''Hýdati ''também pode ter um sentido instrumental (''com água'').</ref>, mas vem aquele que é mais forte<ref name="ftn73">''Forte'' é um título messiânico ao qual Lc vai voltar, em 11,22 (cf. Is 9,5; 11,2). Lc contrapõe o batismo de João ao de Jesus (At 1,5; 11,16). </ref> do que eu, ao qual eu não sou digno de desatar a correia das suas sandálias: Ele batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo<ref name="ftn74">Desatar as correias'' ''das sandálias era uma atitude de escravo que um hebreu não podia permitir a um membro do seu povo (Jo 8,33). Os Profetas usam as imagens da ceifa, da pá de joeirar (Jr 15,7; 51,2) e do fogo aplicado à palha (Is 5,24; 47,14; Jl 2,5; Na 1,10) para falar do juízo de Deus. Ao referir que se trata de um fogo inextinguível (cf. Is 66,24; Mc 9,43.48), João dá um colorido escatológico à sua imagem. Sobre o juízo divino e o dia do Senhor, cf. Sl 7,8; Is 13,9; Ez 13,5; Dn 8,19; Am 5,18-20; Mt 25,31-46; 1Cor 3,13.15; 1Ts 2,19.</ref>. <span style="color:red"><sup>17</sup></span>Tem a pá na sua mão para limpar a sua eira e recolher o trigo para o seu celeiro, e queimará a palha num fogo que não se apaga». <span style="color:red"><sup>18</sup></span>E com muitas outras exortações anunciava ao povo a boa nova.
Prisão de João (Mt 14,3s; Mc 6,17s) – <span style="color:red"><sup>19</sup></span>O tetrarca Herodes, que era repreendido por ele por causa de Herodíade<ref name="ftn75">Herodíade era neta de Herodes, o Grande. Deixou o marido e tio, Filipe, para se unir a Herodes Ântipas (Mt 14,3; Mc 6,17-18).</ref>, a mulher de seu irmão, e por todas as maldades que havia cometido, <span style="color:red"><sup>20</sup></span>a todas essas acrescentou esta: encerrou João na prisão<ref name="ftn76">Assim se encerra a missão de João, ainda antes do batismo de Jesus. Deste modo, Lc distingue a missão de um e de outro, assinalando dois períodos distintos da história da salvação. Só em 9,7-9 fará uma referência breve à morte de João.</ref>.
Batismo de Jesus (Mt 3,13-17; Mc 1,9-11) – <span style="color:red"><sup>21</sup></span>Aconteceu que, ao ser batizado todo o povo, tendo também Jesus sido batizado<ref name="ftn77">De forma solidária, Jesus participa no processo da conversão do seu povo e dá-lhe sentido. A oração de Jesus é um tema caro a Lc (5,16; 6,12; 9,18.28-29; 10,21; 11,1; 22,32.40-46; 23,34.46). Sobre os céus que se rasgam, cf. Is 63,19.</ref> e estando a rezar, abriu-se o céu, <span style="color:red"><sup>22</sup></span>e desceu sobre Ele o Espírito Santo em figura corpórea, como uma pomba. E do céu surgiu uma voz: «Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo».
Origem humana de Jesus. Genealogia (Mt 1,1-17) – <span style="color:red"><sup>23</sup></span>Quando Jesus iniciou o seu ministério<ref name="ftn78">Ao contrário de Mt, que coloca a genealogia no início do evangelho, Lc apresenta-a depois de Jesus ter sido revelado como Filho de Deus. Além disso, Mt parte de Abraão para Jesus, e Lc de Jesus para Adão e Deus, realçando a universalidade de Jesus e da sua mensagem. A genealogia pretende fundamentar a ascendência davídica de Jesus e a sua legitimidade messiânica.</ref>, tinha cerca de trinta anos<ref name="ftn79">Lc é o único a referir os trinta anos de Jesus. Pode tratar-se de uma alusão a David que começou a reinar com a mesma idade (2Sm 5,4). ''Era tido como filho de José'' é uma forma de sublinhar a conceção virginal de Jesus.</ref>, sendo filho – assim se pensava – de José, filho de Elí, <span style="color:red"><sup>24</sup></span>filho de Matát, de Leví, de Melquí, de Janai, de José, <span style="color:red"><sup>25</sup></span>de Matatias, de Amós, de Naúm, de Eslí, de Nagai, <span style="color:red"><sup>26</sup></span>de Maat, de Matatias, de Simei, de Josec, de Jodá, <span style="color:red"><sup>27</sup></span>de Joanan, de Ressa, de Zorobabel, de Salatiel, de Nerí, <span style="color:red"><sup>28</sup></span>de Melquí, de Adí, de Cosám, de Elmadám, de Er, <span style="color:red"><sup>29</sup></span>de Jesua, de Eliézer, de Jorím, de Matát, de Leví, <span style="color:red"><sup>30</sup></span>de Simeão, de Judá, de José, de Jonám, de Eliaquim, <span style="color:red"><sup>31</sup></span>de Meleá, de Mená, de Matatá, de Natán, de David, <span style="color:red"><sup>32</sup></span>de Jessé, de Obed, de Boóz, de Salá, de Nachon, <span style="color:red"><sup>33</sup></span>de Aminadab, de Admín, de Arní, de Hesrón, de Peres, de Judá, <span style="color:red"><sup>34</sup></span>de Jacob, de Isaac, de Abraão, de Téra, de Naor, <span style="color:red"><sup>35</sup></span>de Serug, de Reú, de Péleg, de Éber, de Chéla, <span style="color:red"><sup>36</sup></span>de Quenán, de Arpacsad, de Seme, de Noé, de Lamec, <span style="color:red"><sup>37</sup></span>de Matusalém, de Henóc, de Jaréd, de Malaliel, de Quenán, de Enós, de Set, de Adão, de Deus.
4 Tentações de Jesus (Mt 4,1-11; Mc 1,12s) – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>Jesus, cheio do Espírito Santo<ref name="ftn80">É evidente a dupla referência ao Espírito recebido no batismo. Com ele, Jesus vai vencer as tentações e dar início à sua missão (4,14.18).</ref>, voltou do Jordão e era conduzido no Espírito pelo deserto, <span style="color:red"><sup>2</sup></span>sendo tentado pelo Diabo durante quarenta dias<ref name="ftn81">Lc une Mc 1,13 (tentação durante os quarenta dias) com Mt 4,2 (três tentações ao fim de quarenta dias). O número quarenta designa, na Escritura, uma geração (1Sm 13,1), o tempo que Moisés passou na montanha (Ex 24,18), a caminhada de Elias (1Rs 19,8) e o tempo que Israel vagueou pelo deserto, antes de entrar na Terra Prometida (Js 5,6).</ref>. Não comeu nada nesses dias e, quando eles terminaram, sentiu fome. <span style="color:red"><sup>3</sup></span>Disse-lhe o Diabo<ref name="ftn82">O nome ''Diabo'' (do grego ''diábolos: aquele que divide'') é o mais frequente para designar o inimigo de Deus e do seu reino. O tentador retoma a palavra divina, pronunciada aquando do batismo (3,22: ''Tu és o meu filho amado''...), pondo em relação a tentação com a teofania batismal.</ref>: «Se és Filho de Deus, diz a esta pedra que se torne pão». <span style="color:red"><sup>4</sup></span>Respondeu-lhe Jesus: «Está escrito: ''nem só de pão viverá o homem''»<ref name="ftn83">Dt 8,3 e Mt 4,4.</ref>.
<span style="color:red"><sup>5</sup></span>Então, elevando-o, o Diabo mostrou-lhe, num instante, todos os reinos do mundo habitado. <span style="color:red"><sup>6</sup></span>Disse-lhe o Diabo: «Dar-te-ei todo este poderio e a glória deles, porque me foi entregue e o dou a quem eu quiser. <span style="color:red"><sup>7</sup></span>Se tu me adorares<ref name="ftn84">Lit.: ''se te ajoelhares diante de mim''.</ref>, tudo será teu». <span style="color:red"><sup>8</sup></span>Respondendo, Jesus disse-lhe: «Está escrito: ''o Senhor, teu Deus, adorarás e ''só'' a Ele prestarás culto''»<ref name="ftn85">A prostração e a adoração remetem para a submissão total. Contudo, segundo Dt 6,13, aqui citado, só a Deus se deve adorar e servir; ''adorar'' é o mesmo verbo ''ajoelhar'' do v. 7 (''proskynéō''), estando Satanás a tentá-lo e a tentar que Jesus o reconheça como Deus.</ref>.
<span style="color:red"><sup>9</sup></span>Conduziu-o, então, a Jerusalém, colocou-o sobre o pináculo do templo e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, <span style="color:red"><sup>10</sup></span>pois está escrito:
''aos seus anjos dará ordens a teu respeito ''
''para que te guardem''
<span style="color:red"><sup>11</sup></span>e ainda: ''nas mãos te levarão, ''
''não aconteça que tropece numa pedra o teu pé''».
<span style="color:red"><sup>12</sup></span>Em resposta, Jesus disse-lhe: «Está dito: ''Não tentarás o Senhor teu Deus''»<ref name="ftn86">Sl 91,11-12.</ref>.
<span style="color:red"><sup>13</sup></span>Tendo terminado toda a tentação, o Diabo afastou-se dele até certo tempo<ref name="ftn87">Esta é a primeira vitória de Jesus sobre o Diabo. Outras vão acontecer em 4,41; 6,18; 7,21; 8,2; 10,17-18. A última será em 22,3.53, já no cenário da paixão. A primeira vitória é sinal da última.</ref>.
<center>III</center>
<center>Jesus inicia a sua pregação </center>
<center>na Galileia </center>
<center>(4,14-9,50)</center>
Jesus começa a ensinar (Mt 4,12.17; Mc 1,14s) – <span style="color:red"><sup>14</sup></span>Jesus voltou no poder do Espírito para a Galileia, e a sua fama espalhou-se por todos os arredores. <span style="color:red"><sup>15</sup></span>E Ele ensinava nas suas sinagogas, sendo glorificado por todos.
Jesus na sinagoga de Nazaré: missão e rejeição (Mt 13,53-58; Mc 6,1-6) – <span style="color:red"><sup>16</sup></span>Foi a Nazaré, onde fora criado, e, segundo o seu costume, entrou em dia de Sábado na sinagoga e levantou-se para ler. <span style="color:red"><sup>17</sup></span>Foi-lhe dado o livro do profeta Isaías. Desenrolando-o, encontrou a passagem onde estava escrito:
<span style="color:red"><sup>18</sup></span>''O Espírito do Senhor está sobre mim,''
''porque me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres,''
''enviou-me a proclamar aos ''
''prisioneiros a libertação''
''e aos cegos a recuperação da vista,''
''a mandar em liberdade ''
''os oprimidos,''
<span style="color:red"><sup>19</sup></span>''a proclamar um ano favorável do Senhor ''<ref name="ftn88">Lc conjuga, nestes dois vv., a citação de Is 61,1-2a e 42,7, cortando intencionalmente a parte final: ''o dia da vingança da parte do nosso Deus'' (Is 61 2b). O ''ano da graça'' ou ''ano favorável'' é o ano jubilar, celebrado em Israel de cinquenta em cinquenta anos (Lv 25,8-17).</ref>''.''
<span style="color:red"><sup>20</sup></span>Depois de enrolar o livro e de o devolver ao ajudante, sentou-se. Os olhos de todos na sinagoga estavam fixos nele. <span style="color:red"><sup>21</sup></span>Começou, então, a dizer-lhes: «Hoje<ref name="ftn89">É Lc quem mais destaca a atualidade da salvação (2,11; 5,26; 13,32; 19,9; 23,43).</ref> aos vossos ouvidos cumpriu-se esta escritura».
<span style="color:red"><sup>22</sup></span>E todos davam testemunho acerca dele, admiravam-se com as palavras de graça que saíam da sua boca e diziam: «Não é este o filho de José?». <span style="color:red"><sup>23</sup></span>Disse-lhes, então: «Certamente me direis este provérbio<ref name="ftn90">Em grego ''parabolḗ.''</ref>: "Médico, cura-te a ti mesmo". O que ouvimos dizer que aconteceu em Cafarnaum, fá-lo também aqui na tua terra natal»<ref name="ftn91">Apesar de não ter nascido lá, Nazaré é vista como a terra de origem de Jesus, pois foi aí que ele cresceu. Com base no passado, Jesus prevê a rejeição futura do seu povo.</ref>. <span style="color:red"><sup>24</sup></span>E disse: «Amen vos digo: nenhum profeta é aceite<ref name="ftn92">''Dektós'', o mesmo termo do v. 19 (traduzido por ''favorável'').</ref> na sua terra natal. <span style="color:red"><sup>25</sup></span>Mas em verdade vos digo: havia muitas viúvas em Israel nos dias de Elias<ref name="ftn93">Cf. 1Rs 17,1-24; 18,1; Tg 5,17.</ref>, quando o céu se fechou por três anos e seis meses, e houve uma grande fome em toda a terra. <span style="color:red"><sup>26</sup></span>E a nenhuma delas foi mandado Elias, a não ser a Sarepta de Sídon, a uma mulher viúva. <span style="color:red"><sup>27</sup></span>Havia muitos leprosos em Israel no tempo do profeta Eliseu<ref name="ftn94">Cf. 2Rs 5,1-15.</ref>, e nenhum deles foi purificado, a não ser Naamã, o sírio».
<span style="color:red"><sup>28</sup></span>Todos se encheram de ira na sinagoga ao ouvir isto <span style="color:red"><sup>29</sup></span>e, levantando-se, expulsaram-no para fora da cidade. Levaram-no até ao cimo do monte em que a cidade estava edificada para lançá-lo dali abaixo. <span style="color:red"><sup>30</sup></span>Mas Ele, passando pelo meio deles, seguiu adiante<ref name="ftn95">Ninguém pode deter o caminho de Jesus, que só terminará em Jerusalém (13,33).</ref>.
Na sinagoga de Cafarnaum. Cura de um endemoniado (Mc 1,21-28) – <span style="color:red"><sup>31</sup></span>Desceu para Cafarnaum, cidade da Galileia, e ensinava-os ao sábado. <span style="color:red"><sup>32</sup></span>Estavam perplexos com o seu ensinamento, porque a sua palavra tinha autoridade<ref name="ftn96">Lit.: ''e na autoridade a sua palavra existia. ''Lc mostra a autoridade de Jesus, mediante os ensinamentos (v. 32) e exorcismos (v. 36).</ref>.
<span style="color:red"><sup>33</sup></span>Ora, na sinagoga estava um homem que tinha um espírito de demónio impuro e gritou com voz forte: <span style="color:red"><sup>34</sup></span>«Ah! Que há entre nós e ti, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir? Sei quem Tu és: O santo de Deus». <span style="color:red"><sup>35</sup></span>Jesus repreendeu-o severamente, dizendo: «Cala-te e sai dele». E o demónio, atirando-o para o meio, saiu dele sem lhe fazer mal algum.
<span style="color:red"><sup>36</sup></span>Surgiu em todos o espanto e conversavam uns com os outros, dizendo: «Que palavra é esta que, com autoridade e poder, dá ordens aos espíritos impuros e eles saem?». <span style="color:red"><sup>37</sup></span>E a sua fama divulgava-se por todos os lugares dos arredores.
Cura da sogra de Pedro (Mt 8,14s; Mc 1,29-31) – <span style="color:red"><sup>38</sup></span>Tendo deixado a sinagoga, entrou na casa de Simão. Ora, a sogra de Simão<ref name="ftn97">É a primeira referência a Simão, que seguirá Jesus a partir de 5,1-11.</ref> estava tomada por uma grande febre, e intercederam por ela junto dele<ref name="ftn98">Lit.: ''pediram-lhe por ela''.</ref>. <span style="color:red"><sup>39</sup></span>Debruçando-se sobre ela, repreendeu severamente a febre, e esta deixou-a. Ela, levantando-se imediatamente, começou a servi-los.
Curas e exorcismos (Mt 8,16; Mc 1,32-34) – <span style="color:red"><sup>40</sup></span>Quando se pôs o sol, todos os que tinham enfermos de várias doenças conduziam-nos a Ele; e Ele, impondo as mãos a cada um deles, curava-os. <span style="color:red"><sup>41</sup></span>E também de muitos saíam demónios, que gritavam e diziam: «Tu és o filho de Deus». Repreendendo-os severamente, não lhes permitia que falassem, porque sabiam que Ele era o Cristo.
Jesus sai para um lugar deserto (Mc 1,35-39) – <span style="color:red"><sup>42</sup></span>Quando se fez dia, saindo, foi para um lugar deserto. As multidões procuravam-no; foram até Ele e tentavam retê-lo para que não se afastasse deles. <span style="color:red"><sup>43</sup></span>Mas Ele disse-lhes: «É necessário que eu anuncie a boa nova do reino de Deus também às outras cidades, porque para isso fui enviado». <span style="color:red"><sup>44</sup></span>E ia proclamando nas sinagogas da Judeia<ref name="ftn99">Judeia. Alguns mss. e também Mc 1,39 usam a palavra ''Galileia''. Sendo o país dos judeus genericamente conhecido como Judeia, Lc usa esta terminologia no sentido de ''país'' e não de ''região''.</ref>.
5 Pesca abundante e chamamento dos discípulos (Mt 4,18-22; Mc 1,16-20) – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>E aconteceu que, enquanto a multidão se comprimia à sua volta para ouvir a palavra de Deus, Ele estava de pé junto ao Lago de Genesaré<ref name="ftn100">Ao contrário dos outros evangelistas, Lc nunca lhe chama mar.</ref> <span style="color:red"><sup>2</sup></span>e viu dois barcos que se encontravam junto ao lago. Tendo descido deles, os pescadores lavavam as redes. <span style="color:red"><sup>3</sup></span>Ao entrar, então, num dos barcos, o que era de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra; e, sentando-se, ensinava do barco as multidões.
<span style="color:red"><sup>4</sup></span>Quando acabou de falar, disse a Simão: «Afasta-te para águas profundas<ref name="ftn101">Lit.: ''afasta-te para o profundo''.</ref> e lançai as vossas redes para a pesca». <span style="color:red"><sup>5</sup></span>Respondendo, Simão disse: «Mestre<ref name="ftn102">''Epistátēs (o que está acima, mestre'') é um título que só se encontra em Lc e sempre na boca dos discípulos (8,24.45; 9,33.49), à exceção de 17,13.</ref>, toda a noite nos afadigámos e não apanhámos nada, mas perante a tua palavra lançarei as redes». <span style="color:red"><sup>6</sup></span>Feito isto, apanharam uma enorme quantidade de peixes e as suas redes estavam a romper-se. <span style="color:red"><sup>7</sup></span>Fizeram, então, sinal aos companheiros que estavam no outro barco para que viessem ajudá-los. Eles vieram e encheram ambos os barcos, de tal modo que se estavam a afundar.
<span style="color:red"><sup>8</sup></span>Ao ver isto, Simão Pedro<ref name="ftn103">É a única vez que Lc atribui a Pedro este duplo nome (Mc 16,16; Jo 21,2.3.7.11).</ref> prostrou-se aos joelhos de Jesus, dizendo: «Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador». <span style="color:red"><sup>9</sup></span>De facto, o espanto tomou conta dele e de todos os que estavam com ele, por causa da captura dos peixes que tinham feito. <span style="color:red"><sup>10</sup></span>O mesmo aconteceu a Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão.
Disse, então, Jesus a Simão<ref name="ftn104">Lc dá um relevo particular a Pedro, e é o único evangelista a sublinhar que, para seguir o Mestre, os discípulos devem deixar tudo (v. 28; 12,33; 14,33; 18,22).</ref>: «Não tenhas medo! A partir de agora serás pescador de homens». <span style="color:red"><sup>11</sup></span>E, depois de conduzirem os barcos para terra, deixando tudo seguiram-no.
Purificação e cura de um leproso (Mt 8,2-4; Mc 1,40-45) – <span style="color:red"><sup>12</sup></span>E aconteceu que, quando Ele estava numa das cidades, eis que um homem cheio de lepra<ref name="ftn105">A lepra era vista como um castigo divino (Dt 28,27.35), fruto do pecado que exclui da comunidade (Lv 13-14).</ref>, ao ver Jesus, caiu com o rosto por terra e implorou-lhe, dizendo: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me». <span style="color:red"><sup>13</sup></span>Estendendo a mão, Ele tocou-lhe, dizendo: «Quero: fica purificado!». E imediatamente a lepra o deixou. <span style="color:red"><sup>14</sup></span>Ele ordenou-lhe que a ninguém o dissesse: «Mas vai mostrar-te ao sacerdote e faz uma oferenda pela tua purificação, tal como Moisés prescreveu, como testemunho para eles»<ref name="ftn106">Uma vez curado, o ex-leproso devia mostrar-se ao sumo-sacerdote para o rito de purificação (Lv 14,2s). Não é de todo claro se este testemunho tem a ver com o leproso ou com Jesus.</ref>.
<span style="color:red"><sup>15</sup></span>A sua fama difundia-se cada vez mais, e numerosas multidões reuniam-se para o ouvir e serem curadas das suas enfermidades. <span style="color:red"><sup>16</sup></span>Ele, porém, afastava-se para os desertos e rezava.
Perdão e cura de um paralítico (Mt 9,1-8; Mc 2,1-12) – <span style="color:red"><sup>17</sup></span>E aconteceu que, num dos dias em que Jesus ensinava, estavam sentados uns fariseus e mestres da Lei, que tinham vindo de todas as povoações da Galileia, da Judeia e de Jerusalém<ref name="ftn107">5,17-6,11: secção de controvérsias.</ref>. O poder do Senhor estava com Ele para curar. <span style="color:red"><sup>18</sup></span>E eis que uns homens, que traziam um paralítico num catre, procuravam fazê-lo entrar e colocá-lo diante dele. <span style="color:red"><sup>19</sup></span>Mas, como não encontravam modo de o fazer entrar por causa da multidão, subindo ao terraço, desceram-no com o catre através das telhas, para o meio, diante de Jesus.
<span style="color:red"><sup>20</sup></span>Ao ver a fé deles, disse: «Homem, os teus pecados estão-te perdoados». <span style="color:red"><sup>21</sup></span>Os doutores da lei e os fariseus começaram a discutir entre si, dizendo: «Quem é este que diz blasfémias? Quem pode perdoar pecados, senão Deus somente?». <span style="color:red"><sup>22</sup></span>Mas Jesus, ao perceber os seus pensamentos, respondendo disse-lhes: «Que pensais nos vossos corações? <span style="color:red"><sup>23</sup></span>O que é mais fácil: dizer "Os teus pecados estão-te perdoados" ou dizer "Levanta-te e anda?". <span style="color:red"><sup>24</sup></span>Mas, para que saibais que o Filho do Homem tem, sobre a terra, autoridade para perdoar os pecados» – disse Ele ao paralítico – «Eu te digo: levanta-te, toma o teu catre e vai para a tua casa».
<span style="color:red"><sup>25</sup></span>Levantando-se subitamente diante deles, tomou o catre onde estava deitado e foi para a sua casa, glorificando Deus. <span style="color:red"><sup>26</sup></span>Um assombro apoderou-se de todos; glorificavam Deus e, cheios de medo, diziam: «Hoje vimos coisas incríveis!».
Chamamento de Levi. Os publicanos e pecadores (Mt 9,9-13; Mc 2,13-17) – <span style="color:red"><sup>27</sup></span>Depois disto, saiu, viu um publicano de seu nome Levi<ref name="ftn108">''Levi'' é o nome dado por Lc e Mc a Mateus, o cobrador de impostos, que Jesus chamou para seu discípulo (Mt 9,9; Mc 2,14).</ref>, sentado no posto de cobrança de impostos, e disse-lhe: «Segue-me». <span style="color:red"><sup>28</sup></span>E ele, deixando tudo, levantando-se, seguiu-o.
<span style="color:red"><sup>29</sup></span>Levi fez-lhe, então, um grande banquete na sua casa. Estava lá uma numerosa multidão de publicanos, e outros que estavam reclinados com eles à mesa. <span style="color:red"><sup>30</sup></span>Os fariseus e os seus doutores da lei murmuravam contra os discípulos dele, dizendo: «Por que razão comeis e bebeis com os publicanos e pecadores?». <span style="color:red"><sup>31</sup></span>E, respondendo, Jesus disse-lhes: «Não são os que estão saudáveis que precisam de médico, mas os que têm algum mal. <span style="color:red"><sup>32</sup></span>Não vim chamar à conversão os justos, mas os pecadores».
O jejum (Mt 9,14-17; Mc 2,18-22) – <span style="color:red"><sup>33</sup></span>Eles, porém, disseram-lhe: «Os discípulos de João jejuam com frequência e fazem orações, tal como os dos fariseus, mas os teus comem e bebem». <span style="color:red"><sup>34</sup></span>Jesus disse-lhes: «Podereis fazer com que os convidados da boda<ref name="ftn109">Lit.: ''os filhos do noivado'' (''toùs huioùs toû nymphônos''): estes são os filhos do quarto nupcial ou os convidados para o banquete nupcial; a expressão pode indicar quer os amigos do noivo, quer os convidados para as núpcias em sentido geral.</ref> jejuem enquanto o noivo está com eles? <span style="color:red"><sup>35</sup></span>Mas dias virão em que o noivo lhes será tirado; então naqueles dias hão de jejuar».
O velho e o novo (Mc 2,21s; Mt 9,16s) – <span style="color:red"><sup>36</sup></span>Dizia-lhes também uma parábola: «Ninguém põe um remendo rasgado de uma veste nova numa veste velha. De outro modo, rasgar-se-á também o novo, e ao velho de nada servirá o remendo tirado do novo. <span style="color:red"><sup>37</sup></span>E ninguém deita vinho novo em odres velhos. De outro modo, o vinho novo romperá os odres, será derramado, e os odres ficarão destruídos. <span style="color:red"><sup>38</sup></span>Deve deitar-se vinho novo em odres novos. <span style="color:red"><sup>39</sup></span>E ninguém, ao beber o velho, quer o novo, pois diz: "o velho é que é bom!"»<ref name="ftn110">Os exemplos têm como finalidade levar à escolha entre o ritualismo judaico (o velho) e a novidade do evangelho (o novo). O assunto é versado também em Mt 9,17.</ref>.
6 Espigas arrancadas ao sábado (Mt 12,1-8; Mc 2,23-28) – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>Ora aconteceu que, a um sábado, ao atravessar Ele umas searas, os seus discípulos colhiam e comiam espigas, debulhando-as com as mãos. <span style="color:red"><sup>2</sup></span>Então alguns dos fariseus disseram: «Porque fazeis o que não é permitido ao sábado?». <span style="color:red"><sup>3</sup></span>Respondendo, disse-lhes Jesus: «Mas não lestes isto, o que fez David quando sentiu fome, ele e os que estavam com ele? <span style="color:red"><sup>4</sup></span>Como entrou na casa de Deus e, tomando os pães da oferenda<ref name="ftn111">À censura dos fariseus, Jesus responde com exemplos da Escritura (Lv 24,5-9; 1Sm 21,2-7). Sobre os pães da proposição, cf. Ex 25,30; Lv 24,5-9; 1Sm 21,3-5; 1Cr 9,28-32; Ez 41,16-26.</ref>, que não era permitido comer senão aos sacerdotes, comeu e deu-os aos que estavam com ele?». <span style="color:red"><sup>5</sup></span>E dizia-lhes: «O Filho do Homem é senhor do sábado».
Cura ao sábado (Mt 12,9-14; Mc 3,1-6) – <span style="color:red"><sup>6</sup></span>Aconteceu que, num outro sábado, Ele entrou na sinagoga e começou a ensinar. Estava lá um homem que tinha a sua mão direita paralisada<ref name="ftn112">Lit.: ''ressequida''.</ref>. <span style="color:red"><sup>7</sup></span>Os doutores da lei e os fariseus observavam-no para verem se ia curar ao sábado, a fim de encontrarem forma de o acusar. <span style="color:red"><sup>8</sup></span>Ele, porém, conhecendo os seus pensamentos, disse ao homem que tinha a mão paralisada: «Levanta-te e põe-te no meio». E ele, levantando-se, pôs-se de pé. <span style="color:red"><sup>9</sup></span>Disse-lhes Jesus: «Pergunto-vos se é permitido ao sábado fazer bem ou fazer mal, salvar uma vida ou destruí-la?». <span style="color:red"><sup>10</sup></span>E, olhando-os a todos em redor, disse-lhe: «Estende a tua mão». Ele assim fez, e a sua mão ficou recuperada.
<span style="color:red"><sup>11</sup></span>Eles, porém, encheram-se de fúria e começaram a discutir entre si o que poderiam fazer a Jesus.
Eleição dos Doze (Mt 10,1-4; Mc 3,13-19) – <span style="color:red"><sup>12</sup></span>E aconteceu que, naqueles dias, Ele saiu para o monte para rezar<ref name="ftn113">A entrega de Jesus à oração é típica de Lc e diz muito da importância que lhe dá.</ref> e passou a noite em oração a Deus. <span style="color:red"><sup>13</sup></span>Quando surgiu o dia, chamou a si os seus discípulos e escolheu doze de entre eles, aos quais também chamou apóstolos: <span style="color:red"><sup>14</sup></span>Simão a quem chamou Pedro<ref name="ftn114">Na tradição bíblica, receber um nome novo é receber uma nova missão (Ex 3,14-15; Lv 24,11; 1Sm 1,20; Pr 18,10; Is 1,26).</ref>, André seu irmão, Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, <span style="color:red"><sup>15</sup></span>Mateus, Tomé, Tiago filho de Alfeu, Simão chamado zelote<ref name="ftn115">Os zelotes opunham-se, de modo violento, à ocupação dos romanos.</ref>, <span style="color:red"><sup>16</sup></span>Judas filho de Tiago, e Judas Iscariotes<ref name="ftn116">''Judas, filho de Tiago,'' é Judas Tadeu (Mt 10,3; Mc 3,18). ''Iscariotes'' pode significar ''oriundo de'' ''Keriot'' (povoação da Palestina meridional: Js 15,25; Am 2,2), ''mentiroso'' (raiz aramaica) ou ''sicário'' (como transcrição semítica da palavra latina ''sicarius'').</ref>, que se tornou traidor.
As multidões acorrem (Mt 4,23-25; 12,15s; Mc 3,7-12) – <span style="color:red"><sup>17</sup></span>Ao descer com eles, parou num lugar plano juntamente com uma numerosa multidão de discípulos seus, e de muito povo de toda a Judeia e Jerusalém, do litoral de Tiro e de Sídon, <span style="color:red"><sup>18</sup></span>que vieram para o ouvir e serem curados, das suas doenças. Os atormentados por espíritos impuros eram curados, <span style="color:red"><sup>19</sup></span>e toda a multidão procurava tocar-lhe, porque saía dele um poder e a todos curava.
Bem-aventuranças e imprecações (Mt 5,3-12) – <span style="color:red"><sup>20</sup></span>Então Ele, erguendo os olhos para os seus discípulos, dizia:
«Felizes os pobres, porque é vosso o reino de Deus.
<span style="color:red"><sup>21</sup></span>Felizes vós que agora tendes fome<ref name="ftn117">Já o AT anunciava que os esfomeados seriam saciados (Is 49,10; Jr 31,12.25; Ez 34,29; 36,29) e acrescentava ao pranto (Is 25,6-9) o anúncio da alegria.</ref>, porque haveis de ser saciados.
Felizes vós que agora chorais, porque haveis de rir.
<span style="color:red"><sup>22</sup></span>Felizes sois quando os homens vos odiarem, quando vos rejeitarem, insultarem e proscreverem o vosso nome como infame por causa do Filho do Homem. <span style="color:red"><sup>23</sup></span>Alegrai-vos nesse dia e exultai<ref name="ftn118">Lit.: ''saltai (de alegria).''</ref><nowiki>; eis que a vossa recompensa é grande no céu. Pois o mesmo faziam os seus pais aos profetas.</nowiki>
<span style="color:red"><sup>24</sup></span>Mas ai de vós, os ricos, porque já recebestes a vossa consolação<ref name="ftn119">Depois das quatro bem-aventuranças, Lc apresenta quatro imprecações sobre aqueles que são felizes neste mundo, segundo um esquema que vem já do AT (Is 3,10-11; Jr 17,5-8).</ref>!
<span style="color:red"><sup>25</sup></span>Ai de vós, os que estais agora saciados, porque haveis de ter fome<ref name="ftn120">Is 65,13-14.</ref>!
Ai de vós, os que agora rides, porque vos haveis de lamentar e chorar!
<span style="color:red"><sup>26</sup></span>Ai de vós, quando todos os homens disserem bem de vós!
Pois o mesmo faziam os seus pais aos falsos profetas».
Amor aos inimigos (Mt 5,38-48) – <span style="color:red"><sup>27</sup></span>«Mas digo-vos a vós que ouvis: amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam. <span style="color:red"><sup>28</sup></span>Bendizei os que vos amaldiçoam, rezai pelos que vos maltratam. <span style="color:red"><sup>29</sup></span>Ao que te bate numa face, oferece também a outra, e ao que te leva a capa não impeças que leve também a túnica. <span style="color:red"><sup>30</sup></span>Dá a todo aquele que te pede, e a quem tirar o que é teu não peças de volta. <span style="color:red"><sup>31</sup></span>E, tal como quereis que os homens vos façam, fazei-lhes de igual modo. <span style="color:red"><sup>32</sup></span>Se amais os que vos amam, que graça mereceis? Também os pecadores amam quem os ama. <span style="color:red"><sup>33</sup></span>E, se fizerdes bem a quem vos faz bem, que graça mereceis? É que também os pecadores o fazem. <span style="color:red"><sup>34</sup></span>E, se emprestardes àqueles de quem esperais receber, que graça mereceis? Também os pecadores emprestam aos pecadores, a fim de receberem o mesmo.
<span style="color:red"><sup>35</sup></span>Pelo contrário, amai os vossos inimigos, fazei o bem, emprestai sem nada esperar de volta: a vossa recompensa será grande, e sereis filhos do Altíssimo, porque Ele é generoso para com os ingratos e os maus».
Não julgueis (Mt 7,1-5) – <span style="color:red"><sup>36</sup></span>«Tornai-vos misericordiosos<ref name="ftn121">Lc prefere a linguagem veterotestamentária da misericórdia (Ex 34,6s; Dt 4,31; Sl 78,38; 86(85),15...) à da perfeição (Mt 5,48). Dado que o termo ''misericordiosos'' ilustra bem o sentido de conjunto do texto (vv. 36-42), pode ter sido esse o utilizado por Jesus.</ref>, tal como também o vosso Pai é misericordioso. <span style="color:red"><sup>37</sup></span>Não julgueis e jamais sereis julgados, não condeneis e jamais sereis condenados<ref name="ftn122">Os passivos aqui usados (passivos divinos ou teológicos) evocam a ação divina e dispensam que se fale no nome de Deus.</ref>, perdoai e sereis perdoados. <span style="color:red"><sup>38</sup></span>Dai e ser-vos-á dado: uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante ser-vos-á dada no regaço, pois com a medida com que medirdes sereis medidos».
<span style="color:red"><sup>39</sup></span>Disse-lhes também uma parábola: «Poderá um cego guiar outro cego? Não cairão ambos numa cova? <span style="color:red"><sup>40</sup></span>Um discípulo não está acima do mestre, mas todo o que ficou bem preparado será como o seu mestre. <span style="color:red"><sup>41</sup></span>Porque vês o cisco que está no olho do teu irmão e não reparas na trave que está no teu próprio olho? <span style="color:red"><sup>42</sup></span>Como podes dizer ao teu irmão: "Irmão, deixa que tire o cisco que está no teu olho", e não vês a trave que está no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então verás com clareza para tirar o cisco que está no olho do teu irmão».
A árvore boa (Mt 7,16-21; 12,33-35) – <span style="color:red"><sup>43</sup></span>«Não há árvore boa que dê fruto que não presta nem árvore que não presta que dê bom fruto. <span style="color:red"><sup>44</sup></span>De facto, cada árvore se conhece pelo seu próprio fruto: não se apanham figos dos espinhos, nem se colhem uvas das silvas. <span style="color:red"><sup>45</sup></span>O homem bom, do bom tesouro do coração, extrai o bem, e o mau, do mau tesouro do coração, extrai o mal<ref name="ftn123">Lit.: ''e o mau do mau extrai o mal''.</ref>: é da abundância do coração que a sua boca fala».
A casa sobre a rocha (Mt 7,24-27) – <span style="color:red"><sup>46</sup></span>«Porque me chamais "Senhor, Senhor" e não fazeis o que digo? <span style="color:red"><sup>47</sup></span>Todo aquele que vem a mim, ouve as minhas palavras e as põe em prática, mostrar-vos-ei a quem ele é semelhante. <span style="color:red"><sup>48</sup></span>É semelhante a um homem que edifica uma casa: escavou, aprofundou e colocou o alicerce sobre a rocha. Quando veio uma inundação e a torrente irrompeu contra aquela casa, não foi capaz de a abalar, por estar bem edificada. <span style="color:red"><sup>49</sup></span>Mas o que ouve e não põe em prática é semelhante a um homem que edificou uma casa sobre a terra, sem alicerce. A torrente irrompeu contra ela, imediatamente desabou, e foi grande a ruína daquela casa».
7 Cura do servo do centurião (Mt 8,5-13; Jo 4,46-53) – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>Quando acabou de dizer todas estas suas palavras aos ouvidos do povo, entrou em Cafarnaum.
<span style="color:red"><sup>2</sup></span>Ora, um certo centurião<ref name="ftn124">O centurião é um oficial do exército romano que comanda cerca de cem soldados. Lc refere explicitamente o bom relacionamento deste com os judeus (vv. 3-5) e a sua humildade (vv. 6-7). Ao dar-lhe importância, está a preparar terreno para a entrada dos gentios na Igreja.</ref> tinha um servo que muito estimava, mas, porque tinha um mal, estava prestes a morrer. <span style="color:red"><sup>3</sup></span>Tendo ouvido falar de Jesus, enviou-lhe uns anciãos dos judeus, pedindo-lhe que viesse salvar o seu servo. <span style="color:red"><sup>4</sup></span>Ao aproximar-se de Jesus, eles suplicavam-lhe encarecidamente, dizendo: «Ele é digno que lhe faças isto, <span style="color:red"><sup>5</sup></span>pois ama o nosso povo, e a sinagoga foi ele que no-la edificou».
<span style="color:red"><sup>6</sup></span>Jesus foi com eles. Quando Ele já não estava longe da casa, o centurião enviou uns amigos, dizendo-lhe: «Senhor, não te incomodes, pois não sou digno de que entres debaixo do meu teto. <span style="color:red"><sup>7</sup></span>Por isso, nem sequer me considerei digno de ir ter contigo. Mas diz uma palavra, e o meu servo será curado. <span style="color:red"><sup>8</sup></span>É que também eu sou um homem sujeito à autoridade, tendo soldados às minhas ordens; e digo a um: "Vai", e ele vai; a outro: "Vem", e ele vem; e ao meu servo: "Faz isto" e ele faz».
<span style="color:red"><sup>9</sup></span>Ao ouvir isto, Jesus ficou admirado com ele e, voltando-se para a multidão que O seguia, disse: «Digo-vos que nem em Israel encontrei uma tal fé».
<span style="color:red"><sup>10</sup></span>E quando voltaram para casa, os que tinham sido enviados encontraram o servo com saúde.
Ressurreição do filho de uma viúva, em Naim – <span style="color:red"><sup>11</sup></span>E aconteceu que, logo de seguida, foi para uma cidade chamada Naim. Acompanhavam-no os seus discípulos e uma numerosa multidão.
<span style="color:red"><sup>12</sup></span>Quando se aproximou da porta da cidade, eis que um defunto era levado a sepultar, filho único de sua mãe, que era viúva. Com ela estava uma considerável multidão da cidade. <span style="color:red"><sup>13</sup></span>Ao vê-la, o Senhor<ref name="ftn125">Lc atribui este título a Jesus cerca de vinte vezes, Mt e Mc usam-no uma única vez (Mt 21,3; Mc 11,3).</ref> compadeceu-se profundamente dela e disse-lhe: «Não chores». <span style="color:red"><sup>14</sup></span>E, aproximando-se, tocou no caixão<ref name="ftn126">Na Palestina, os corpos eram levados para a sepultura numa padiola e envoltos num lençol. Lc apresenta a cena ao modo greco-romano. Tocar num cadáver era motivo de impureza (Nm 5,2). </ref>. Os que o transportavam pararam, e Ele disse: «Jovem, Eu te digo: levanta-te<ref name="ftn127">''Levanta-te'' é o verbo usado para falar da ressurreição dos mortos (Dn 12,2). Lc usa-o para falar da ressurreição no último dia (20,37) e das ressurreições operadas por Jesus (v. 22; 8,54).</ref>!». <span style="color:red"><sup>15</sup></span>O morto sentou-se e começou a falar, e Jesus<ref name="ftn128">''Jesus'' é acrescento da tradução.</ref> entregou-o à sua mãe<ref name="ftn129">A evocação do milagre de Elias (1Rs 17,23) é aqui ainda mais clara.</ref>.
<span style="color:red"><sup>16</sup></span>O medo apoderou-se de todos, e glorificavam Deus, dizendo: «Um grande profeta surgiu entre nós!», e: «Deus visitou o seu povo!». <span style="color:red"><sup>17</sup></span>Esta notícia acerca dele espalhou-se na Judeia inteira e por todos os arredores.
Embaixada de João Baptista a Jesus (Mt 11,2-6) – <spanstyle="color:red"><sup>18</sup></span>Os discípulos de João anunciaram-lhe tudo isto. E João, chamando a si dois dos seus discípulos, <span style="color:red"><sup>19</sup></span>enviou-os ao Senhor, dizendo: «És Tu o que está para vir ou havemos de esperar outro?». <span style="color:red"><sup>20</sup></span>Ao chegarem junto de Jesus, os homens disseram: «João Batista enviou-nos a ti, dizendo: "És Tu o que está para vir<ref name="ftn130">Lit.: ''és Tu o que vem''.</ref> ou havemos de esperar outro?"».
<span style="color:red"><sup>21</sup></span>Naquela hora Jesus curou muitos das suas doenças, tormentos e espíritos malignos, e a muitos cegos concedeu a graça de ver. <span style="color:red"><sup>22</sup></span>Então, respondendo, disse-lhes:
«Ide anunciar a João o que vedes e ouvis: ''os cegos voltam a ver'', os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam'','' ''aos pobres ''é anunciada a boa nova''. ''<span style="color:red"><sup>23</sup></span>E feliz é aquele que não encontrar em mim motivo de escândalo»<ref name="ftn131">É com a linguagem de Isaías que Jesus fala dos seus milagres e da sua pregação (Is 26,19; 29,18; 35,5s; 61,1).</ref>''.''
Juízo de Jesus sobre João Batista (Mt 11,7-19) – <span style="color:red"><sup>24</sup></span>Depois de os mensageiros de João terem partido, Ele começou a falar às multidões acerca de João: «Que fostes observar no deserto? Uma cana agitada pelo vento? <span style="color:red"><sup>25</sup></span>Mas que fostes ver? Um homem vestido com vestes finas? Eis que aqueles que usam vestes gloriosas e luxuosas estão nos palácios reais. <span style="color:red"><sup>26</sup></span>Mas, então, que fostes ver? Um profeta? Sim, digo-vos, e mais que profeta. <span style="color:red"><sup>27</sup></span>É acerca dele que está escrito:
''Eis que envio o meu mensageiro à tua frente, que há de preparar o teu caminho diante de ti''<ref name="ftn132">Eram muitos os que esperavam o profeta precursor do dia do Senhor (Jo 1,21; 6,14; 7,40). Para o apresentar, Jesus cita Ml 3,1.</ref>.
<span style="color:red"><sup>28</sup></span>Digo-vos: entre os nascidos de mulher ninguém é maior que João; mas o mais pequeno no reino de Deus é maior que ele».
<span style="color:red"><sup>29</sup></span>Todo o povo que ouviu, assim como os publicanos, reconheceram a justiça de Deus, ao serem batizados com o batismo de João. <span style="color:red"><sup>30</sup></span>Mas os fariseus e os entendidos na lei recusaram o desígnio de Deus para si, ao não serem batizados por ele.
<span style="color:red"><sup>31</sup></span>«A quem, pois, hei de comparar os homens desta geração, a quem são semelhantes? <span style="color:red"><sup>32</sup></span>São semelhantes às crianças sentadas na praça pública que se interpelam umas às outras, dizendo:
"Tocámos flauta para vós e não dançastes,
entoámos lamentações e não chorastes."
<span style="color:red"><sup>33</sup></span>Veio João Batista, que não come pão nem bebe vinho, e dizeis: "Tem um demónio". <span style="color:red"><sup>34</sup></span>Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizeis: "Eis um homem comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores". <span style="color:red"><sup>35</sup></span>Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos»<ref name="ftn133">Para Lc, os filhos da sabedoria são aqueles que acolhem Jesus pela fé (v. 30).</ref>.
Unção de Jesus por uma pecadora (Mt 26,6-13; Mc 14,13-9; Jo 12,3-8) – <span style="color:red"><sup>36</sup></span>Ora, um dos fariseus pedia a Jesus<ref name="ftn134">Lit.: ''pedia-lhe''.</ref> que comesse consigo<ref name="ftn135">Lc é o único evangelista a apresentar fariseus favoráveis a Jesus, convidando-o para a sua mesa (11,37; 14,1) e prevenindo-o das insídias de Herodes (13,31).</ref>. Tendo entrado em casa do fariseu, reclinou-se à mesa. <span style="color:red"><sup>37</sup></span>Eis que havia na cidade uma certa mulher pecadora que, ao saber que Ele estava reclinado à mesa na casa do fariseu, trouxe um frasco de alabastro com bálsamo, e <span style="color:red"><sup>38</sup></span>colocou-se atrás, junto aos seus pés. A chorar, começou a banhar-lhe os pés com as lágrimas e secou-os com os cabelos da sua cabeça; beijava-lhe repetidamente os pés e ungia-os com o bálsamo<ref name="ftn136">Para o fariseu, verdadeiramente insólito não é o que a mulher faz, mas o facto de ela estar ali, tornando impuro o lugar. Este acontecimento ilustra um dos temas preferidos de Lc, a misericórdia de Jesus para com os pecadores (15; 19,1-10; 23,40-43).</ref>.
<span style="color:red"><sup>39</sup></span>Ao ver isto, o fariseu que o tinha convidado<ref name="ftn137">Lit.: ''chamado''.</ref> disse para consigo: «Este, se fosse profeta, saberia quem e de que género é a mulher que lhe toca, porque é uma pecadora».
<span style="color:red"><sup>40</sup></span>Respondendo, Jesus disse-lhe: «Simão, tenho algo a dizer-te». «Diz, Mestre» – disse ele. <span style="color:red"><sup>41</sup></span>«Um credor tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos denários<ref name="ftn138">O denário era uma moeda romana (de um siclo, ou seja, doze gramas) e correspondia ao rendimento de um dia de trabalho agrícola.</ref>, e o outro cinquenta. <span style="color:red"><sup>42</sup></span>Não tendo eles com que pagar, perdoou a ambos. Ora qual deles o amará mais?». <span style="color:red"><sup>43</sup></span>Respondendo, Simão disse: «Aquele, suponho, a quem mais perdoou». Disse-lhe Jesus: «Julgaste bem». <span style="color:red"><sup>44</sup></span>E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: «Vês esta mulher? Entrei na tua casa e não me deste água para os pés<ref name="ftn139">A água para os pés era, no mundo antigo, uma das exigências da hospitalidade (Gn 18,4; 19,2).</ref><nowiki>; ela, porém, banhou os meus pés com lágrimas e secou-os com os seus cabelos. </nowiki><span style="color:red"><sup>45</sup></span>Não me deste um beijo; ela, porém, desde que entrei, não parou de beijar-me repetidamente os pés. <span style="color:red"><sup>46</sup></span>Não me ungiste a cabeça com azeite; ela, porém, com bálsamo ungiu os meus pés. <span style="color:red"><sup>47</sup></span>Graças a isso te digo: estão perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou. Mas a quem pouco se perdoa, pouco ama». <span style="color:red"><sup>48</sup></span>E disse à mulher<ref name="ftn140">Lit.: ''e disse a ela''.</ref>: «Estão perdoados os teus pecados».
<span style="color:red"><sup>49</sup></span>Os que estavam com Ele reclinados à mesa começaram a dizer entre si: «Quem é este que até pecados perdoa?». <span style="color:red"><sup>50</sup></span>Mas Ele disse à mulher: «A tua fé te salvou. Vai em paz».
8 As discípulas de Jesus – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>E aconteceu que, de seguida, Ele percorria cada cidade e povoação proclamando e anunciando a boa nova do reino de Deus. Iam com Ele os Doze <span style="color:red"><sup>2</sup></span>e algumas mulheres que tinham sido curadas de espíritos malignos e enfermidades: Maria chamada Madalena<ref name="ftn141">Na sua missão, Jesus forma uma comunidade nova, constituída pelos Doze e por diversas mulheres. Os Doze só vão ser enviados em missão em 9,1-2. A referência às mulheres como discípulas de Jesus (cf. Mt 27,55 e Mc 15,41) é um facto excecional no ambiente da Palestina e muito realçado por Lc. Em primeiro lugar, aparece Maria de Magdala ''da qual tinham saído sete demónios'', um modo muito hebraico de realçar a gravidade do problema e a dimensão da cura. Nada permite afirmar que esta seja a pecadora arrependida da narrativa anterior (Lc 7,36-50), como o fez crer a tradição.</ref>, da qual tinham saído sete demónios, <span style="color:red"><sup>3</sup></span>e Joana mulher de Cusa, administrador de Herodes, Susana e muitas outras que os serviam com os seus bens.
Parábola do semeador (Mt 13,1-9; Mc 4,1-9) – <span style="color:red"><sup>4</sup></span>Estando reunida uma numerosa multidão e acorrendo a Ele gentes de cada cidade, disse por meio de uma parábola<ref name="ftn142">O discurso parabólico de Lc é reduzido (cf. Mt 13,1-52 e Mc 4,1-34). Está dividido em dois temas: o mistério de Jesus reservado aos discípulos durante a sua missão (v. 10) e proclamado publicamente após a Páscoa (vv. 16-17).</ref>: <span style="color:red"><sup>5</sup></span>«Saiu o semeador a semear a sua semente. E ao semeá-la, uma parte caiu junto ao caminho: foi calcada, e as aves do céu devoraram-na. <span style="color:red"><sup>6</sup></span>Outra parte caiu sobre a rocha: ao brotar, secou por não ter humidade. <span style="color:red"><sup>7</sup></span>Outra parte caiu no meio dos espinhos: os espinhos brotaram com ela e sufocaram-na. <span style="color:red"><sup>8</sup></span>Outra parte caiu em terra boa: brotou e deu fruto cem vezes mais». E, ao dizer isto, exclamava: «Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!».
Porque fala Jesus em parábolas (Mt 13,10-17; Mc 4,10-12) – <span style="color:red"><sup>9</sup></span>Perguntavam-lhe os seus discípulos que parábola seria aquela. <span style="color:red"><sup>10</sup></span>Ele disse: «A vós foi dado conhecer os mistérios do reino de Deus, mas aos outros em parábolas, para que'' vendo, não vejam, e ouvindo, não entendam''»<ref name="ftn143">Lc cita uma parte do texto de Is 6,9s (cf. também Dt 29,3; Sl 115,6). O texto completo vai ser citado apenas em At 28,26s, acusando a recusa de uma boa parte de Israel.</ref>.
Explicação da parábola (Mt 13,18-23; Mc 4,13-20) – <span style="color:red"><sup>11</sup></span>«A parábola é esta: a semente é a palavra de Deus. <span style="color:red"><sup>12</sup></span>Os que estão junto ao caminho são os que ouvem, mas logo vem o Diabo e arranca a palavra do seu coração, para que, acreditando, não se salvem. <span style="color:red"><sup>13</sup></span>Os que estão sobre a rocha são aqueles que, quando ouvem, acolhem a palavra com alegria; mas estes, como não têm raiz, por algum tempo acreditam e, no tempo da provação, perdem-se. <span style="color:red"><sup>14</sup></span>A parte que caiu entre os espinhos, estes são os que ouvem, mas, ao caminhar, são sufocados pelos cuidados, pelas riquezas e pelos prazeres da vida, e não chegam a dar fruto. <span style="color:red"><sup>15</sup></span>A parte que cai em terra boa, estes são os que, ouvindo a palavra com um coração nobre e bom<ref name="ftn144">Ou ''coração belo e'' ''bom'' (''kardía kalê kaì agathê'').</ref>, a guardam e dão fruto com perseverança».
Parábola da candeia (Mc 4,21-25) – <span style="color:red"><sup>16</sup></span>«Ninguém, ao acender uma candeia, a esconde com um vaso ou a coloca debaixo de uma cama; pelo contrário, coloca-a sobre um candelabro para que os que entram vejam a luz. <span style="color:red"><sup>17</sup></span>Porque nada há escondido que não se torne manifesto, nem secreto que não seja conhecido e venha a ser manifesto. <span style="color:red"><sup>18</sup></span>Tomai cuidado, então, como ouvis! Pois àquele que tem ser-lhe-á dado, e àquele que não tem, até o que julga ter lhe será tirado».
A verdadeira família de Jesus (Mt 12,46-50; Mc 3,31-35) – <span style="color:red"><sup>19</sup></span>Vieram ter com Ele a sua mãe e os seus irmãos, mas não conseguiam chegar junto dele por causa da multidão. <span style="color:red"><sup>20</sup></span>Anunciaram-lhe, então: «A tua mãe e os teus irmãos estão lá fora e querem ver-te». <spanstyle="color:red"><sup>21</sup></span>Ele, porém, em resposta disse-lhes: «A minha mãe e os meus irmãos são estes: os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática»<ref name="ftn145">''Irmãos'' é uma palavra que deve ser enquadrada e entendida no contexto da família patriarcal com que se designava não apenas os filhos do mesmo casal (linha direta), mas também os dos tios (linha colateral), como se pode ver em Gn 13,8 e Dt 1,16. A tónica colocada na palavra de Deus escutada e posta em prática não elimina os laços familiares, antes os alarga e ultrapassa (Lc 11,28).</ref>.
A tempestade acalmada (Mt 8,18.23-27; Mc 4,35-41) – <span style="color:red"><sup>22</sup></span>Aconteceu que, num daqueles dias, Ele subiu com os seus discípulos para um barco e disse-lhes: «Atravessemos para a outra margem do lago»<ref name="ftn146">O mar era visto como repositório das forças do mal (Is 51,9s; Dn 7,2-7; Sl 65,8; 89,10; 93,3s). Com esta sua atitude, Jesus manifesta ter poder sobre elas e ser Senhor das forças da natureza.</ref><nowiki>; e partiram. </nowiki><span style="color:red"><sup>23</sup></span>Enquanto navegavam, Ele adormeceu. Abateu-se, então, uma tempestade de vento sobre o lago; eles estavam a ficar inundados e corriam perigo. <span style="color:red"><sup>24</sup></span>Aproximando-se, acordaram-no, dizendo: «Mestre, mestre, estamos a morrer!». Ele, acordando, repreendeu severamente o vento e as ondas<ref name="ftn147">Lit.: ''a agitação da água''.</ref>, que amainaram, e fez-se bonança. <span style="color:red"><sup>25</sup></span>Disse-lhes, então: «Onde está a vossa fé?». Cheios de temor, admiraram-se, dizendo uns aos outros: «Quem é este que até aos ventos e à água dá ordens, e eles obedecem-lhe?».
Cura do endemoniado de Gérasa (Mt 8,28-34; Mc 5,1-20) – <span style="color:red"><sup>26</sup></span>Navegaram, então, até à região dos gerasenos<ref name="ftn148">A região dos gerasenos (Mc) ou gadarenos (Mt) é pagã e situa-se na margem oriental do Lago de Tiberíades (também conhecido por Lago de Genesaré).</ref>, que está defronte da Galileia. <span style="color:red"><sup>27</sup></span>Quando Ele saiu para terra veio ao seu encontro um homem da cidade, que tinha demónios e que há muito tempo não vestia roupa, e morava não em casa, mas nos sepulcros. <span style="color:red"><sup>28</sup></span>Ao ver Jesus, pôs-se a gritar, caiu diante dele e disse com voz forte: «Que há entre mim e ti, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Peço-te que não me atormentes». <spanstyle="color:red"><sup>29</sup></span>De facto, Jesus tinha ordenado ao espírito impuro que saísse do homem, pois há muito tempo o espírito se apoderara dele; e estava amarrado com correntes e preso com grilhões, mas ele, quebrando as cadeias, era empurrado pelo demónio para os desertos<ref name="ftn149">Os desertos são, na mentalidade bíblica, a morada dos seres demoníacos (Lv 16,10; Is 13,21; 34,12.14; Tb 8,3; Br 4,35). Por vezes, o evangelho partilha este modo de ver (Lc 4,1; 11,24).</ref>.
<span style="color:red"><sup>30</sup></span>Jesus interrogou-o: «Qual é o teu nome?». Ele disse: «Legião», porque tinham entrado nele muitos demónios. <span style="color:red"><sup>31</sup></span>Suplicavam-lhe que não os mandasse ir para o abismo. <span style="color:red"><sup>32</sup></span>Ora, estava ali uma vara de bastantes porcos<ref name="ftn150">Os porcos, animais impuros, são a ilustração da impureza desta terra pagã (Mc 5,11).</ref> a pastar no monte. Suplicaram-lhe que lhes permitisse entrar neles, e Ele permitiu-lhes. <span style="color:red"><sup>33</sup></span>Ao saírem do homem, os demónios entraram nos porcos; a vara lançou-se pelo precipício para o lago e afogou-se.
<span style="color:red"><sup>34</sup></span>Ao ver o que tinha acontecido, os que apascentavam fugiram e foram anunciá-lo para a cidade e para os campos. <span style="color:red"><sup>35</sup></span>Saíram, então, para ver o que tinha acontecido e foram ter com Jesus. Encontraram o homem do qual tinham saído os demónios, sentado, vestido e de perfeito juízo junto aos pés de Jesus<ref name="ftn151">''Junto aos pés de Jesus'' é a atitude normal do discípulo, em Lc (10,39; At 22,3).</ref>, e ficaram com medo. <span style="color:red"><sup>36</sup></span>Os que tinham visto anunciaram-lhes como o endemoniado fora salvo<ref name="ftn152">Em Lc, o verbo ''salvar'' tanto designa a cura física (6,9; 8,48.50; 17,19; 18,42; 23,35.37.39) como a regeneração espiritual (7,50; 8,12; 19,10).</ref>. <span style="color:red"><sup>37</sup></span>Então toda a gente da região dos Gerasenos lhe pediu que se afastasse deles, porque estavam tomados por um grande medo. E Ele, subindo para um barco, regressou.
<span style="color:red"><sup>38</sup></span>O homem, do qual tinham saído os demónios, pedia-lhe para ficar com Ele, mas Jesus mandou-o embora, dizendo: <span style="color:red"><sup>39</sup></span>«Regressa para tua casa e conta o quanto Deus te fez». Então ele partiu, proclamando por toda a cidade o quanto Jesus lhe fizera.
Cura da mulher que sofria de hemorragias e ressurreição da filha de Jairo (Mt 9,18-26; Mc 5,21-43) – <span style="color:red"><sup>40</sup></span>Quando Jesus regressou, a multidão recebeu-o, pois todos o esperavam. <span style="color:red"><sup>41</sup></span>E eis que veio um homem, de nome Jairo, que era chefe da sinagoga. Caindo a seus pés, suplicava-lhe que entrasse na sua casa, <span style="color:red"><sup>42</sup></span>porque tinha uma filha única, com cerca de doze anos, que estava a morrer. Enquanto Ele se dirigia para lá, as multidões quase o sufocavam.
<span style="color:red"><sup>43</sup></span>Entretanto, uma mulher que tinha um fluxo de sangue havia doze anos e tinha gasto todos os seus bens com os médicos, mas não pudera ser curada por nenhum, <span style="color:red"><sup>44</sup></span>aproximou-se por trás<ref name="ftn153">A mulher assume um comportamento discreto, dada a impureza legal da sua doença (Lv 15,1).</ref>, tocou na franja da sua veste e subitamente o seu fluxo de sangue parou. <span style="color:red"><sup>45</sup></span>Então Jesus disse: «Quem me tocou?». Como todos negavam, Pedro<ref name="ftn154">Testemunhos antigos acrescentam: ''e os seus companheiros''.</ref> disse: «Mestre, as multidões comprimem-te e apertam-te». <span style="color:red"><sup>46</sup></span>Mas Jesus disse: «Alguém me tocou, pois Eu percebi que um poder<ref name="ftn155">A força de que Jesus fala é o poder e a graça de Deus que por Ele atuam.</ref> saía de mim». <span style="color:red"><sup>47</sup></span>A mulher, vendo que não passara despercebida, veio e, a tremer, caiu diante dele; e, perante todo o povo, anunciou a razão pela qual lhe tinha tocado e como ficara subitamente curada. <span style="color:red"><sup>48</sup></span>Ele disse-lhe: «Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz».
<span style="color:red"><sup>49</sup></span>Ainda Ele falava, e veio alguém da casa do chefe da sinagoga, dizendo: «A tua filha está morta. Não incomodes mais o Mestre». <span style="color:red"><sup>50</sup></span>Mas Jesus, ouvindo, respondeu-lhe: «Não tenhas medo! Acredita apenas, e ela será salva».
<span style="color:red"><sup>51</sup></span>Ao chegar à casa, não deixou que ninguém entrasse com Ele, a não ser Pedro, João e Tiago<ref name="ftn156">São os discípulos que acompanham o Mestre noutros momentos importantes: o da transfiguração (9,28) e o de Getsémani (Mt 26,37 e Mc 14,33). Ao contrário de Mc, Lc menciona João antes de Tiago, como em 9,28 e At 1,13.</ref>, e o pai e a mãe da menina. <span style="color:red"><sup>52</sup></span>Todos choravam e batiam no peito<ref name="ftn157">Lit.: ''golpeavam-se''.</ref> por causa dela. Ele, porém, disse: «Não choreis, pois ela não morreu, mas está a dormir». <span style="color:red"><sup>53</sup></span>E riam-se dele, sabendo que estava morta. <span style="color:red"><sup>54</sup></span>Ele, porém, agarrando-lhe a mão, chamou dizendo: «Menina, levanta-te». <span style="color:red"><sup>55</sup></span>O espírito dela voltou, e ela levantou-se subitamente. Ele ordenou, então, que lhe dessem de comer. <span style="color:red"><sup>56</sup></span>Os seus pais ficaram espantados, mas Ele recomendou-lhes que a ninguém dissessem o que tinha acontecido<ref name="ftn158">Cf. 1Rs 17,1-22 (idêntico milagre operado por Elias).</ref>.
9 Missão dos Doze (Mt 10,1.5-14; Mc 6,7-13) – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>Tendo convocado os Doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demónios e para curar doenças. <span style="color:red"><sup>2</sup></span>Enviou-os a proclamar o reino de Deus e a curar os doentes <span style="color:red"><sup>3</sup></span>e disse-lhes: «Não leveis nada para o caminho: nem bastão, nem bolsa, nem pão, nem dinheiro<ref name="ftn159">Lit.: ''prata''.</ref><nowiki>; e não tenhais sequer duas túnicas. </nowiki><span style="color:red"><sup>4</sup></span>Na casa em que entrardes, permanecei lá até de lá sairdes. <span style="color:red"><sup>5</sup></span>Quanto aos que não vos acolherem, ao sairdes dessa cidade sacudi o pó dos vossos pés<ref name="ftn160">Sacudir o pó dos pés é um gesto de rutura com os que não acolhem a mensagem. Deste modo, eram considerados pagãos e a sua terra impura (Ne 5,13); cf. ordem igual em Mt 10,14; Mc 6,11 e a sua execução em At 13,51.</ref> como testemunho contra eles».
<span style="color:red"><sup>6</sup></span>Então, tendo saído, atravessavam as povoações, anunciando a boa nova e curando por toda a parte.
Dúvidas de Herodes sobre Jesus (Mt 14,1s; Mc 6,14-16) – <span style="color:red"><sup>7</sup></span>O tetrarca Herodes, porém, ouviu falar de tudo o que estava a acontecer e andava perplexo por causa do que era dito: por alguns, que João tinha ressuscitado dos mortos; <spanstyle="color:red"><sup>8</sup></span>por outros, que Elias tinha aparecido<ref name="ftn161">O regresso de Elias é predito por Ml 3,23 (cf. também Mt 17,19 e Mc 9,11).</ref><nowiki>; e, por outros ainda, que um profeta dos antigos tinha ressuscitado. </nowiki><span style="color:red"><sup>9</sup></span>Mas Herodes disse: «A João, eu o decapitei; mas quem é este do qual ouço tais coisas?». E procurava vê-lo.
Multiplicação dos pães e dos peixes (Mt 14,13-21; Mc 6,30-44; Jo 6,1-13) – <span style="color:red"><sup>10</sup></span>Quando voltaram, os apóstolos contaram-lhe tudo o que tinham feito. Tomando-os consigo, retirou-se a sós para uma cidade chamada Betsaida. <span style="color:red"><sup>11</sup></span>As multidões, porém, quando o souberam, seguiram-no. E Ele, acolhendo-as, falava-lhes do reino de Deus e curava os que tinham necessidade de cuidados.
<span style="color:red"><sup>12</sup></span>O dia começou a declinar. Os Doze, indo ter com Ele, disseram-lhe: «Manda embora a multidão, para irem às povoações e campos em redor encontrar alojamento e comida, porque aqui estamos num lugar deserto». <span style="color:red"><sup>13</sup></span>Mas Ele disse-lhes: «Dai-lhes vós de comer». Eles disseram: «Não temos mais do que cinco pães e dois peixes. A não ser que vamos nós comprar alimentos para todo este povo». <span style="color:red"><sup>14</sup></span>Eram, de facto, cerca de cinco mil homens<ref name="ftn162">Os grupos de cinquenta evocam a organização de Israel no deserto (Ex 18,21.25), proposta como a ordem ideal do povo de Deus (Js 8,12; 1 Mc 3,55; Mc 6,44).</ref>.
Disse, então, aos seus discípulos: «Fazei-os reclinar-se em grupos de cinquenta». <span style="color:red"><sup>15</sup></span>Assim fizeram e todos se reclinaram. <span style="color:red"><sup>16</sup></span>Tomando os cinco pães e os dois peixes, e levantando os olhos ao céu, pronunciou sobre eles a bênção, partiu-os e dava-os<ref name="ftn163">Os gestos de Jesus evocam a ceia judaica e a própria ceia eucarística, ainda que a ação de graças só aconteça em 22,19.</ref> aos discípulos para que os distribuíssem à multidão. <span style="color:red"><sup>17</sup></span>Todos comeram e ficaram saciados; e recolheu-se o que lhes sobrara dos pedaços: doze cestas.
Confissão messiânica de Pedro e primeiro anúncio da paixão e ressurreição (Mt 16,13-21; Mc 8,27-31) – <span style="color:red"><sup>18</sup></span>E aconteceu que, estando a rezar sozinho, estavam com Ele os discípulos. Interrogou-os, então, dizendo: «Quem dizem as multidões que Eu sou?». <span style="color:red"><sup>19</sup></span>Eles, respondendo, disseram: «João Batista; outros, Elias; e outros, que um profeta dos antigos ressuscitou». <span style="color:red"><sup>20</sup></span>Disse-lhes, então: «Vós, porém, quem dizeis que Eu sou?». Pedro, respondendo, disse: «O Cristo de Deus»<ref name="ftn164">Jesus já tinha sido proclamado Cristo (ou Messias) pelos anjos (1,32-33; 2,11), por Simeão (2,26.30) e pelos demónios (4,41), mas é Pedro o primeiro dos discípulos a dar-lhe este título.</ref>. <span style="color:red"><sup>21</sup></span>Ele, repreendendo-os severamente, ordenou-lhes que não dissessem isto a ninguém, <span style="color:red"><sup>22</sup></span>afirmando: «É necessário o Filho do Homem sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos doutores da lei, ser morto e ao terceiro dia ressuscitar»<ref name="ftn165">Lc não refere o motivo do segredo messiânico, mas deduz-se: Pedro pensa num messianismo temporal, e Jesus aponta para outro, como se infere do anúncio da paixão. Anciãos, chefes dos sacerdotes e doutores da lei são as três categorias de pessoas que compõem o sinédrio.</ref>.
Condições para seguir Jesus (Mt 16,24-28; Mc 8,34-9,1) – <span style="color:red"><sup>23</sup></span>E dizia a todos: «Se alguém quer vir atrás de mim, negue-se a si mesmo<ref name="ftn166">Jesus fala para todos os seus discípulos e não apenas para os Doze (14,27; 17,33; Mt 8,22; 10,38-39).</ref>, tome cada dia<ref name="ftn167">Expressão característica de Lc que sublinha o facto de o discipulado ser permanente.</ref> a sua cruz e siga-me. <span style="color:red"><sup>24</sup></span>Pois aquele que quiser salvar a sua vida há de perdê-la, mas aquele que perder a vida por causa de mim há de salvá-la. <span style="color:red"><sup>25</sup></span>Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder-se e arruinar-se a si próprio? <span style="color:red"><sup>26</sup></span>Portanto, aquele que se envergonhar de mim e das minhas palavras, deste se envergonhará o Filho do Homem, quando vier na sua glória, na do Pai e dos santos anjos. <span style="color:red"><sup>27</sup></span>Em verdade vos digo: alguns dos que aqui estão não provarão a morte, até que vejam o reino de Deus»<ref name="ftn168">Ver chegar o reino de Deus significa reconhecer a realeza de Jesus ressuscitado (22,69; At 2,36).</ref>.
Transfiguração de Jesus (Mt 17,1-9; Mc 9,2-8) – <span style="color:red"><sup>28</sup></span>E aconteceu que, após estas palavras, cerca de oito dias depois, tomando consigo Pedro, João e Tiago, subiu ao monte para rezar. <span style="color:red"><sup>29</sup></span>E aconteceu que, enquanto rezava, alterou-se o aspeto do seu rosto<ref name="ftn169">Lc evita o termo ''metamorfose'' que tem para os seus leitores uma ressonância pagã. Prefere falar da transformação do rosto e da glória de Jesus (v. 32).</ref>, e a sua veste ficou de uma brancura refulgente. <span style="color:red"><sup>30</sup></span>E eis que dois homens conversavam com Ele: eram eles Moisés e Elias <span style="color:red"><sup>31</sup></span>que, tendo aparecido em glória, falavam do seu êxodo que estava prestes a cumprir-se em Jerusalém<ref name="ftn170">Moisés e Elias aparecem e falam da glória de Jesus porque foram associados à obra de Deus (Ex 34,29-35; 2Cor 3,7-11) e voltaram a Ele de modo misterioso (Dt 34,5s; 2Rs 2,11s).</ref>.
<span style="color:red"><sup>32</sup></span>Pedro e os companheiros estavam cheios de sono. Ao despertarem, viram a sua glória e os dois homens que estavam com Ele. <span style="color:red"><sup>33</sup></span>E aconteceu que, ao afastarem-se dele, Pedro disse a Jesus: «Mestre, que bom é nós estarmos aqui! Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias». Não sabia o que dizia.
<span style="color:red"><sup>34</sup></span>Enquanto ele dizia isto, surgiu uma nuvem<ref name="ftn171">A nuvem que envolve evoca Lc 1,35 e sugere as teofanias veterotestamentárias (Ex 40,35; Nm 9,18.22; 10,34).</ref> que os cobriu de sombra, e ficaram cheios de medo ao entrarem na nuvem. <span style="color:red"><sup>35</sup></span>E da nuvem surgiu uma voz, dizendo: «Este é o meu Filho, o eleito<ref name="ftn172">O ''escolhido'' ou ''eleito'' é um título que volta a aparecer em Lc 23,35. Provém certamente de Is 49,7 e encontra-se nos escritos apocalípticos do judaísmo.</ref>: escutai-o!»<ref name="ftn173">No batismo, a voz do céu apresenta Jesus como Filho muito amado (3,22), usando palavras do Sl 2,7; na transfiguração, apresenta-o como o profeta a quem se deve escutar (cf. At 3,22, citando Dt 18,15).</ref>. <span style="color:red"><sup>36</sup></span>Quando a voz surgiu, Jesus encontrou-se sozinho. Eles ficaram calados e por aqueles dias não anunciaram a ninguém o que tinham visto.
Cura de um jovem endemoniado (Mt 17,14-21; Mc 9,14-29) – <span style="color:red"><sup>37</sup></span>Aconteceu que, no dia seguinte, enquanto eles desciam do monte, veio ao encontro dele uma numerosa multidão. <span style="color:red"><sup>38</sup></span>E eis que um homem, de entre a multidão, começou a clamar, dizendo: «Mestre, peço-te que ponhas os olhos no meu filho, porque é o único<ref name="ftn174">Como em 7,12 e 8,42, Lc insiste nesta condição de ''filho único'', lembrando provavelmente o milagre de Elias (1Rs 17,12).</ref> que tenho. <span style="color:red"><sup>39</sup></span>Eis que um espírito se apodera dele; de imediato se põe a gritar, contorce-o e fá-lo espumar<ref name="ftn175">Lit.: ''contorce-o com espuma''.</ref>. Só a muito custo se retira dele, deixando-o quebrado. <span style="color:red"><sup>40</sup></span>Pedi aos teus discípulos que o expulsassem, mas não conseguiram». <span style="color:red"><sup>41</sup></span>Respondendo, Jesus disse: «Ó geração descrente e perversa! Até quando estarei junto de vós e vos hei de suportar? Traz aqui o teu filho».
<span style="color:red"><sup>42</sup></span>Ainda ele se aproximava, o demónio atirou-o ao chão e sacudiu-o com violência. Jesus, porém, repreendeu severamente o espírito impuro, curou o menino e entregou-o ao seu pai. <span style="color:red"><sup>43</sup></span>Todos ficavam perplexos perante a grandeza de Deus.
Segundo anúncio da paixão e ressurreição (Mt 17,22s; Mc 9,30-32) – Estando todos admirados com tudo o que fazia, Jesus disse aos seus discípulos: <span style="color:red"><sup>44</sup></span>«Quanto a vós, ponde nos vossos ouvidos estas palavras: o Filho do Homem está prestes a ser entregue nas mãos dos homens». <span style="color:red"><sup>45</sup></span>Eles, porém, não compreendiam tal coisa; estava-lhes velado para que o não percebessem. E tinham medo de o interrogar acerca disso.
Discussão entre os discípulos: quem é o maior (Mt 18-1-5; Mc 9,33-37) – <span style="color:red"><sup>46</sup></span>Surgiu, então, uma discussão entre eles: qual deles seria o maior. <span style="color:red"><sup>47</sup></span>Jesus, conhecendo o pensamento do coração deles, pegou numa criança, colocou-a junto de si e <span style="color:red"><sup>48</sup></span>disse-lhes: «aquele que acolher esta criança em meu nome, é a mim que acolhe; e aquele que me acolher, acolhe aquele que me enviou. Pois aquele que for o mais pequeno entre todos vós, esse é que é grande».
Uso do nome de Jesus (Mc 9,38-41) – <span style="color:red"><sup>49</sup></span>Em resposta, João disse: «Mestre, vimos alguém a expulsar demónios em teu nome, e tentámos impedi-lo, porque não segue connosco». <span style="color:red"><sup>50</sup></span>Mas disse-lhe Jesus: «Não impeçais, pois quem não é contra vós, é a vosso favor».
<center>IV</center>
<center>O CAMINHO DE JESUS </center>
<center>PARA JERUSALÉM </center>
<center>(9,51-19,28)</center>
Hostilidade dos samaritanos – <span style="color:red"><sup>51</sup></span>Aconteceu que, ao completarem-se os dias da sua elevação<ref name="ftn176">A palavra grega ''analḗmpsis'' evoca quer a morte, quer a ascensão de Jesus.</ref>, Ele tomou a firme decisão<ref name="ftn177">Lit.: ''fixou a sua face''... (também no v. 53) / ''endureceu o seu rosto'' ... (Is 50,7). Lc sublinha a partida de Jesus para Jerusalém, onde vai consumar-se o mistério pascal.</ref> de ir para Jerusalém e <span style="color:red"><sup>52</sup></span>enviou mensageiros à sua frente<ref name="ftn178">Lit.: ''à frente da sua face.''</ref>. Eles foram e entraram numa povoação de samaritanos, de modo a preparar algo para Ele. <span style="color:red"><sup>53</sup></span>Mas não o acolheram<ref name="ftn179">Os judeus evitavam qualquer tipo de contacto com os samaritanos (e vice-versa), dadas as divergências religiosas e o facto de os considerarem impuros, em virtude da sua origem pagã (2Rs 17,24-41; Sir 50,25-26; Jo 4,9). Jesus desvaloriza tudo isso (10,33-37; 17,16-19).</ref>, porque tomara a decisão de ir para Jerusalém. <span style="color:red"><sup>54</sup></span>Ao ver isto, os discípulos Tiago e João disseram: «Senhor, queres que digamos para ''um fogo'' ''descer do céu''<ref name="ftn180">Alusão ao castigo de Elias sobre os enviados de Acazias, rei da Samaria (2 Rs 1,10-12).</ref>'' e ''os'' destruir?''». <span style="color:red"><sup>55</sup></span>Mas Ele, voltando-se, repreendeu-os severamente. <span style="color:red"><sup>56</sup></span>E foram para outra povoação.
Seguir Jesus (Mt 8,18-22) – <span style="color:red"><sup>57</sup></span>Quando eles iam no caminho, disse-lhe alguém: «Seguir-te-ei para onde quer que vás». <span style="color:red"><sup>58</sup></span>Disse-lhe Jesus: «As raposas têm tocas, e as aves do céu ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça».
<span style="color:red"><sup>59</sup></span>Disse a outro: «Segue-me». Mas ele disse: «Senhor, permite-me que vá primeiro sepultar o meu pai». <span style="color:red"><sup>60</sup></span>Disse-lhe Ele: «Deixa''' '''que''' '''os mortos sepultem os seus mortos. Tu, porém, vai anunciar o reino de Deus».
<span style="color:red"><sup>61</sup></span>Disse-lhe ainda outro: «Seguir-te-ei, Senhor, mas permite que primeiro me despeça dos da minha casa». <span style="color:red"><sup>62</sup></span>Disse-lhe Jesus: «Ninguém, que tenha lançado mão ao arado e olhe para trás, é apto para o reino de Deus»<ref name="ftn181">Estes dois vv. exclusivos de Lc, recordam o chamamento de Eliseu por Elias (1Rs 19,19-21). Jesus é mais exigente do que Elias, pois este permite que Eliseu se despeça dos seus.</ref>.
10 A missão dos setenta e dois (Mt 9,37s) – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>Depois disto, o Senhor designou outros setenta e dois<ref name="ftn182">Em alguns mss. lê-se ''setenta'' (o mesmo acontece no v. 17). Em ambos os casos, Lc pretende indicar o número das nações pagãs, segundo Gn 10 (70, na versão hebraica; 72, na versão grega). Lc segue a versão grega e encontra neste envio uma antecipação da missão aos pagãos, que só começou depois da Páscoa e do Pentecostes (Lc 24,47; At 1,8). O episódio é exclusivo de Lc.</ref> e enviou-os à sua frente, dois a dois, a toda a cidade e lugar onde Ele estava prestes a ir. <span style="color:red"><sup>2</sup></span>Dizia-lhes: «A seara<ref name="ftn183">O grego ''therism''ó''s'' diz respeito ao ato de colher no tempo próprio e, por extensão de sentido, à própria seara. A imagem da ceifa/colheita é usada pelos Profetas para designar o julgamento de Deus (Is 41,15.16; Jl 4,13). Também para João Batista é obra de Deus (3,17).</ref> é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara. <span style="color:red"><sup>3</sup></span>Ide. Eis que vos envio como cordeiros no meio de lobos. <span style="color:red"><sup>4</sup></span>Não leveis saca, nem bolsa, nem sandálias, nem saudeis ninguém pelo caminho. <span style="color:red"><sup>5</sup></span>Se entrardes numa casa, dizei primeiro: "Paz a esta casa!" <span style="color:red"><sup>6</sup></span>E se lá houver alguém de paz<ref name="ftn184">Lit.: ''filho da paz'', um semitismo para designar aquele que acolhe de Deus o dom da paz.</ref>, repousará sobre ele a vossa paz; se não, regressará a vós. <span style="color:red"><sup>7</sup></span>Permanecei nessa casa comendo e bebendo do que tiverem, pois o trabalhador é digno do seu salário.
Não andeis de casa em casa. <span style="color:red"><sup>8</sup></span>E, se entrardes numa cidade e vos acolherem, comei o que vos apresentarem, <span style="color:red"><sup>9</sup></span>curai os doentes que nela houver e dizei-lhes: "Está próximo de vós o reino de Deus". <span style="color:red"><sup>10</sup></span>Mas, se entrardes numa cidade e não vos acolherem, saí para as suas praças e dizei: <span style="color:red"><sup>11</sup></span>"Até o pó da vossa cidade, que se apegou aos nossos pés, sacudimos para vós. Sabei, no entanto: o reino de Deus está próximo"'''. '''<span style="color:red"><sup>12</sup></span>Digo-vos que, naquele dia, haverá mais tolerância para Sodoma do que para essa cidade».
Imprecações contra as cidades incrédulas (Mt 11,20-24) – <span style="color:red"><sup>13</sup></span>«Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e Sídon se tivessem realizado as ações poderosas<ref name="ftn185">Lit.: ''poderes'' (''dynámeis''); habitualmente este termo é traduzido por ''milagre'', mas a etimologia remete para aquele que realiza tais ações e não tanto para quem as vê.</ref> que entre vós se realizaram, há muito se teriam convertido, cobrindo-se de pano rude<ref name="ftn186">Revestir-se de saco (veste grosseira e, por isso, incómoda e nada confortável) e cobrir-se de cinza eram sinais exteriores do arrependimento e da conversão (Jn 3,7-10).</ref> e sentando-se na cinza. <span style="color:red"><sup>14</sup></span>Aliás, haverá mais tolerância para Tiro e Sídon no juízo do que para vós. <span style="color:red"><sup>15</sup></span>E tu, Cafarnaum,'' serás elevada até ao céu? Até ao inferno''<ref name="ftn187">Lit.: ''Hades'', o inferno na mitologia grega.</ref> ''descer''ás''.'' <span style="color:red"><sup>16</sup></span>Quem vos ouve a mim ouve, e quem vos rejeita a mim rejeita; mas quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou».
Regresso dos discípulos – <span style="color:red"><sup>17</sup></span>Os setenta e dois voltaram com alegria, dizendo: «Senhor, até os demónios se submetem a nós em teu nome». <span style="color:red"><sup>18</sup></span>Mas Ele disse-lhes: «Via Satanás como um relâmpago a cair do céu. <span style="color:red"><sup>19</sup></span>Eis que vos dei a autoridade para pisar serpentes e escorpiões, e sobre todo o poder do inimigo; e ninguém jamais vos causará dano. <span style="color:red"><sup>20</sup></span>Contudo, não vos alegreis porque os espíritos se submetem a vós; alegrai-vos antes porque os vossos nomes estão inscritos nos céus».
Revelação aos humildes (Mt 11,25-27) – <span style="color:red"><sup>21</sup></span>Naquela mesma hora exultou de alegria no Espírito Santo e disse: «Louvo-te, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. <span style="color:red"><sup>22</sup></span>Tudo me foi entregue por meu Pai; ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, e quem é o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho quiser revelar».
<span style="color:red"><sup>23</sup></span>E, voltando-se para os discípulos, disse-lhes a sós: «Felizes os olhos que veem o que vós vedes. <span style="color:red"><sup>24</sup></span>Pois digo-vos que muitos profetas e reis quiseram ver o que vós vedes e não viram, e ouvir o que ouvis e não ouviram».
Parábola do bom samaritano (Mt 22,35-40; Mc 12,28-31) – <span style="color:red"><sup>25</sup></span>Eis então que um entendido na Lei se levantou para o pôr à prova, dizendo: «Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?». <span style="color:red"><sup>26</sup></span>Ele disse-lhe: «Na Lei, que está escrito? Como lês?». <span style="color:red"><sup>27</sup></span>Ele, respondendo, disse: «''Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua força, ''e com todo o teu entendimento, ''e o'' ''teu próximo como a ti mesmo''». <span style="color:red"><sup>28</sup></span>Disse-lhe Ele: «Respondeste bem. Faz isso e viverás»<ref name="ftn188">A questão do doutor da lei é respondida por ele próprio, com recurso ao AT (Dt 6,4-9; Lv 19,18).</ref>.
<span style="color:red"><sup>29</sup></span>Mas ele, querendo justificar-se, disse a Jesus: «E quem é o meu próximo?». <span style="color:red"><sup>30</sup></span>Retorquindo, Jesus disse: «Um homem descia de Jerusalém para Jericó<ref name="ftn189">C. 25 quilómetros separam Jerusalém de Jericó. A estrada que liga as duas cidades atravessa o deserto da Judeia. Os assaltos eram frequentes.</ref> e caiu nas mãos de salteadores que, depois de o despirem e lhe baterem, se foram embora, deixando-o meio morto. <span style="color:red"><sup>31</sup></span>Por acaso, um sacerdote descia por aquele caminho; ao vê-lo, passou ao largo. <span style="color:red"><sup>32</sup></span>De igual modo, também um levita que passava por aquele lugar, ao vê-lo, passou ao largo. <span style="color:red"><sup>33</sup></span>Mas um samaritano<ref name="ftn190">As parábolas de Lc obedecem ao esquema de três personagens (cf. 14,18-20; 19,6-24; 20,10-12). Sobre os samaritanos, cf. 9,52-53 nota.</ref>, que seguia no caminho, passou junto dele e, ao vê-lo, ficou profundamente compadecido. <span style="color:red"><sup>34</sup></span>E, indo ter com ele, ligou-lhe as feridas, derramando azeite e vinho; depois de o colocar sobre a sua montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. <span style="color:red"><sup>35</sup></span>No dia seguinte, ao sair, deu dois denários ao estalajadeiro e disse: "Cuida dele e o que gastares a mais eu to restituirei quando voltar".
<span style="color:red"><sup>36</sup></span>Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?». <span style="color:red"><sup>37</sup></span>Ele disse: «O que usou de misericórdia para com ele». <span style="color:red"><sup>37</sup></span>Disse-lhe Jesus: «Vai e faz tu o mesmo»<ref name="ftn191">A parábola aparece encaixada entre duas ordens em que impera o verbo ''fazer'' (vv. 25.28). A tónica não é colocada no saber e no dizer, mas no fazer.</ref>.
Marta e Maria – <span style="color:red"><sup>38</sup></span>Enquanto eles prosseguiam, Ele entrou numa certa povoação. Recebeu-o uma mulher, de nome Marta. <span style="color:red"><sup>39</sup></span>Esta tinha uma irmã chamada Maria<ref name="ftn192">Marta e Maria são seguramente as duas irmãs de que fala também Jo 11,1-40; 12,1-3.</ref> que, sentada aos pés do Senhor, escutava a sua palavra. <span style="color:red"><sup>40</sup></span>Marta, porém, andava de um lado para o outro com muito serviço. Então, parando, disse: «Senhor, não te importa que a minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me». <span style="color:red"><sup>41</sup></span>Respondendo, disse-lhe o Senhor: «Marta, Marta, estás preocupada e alvoroçada com muitas coisas, <span style="color:red"><sup>42</sup></span>mas uma só é necessária. Maria escolheu a parte boa, que não lhe será tirada».
11 A oração do Senhor (Mt 6,9-13) – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>E aconteceu que, estando Ele num certo lugar a rezar<ref name="ftn193">São frequentes, em Lc, as referências à oração de Jesus e, em 5,33, já tinha feito alusão à oração dos discípulos de João.</ref>, quando acabou, disse-lhe um dos seus discípulos: «Senhor, ensina-nos a rezar, tal como João ensinou os seus discípulos». <span style="color:red"><sup>2</sup></span>Disse-lhes, então: «Quando rezardes, dizei:
Pai<ref name="ftn194">A invocação ''Pai'', sem adjetivo ou pronome, liga esta a outras orações de Jesus (10,21; 22,42; 23,34.46). A de Lc é mais breve do que a de Mt e apresenta algumas diferenças.</ref>,
santificado seja o teu nome,
venha o teu reino,
<span style="color:red"><sup>3</sup></span>dá-nos cada dia o nosso pão quotidiano,
<span style="color:red"><sup>4</sup></span>perdoa-nos os nossos pecados,
pois também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende
e não nos leves até à provação».
Parábola do amigo importuno – <span style="color:red"><sup>5</sup></span>E disse-lhes: «Quem de vós terá um amigo e irá ter com ele a meio da noite para lhe dizer: "Amigo, empresta-me três pães, <span style="color:red"><sup>6</sup></span>visto que um amigo meu chegou de viagem e nada tenho para lhe pôr à frente"; <span style="color:red"><sup>7</sup></span>e ele, de dentro, respondendo, dirá: "Não me importunes, a porta já está fechada, e os meus filhos estão na cama comigo; não posso levantar-me para tos dar"? <span style="color:red"><sup>8</sup></span>Digo-vos: ainda que não se levante para lhos dar por ser seu amigo, levantar-se-á por causa da falta de vergonha dele e dar-lhe-á tudo quanto necessite».
Confiança na oração (Mt 7,7-11) – <span style="color:red"><sup>9</sup></span>«Também Eu vos digo: pedi e ser-vos-á dado, procurai e encontrareis, batei e abrir-se-vos-á; <span style="color:red"><sup>10</sup></span>pois todo o que pede recebe, o que procura encontra, e ao que bate abrir-se-á.
<span style="color:red"><sup>11</sup></span>Haverá algum pai entre vós a quem o filho peça<ref name="ftn195">Alguns mss. acrescentam ''um'' ''pão, lhe dará uma pedra.''</ref> um peixe, e em vez do peixe lhe dê uma serpente? <span style="color:red"><sup>12</sup></span>Ou que peça um ovo e lhe dê um escorpião? <span style="color:red"><sup>13</sup></span>Ora, se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do céu dará o Espírito Santo àqueles que lho pedem».
Exorcismos e sinais do reino (Mt 12,22-30, Mc 3,22-27) – <span style="color:red"><sup>14</sup></span>Estava Ele a expulsar um demónio que era mudo, e aconteceu que, tendo o demónio saído, o mudo falou, e as multidões admiraram-se.
<span style="color:red"><sup>15</sup></span>Mas alguns de entre eles disseram: «É por Belzebu<ref name="ftn196">Belzebu (de ''Baal-Zebub'', ''senhor das moscas'') é, na sua origem, o nome de uma divindade da Síria. Tornou-se depois um dos nomes do príncipe dos demónios (2Rs 1,2; Mt 10,25; Mc 3,22).</ref>, o chefe dos demónios, que expulsa os demónios!». <span style="color:red"><sup>16</sup></span>Outros, para o porem à prova, pediam-lhe um sinal do céu. <span style="color:red"><sup>17</sup></span>Ele, porém, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: «Todo o reino dividido contra si mesmo fica deserto, e cai casa sobre casa. <span style="color:red"><sup>18</sup></span>Se também Satanás se divide contra si mesmo, como há de subsistir o seu reino? Porque dizeis que é por Belzebu que Eu expulso os demónios. <span style="color:red"><sup>19</sup></span>Ora, se Eu expulso os demónios por Belzebu, os vossos filhos por quem os expulsam? Por isso, eles serão os vossos juízes. <span style="color:red"><sup>20</sup></span>Mas, se Eu expulso os demónios pelo poder de Deus<ref name="ftn197">Lit.: ''dedo de Deus'' (Ex 8,15; Sl 8,4; Lc 17,21).</ref>, então chegou a vós o reino de Deus.
<span style="color:red"><sup>21</sup></span>Quando aquele que é forte<ref name="ftn198">Lit.: ''quando o forte''.</ref>, bem armado, guarda o seu palácio, todos os seus bens estão em paz. <span style="color:red"><sup>22</sup></span>Mas, quando vem um mais forte do que ele e o vence, tira-lhe a armadura, na qual confiava, e distribui os seus despojos. <span style="color:red"><sup>23</sup></span>Quem não está comigo está contra mim, e quem não recolhe comigo dispersa»<ref name="ftn199">A severidade da sentença (Mt 12,30), em claro contraste com 9,50 e Mc 9,40, explica-se pelo contexto polémico em que é proferida.</ref>.
O espírito impuro pode voltar para o homem (Mt 12,43-45) – <span style="color:red"><sup>24</sup></span>«Quando o espírito impuro sai do homem, anda por lugares áridos em busca de repouso e, não encontrando, então diz: "Voltarei à minha casa, de onde saí". <span style="color:red"><sup>25</sup></span>Ao chegar, encontra-a varrida e em ordem. <span style="color:red"><sup>26</sup></span>Então vai e toma consigo sete outros espíritos<ref name="ftn200">Cf. 8,2. O número sete sugere a grandeza da investida e a total possessão da pessoa.</ref> piores que ele; e, entrando, estabelecem ali morada. A situação final desse homem torna-se pior que a primeira».
A verdadeira felicidade – <span style="color:red"><sup>27</sup></span>Aconteceu que, enquanto Ele dizia estas coisas, uma mulher de entre a multidão, erguendo a voz, disse-lhe: «Feliz o ventre que te carregou e os peitos que te amamentaram». <span style="color:red"><sup>28</sup></span>Ele, porém, respondeu: «Felizes, antes, os que ouvem a palavra de Deus e a observam».
Jesus e o sinal de Jonas (Mt 12,38-42; Mc 8,11s) – <span style="color:red"><sup>29</sup></span>Como a multidão se aglomerasse, começou a dizer: «Esta geração é uma geração má! Procura um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal de Jonas. <span style="color:red"><sup>30</sup></span>Assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas<ref name="ftn201">O apelo à conversão, que fez de Jonas um sinal para os habitantes de Nínive (Jn 3,2-5), fará de Jesus, o Filho do Homem, um sinal para esta geração.</ref>, assim o será também o Filho do Homem para esta geração. <span style="color:red"><sup>31</sup></span>A rainha do sul<ref name="ftn202">''Rainha do sul'' designa a rainha de Sabá (1Rs 10,1-10). Se Salomão é, no AT, o sábio por excelência (1Rs 3; 5,9-14) e Lc já havia dito que João é maior que um profeta (7,26-27), não restam dúvidas quanto à superioridade de Jesus.</ref> erguer-se-á, no dia do juízo<ref name="ftn203">Lit.: ''no juízo'', assim como no v. 32.</ref>, com os homens desta geração, e há de condená-los, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; e eis aqui quem é maior que Salomão. <span style="color:red"><sup>32</sup></span>Os homens de Nínive levantar-se-ão, no dia do juízo, com esta geração, e hão de condená-la, porque se converteram perante a pregação de Jonas; e eis aqui quem é maior que Jonas».
A vista, candeia do corpo (Mt 6,22) – <span style="color:red"><sup>33</sup></span>«Ninguém, ao acender uma candeia, a coloca num lugar escondido ou debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro, para que os que entram vejam a luz. <span style="color:red"><sup>34</sup></span>A candeia do corpo é o teu olho. Quando o teu olho é límpido, também todo o teu corpo é luminoso; quando ele é mau, também o teu corpo é trevas. <span style="color:red"><sup>35</sup></span>Toma cuidado, pois, para que a luz que há em ti não seja trevas! <span style="color:red"><sup>36</sup></span>Portanto, se todo o teu corpo é luminoso, não tendo trevas em parte nenhuma, todo ele será luminoso, como quando a candeia com o seu brilho te ilumina».
Crítica aos doutores da lei e fariseus (Mt 23,1-36) – <span style="color:red"><sup>37</sup></span>Ainda Ele falava, quando um fariseu lhe pediu para tomar a refeição consigo. Tendo entrado, reclinou-se à mesa. <span style="color:red"><sup>38</sup></span>O fariseu admirou-se, ao ver que não se tinha lavado primeiro, antes da refeição. <span style="color:red"><sup>39</sup></span>Mas disse-lhe o Senhor: «Ora, vós, os fariseus, purificais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina<ref name="ftn204">À boa maneira profética, Jesus estabelece a contraposição entre a religião formalista e legalista do exterior, tão característica dos fariseus, e aquela religião que Deus quer, a do interior.</ref> e de maldade. <span style="color:red"><sup>40</sup></span>Insensatos! Quem fez o exterior não fez também o interior? <span style="color:red"><sup>41</sup></span>Dai, antes, de esmola<ref name="ftn205">A esmola é um tema caro a Lc, o único evangelista a apresentá-lo aqui, como faz também em 12,33; 16,9; 19,8.</ref> o que está dentro, e eis que tudo fica puro para vós. <span style="color:red"><sup>42</sup></span>Mas ai de vós, os fariseus, porque pagais o dízimo da hortelã, da arruda<ref name="ftn206">Lc é o único evangelista a falar da arruda, planta selvagem, cujo pagamento do dízimo era discutido (Dt 14,22-23).</ref> e de toda a verdura, e negligenciais o juízo<ref name="ftn207">''Juízo'' traduz ''krísis'', que diz respeito ao exercício da justiça (julgamento), sendo diferente da expressão ''dikaiosýnē ''(''justiça'').</ref> e o amor de Deus; era necessário fazer estas coisas, e não pôr de lado as outras. <span style="color:red"><sup>43</sup></span>Ai de vós, os fariseus, porque amais o primeiro assento nas sinagogas e as saudações nas praças públicas. <span style="color:red"><sup>44</sup></span>Ai de vós, porque sois como os sepulcros não assinalados<ref name="ftn208">Era costume os túmulos estarem assinalados, a fim de não serem calcados. Lc evoca a dissimulação dos fariseus, mas não deixa de referir que Deus conhece bem os seus corações (16,15).</ref>, e os homens que caminham por cima não se apercebem».
<span style="color:red"><sup>45</sup></span>Em resposta, um dos entendidos na lei disse-lhe: «Mestre, ao dizer isso também nos injurias». <span style="color:red"><sup>46</sup></span>Ele, porém, disse: «E ai de vós, os entendidos na lei, porque carregais os homens com fardos difíceis de suportar e vós nem com um dos vossos dedos tocais nos fardos. <span style="color:red"><sup>47</sup></span>Ai de vós, porque edificais os sepulcros dos profetas<ref name="ftn209">A partir de Herodes, o Grande, foram construídos em Israel grandes túmulos para os profetas, como a arqueologia tem documentado.</ref> que os vossos pais mataram. <span style="color:red"><sup>48</sup></span>Portanto, sois testemunhas e coniventes com as obras dos vossos pais, porque eles os mataram e vós edificais os sepulcros. <span style="color:red"><sup>49</sup></span>Foi por isso que também a sabedoria de Deus disse: "Enviar-lhes-ei profetas e apóstolos; a alguns deles hão de matar e perseguir, <span style="color:red"><sup>50</sup></span>para que a esta geração se peça contas do sangue de todos os profetas, derramado desde a fundação do mundo, <span style="color:red"><sup>51</sup></span>desde o sangue de Abel<ref name="ftn210">A morte de Abel e de Zacarias são a primeira e a última das mortes reportadas pela Bíblia Hebraica (Gn 4,8-10; 2Cr 24,20-22). Representam todos os crimes da história sagrada, não tendo em conta os mártires da época macabaica. Segundo a mentalidade do povo da Bíblia, a geração presente deve assumir as responsabilidades das gerações anteriores (responsabilidade solidária e hereditária).</ref> até ao sangue de Zacarias, que pereceu entre o altar e o templo<ref name="ftn211">Lit.: ''entre o altar e a casa'', ou seja, no espaço entre o altar e o Santo dos Santos.</ref>". Sim, digo-vos: serão pedidas contas a esta geração. <span style="color:red"><sup>52</sup></span>Ai de vós, os entendidos na lei, porque tirastes a chave do conhecimento: vós não entrastes e impedistes os que estavam a entrar».
<span style="color:red"><sup>53</sup></span>Quando Ele saiu dali, os doutores da lei e os fariseus começaram a hostilizá-lo terrivelmente e a fazê-lo falar sobre muitas coisas, <span style="color:red"><sup>54</sup></span>armando-lhe ciladas para o apanharem nalguma coisa que saísse da sua boca.
12 O fermento dos fariseus (Mt 10,26s) – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>Entretanto, tendo-se a multidão reunido aos milhares, a ponto de se pisarem uns aos outros, começou a dizer, primeiro aos seus discípulos: «Tende cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia! <span style="color:red"><sup>2</sup></span>Nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nem escondido que não venha a conhecer-se. <span style="color:red"><sup>3</sup></span>Assim, tudo o que tiverdes dito às escuras será ouvido às claras; e o que tiverdes dito aos ouvidos, no interior das casas, será proclamado sobre os telhados».
Confessar Jesus sem medo (Mt 10,19.28-33; 12,32; Mc 3,11.29) – <span style="color:red"><sup>4</sup></span>«Digo-vos, meus amigos: não tenhais medo dos que matam o corpo e depois disso nada mais têm para fazer. <span style="color:red"><sup>5</sup></span>Mostrar-vos-ei de quem deveis ter medo: deveis ter medo daquele que, depois de matar, tem autoridade para lançar na Geena<ref name="ftn212">A leitura da expressão hebraica ''Gē-ben-hinnom'' (''Vale do Filho de'' ''Hinnom'') dará origem à palavra ''Geena'', um vale situado a oeste e sudoeste da colina de Jerusalém. Era o lugar onde uma fogueira ardia de modo permanente, a fim de queimar os lixos da cidade de Jerusalém.</ref>. Sim, digo-vos: desse deveis ter medo. <span style="color:red"><sup>6</sup></span>Não se vendem cinco pardais por duas moedas<ref name="ftn213">Lit.: ''dois asses'' (moeda romana, de cobre, com 10 gramas de peso).</ref>? E nem um deles fica esquecido diante de Deus. <span style="color:red"><sup>7</sup></span>Mas até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não tenhais medo: valeis mais do que muitos pardais.
<span style="color:red"><sup>8</sup></span>Digo-vos: todo aquele que me confessar diante dos homens, também o Filho do Homem o confessará diante dos anjos de Deus. <span style="color:red"><sup>9</sup></span>Mas quem me negar diante dos homens será negado diante dos anjos de Deus. <span style="color:red"><sup>10</sup></span>E todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do Homem ser-lhe-á perdoado; mas àquele que blasfemar contra o Espírito Santo não será perdoado. <span style="color:red"><sup>11</sup></span>Quando vos levarem às sinagogas, aos magistrados e às autoridades, não vos preocupeis como haveis de vos defender ou com o que haveis de dizer, <spanstyle="color:red"><sup>12</sup></span>pois o Espírito Santo vos ensinará, naquela hora, o que é necessário dizer»<ref name="ftn214">Lc apresentará esta mesma promessa de modo diferente em 21,15 e mostra a sua realização, em At 4,8; 5,32; 7,55.</ref>.
Perigo das riquezas – <span style="color:red"><sup>13</sup></span>Disse-lhe alguém de entre a multidão: «Mestre, diz ao meu irmão que divida a herança comigo»<ref name="ftn215">Este tipo de arbitragem ou mediação era pedido, com frequência, aos rabinos.</ref>. <span style="color:red"><sup>14</sup></span>Mas Ele disse-lhe: «Homem, quem me constituiu juiz<ref name="ftn216">Ao recusar uma missão de ordem temporal, Jesus distingue-se de Moisés (Ex 2,14) e dos rabinos do seu tempo.</ref> ou árbitro entre vós?». <span style="color:red"><sup>15</sup></span>E disse-lhes: «Vede bem: guardai-vos de toda a ganância, porque, mesmo que alguém possua em abundância, a sua vida não consiste nos seus bens».
<span style="color:red"><sup>16</sup></span>Disse-lhes, então, uma parábola<ref name="ftn217">Lit.: ''disse-lhes uma parábola, dizendo''.</ref>: «A terra de um homem rico deu uma boa colheita. <span style="color:red"><sup>17</sup></span>E discutia consigo próprio, dizendo: "Que hei de fazer, dado que não tenho onde recolher os meus frutos?". <span style="color:red"><sup>18</sup></span>Disse, então: "Vou fazer assim: destruirei os meus celeiros e edificarei uns maiores; lá recolherei todo o grão e os meus bens. <span style="color:red"><sup>19</sup></span>E direi à minha alma: "Alma, tens muitos bens em depósito para muitos anos: descansa, come, bebe e regala-te!". <span style="color:red"><sup>20</sup></span>Mas Deus disse-lhe: "Insensato! Esta noite a tua vida<ref name="ftn218">Em grego ''psykhḗ ''(alma ou vida)''.'' A palavra significa aqui, como no AT, o ser vivo por inteiro, a pessoa.</ref> ser-te-á reclamada. O que preparaste, para quem será?". <span style="color:red"><sup>21</sup></span>Assim acontece àquele que acumula para si e não se torna rico diante de Deus».
Desprendimento e confiança em Deus (Mt 6,25-34) – <span style="color:red"><sup>22</sup></span>Disse, então, aos seus discípulos: «Por isso vos digo: não vos preocupeis com a vida, quanto ao que haveis de comer, nem com o corpo, quanto ao que haveis de vestir. <spanstyle="color:red"><sup>23</sup></span>Pois a vida é mais do que o alimento, e o corpo mais do que a roupa.
<span style="color:red"><sup>24</sup></span>Reparai nos corvos: não semeiam nem ceifam, não têm despensa nem celeiro, e Deus alimenta-os. Quanto mais não valeis vós do que as aves! <span style="color:red"><sup>25</sup></span>Quem de vós, por se preocupar, pode acrescentar um cúbito<ref name="ftn219">Um cúbito corresponde a 50 centímetros. Acrescentar um cúbito significa prolongar a duração da vida.</ref> ao tempo da sua vida? <span style="color:red"><sup>26</sup></span>Portanto, se nem do mínimo sois capazes, porque vos preocupais com o restante?
<span style="color:red"><sup>27</sup></span>Reparai como crescem os lírios: não se afadigam nem fiam. Digo-vos: nem Salomão, em toda a sua glória, se vestia como um deles. <span style="color:red"><sup>28</sup></span>Ora, se no campo Deus veste assim a erva, que hoje existe e amanhã é lançada ao forno, quanto mais a vós, gente de pouca fé?
<span style="color:red"><sup>29</sup></span>Vós, não procureis o que comer nem o que beber e não vos inquieteis, <span style="color:red"><sup>30</sup></span>pois os pagãos do mundo é que procuram tudo isso. O vosso Pai sabe que precisais dessas coisas. <span style="color:red"><sup>31</sup></span>Procurai antes o seu reino e essas coisas vos serão dadas por acréscimo. <span style="color:red"><sup>32</sup></span>Não tenhas medo, pequenino rebanho<ref name="ftn220">''Pequenino rebanho'' é uma imagem muito frequente no AT para designar o povo de Deus (Gn 48,15; Os 4,16; 13,4-6; Mq 2,2-13; 4,6s; 7,14; Sf 3,19; Jr 31,10; 50,19; Ez 34; Is 40,11; 49,9s; Sl 23,1; 95,7). Jesus aplica esta imagem a Israel (Mt 9,36; Mc 6,34), aos hebreus pecadores (Mt 10,6; 15,24; Lc 15,4s; 19,10) ou, como aqui, ao grupo dos discípulos (Mt 26,31; Mc 14,27).</ref>, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o reino».
O tesouro do céu (Mt 6,19-21) – <span style="color:red"><sup>33</sup></span>«Vendei os vossos bens e dai esmola. Fazei para vós mesmos bolsas que não envelheçam, um tesouro inesgotável nos céus onde o ladrão não se aproxima nem a traça destrói. <span style="color:red"><sup>34</sup></span>Pois onde está o vosso tesouro, aí também estará o vosso coração».
Vigilância (Mt 24,43-51; Mc 13,33-37) – <span style="color:red"><sup>35</sup></span>«Estejam os vossos rins cingidos<ref name="ftn221">Rins cingidos é sinal de prontidão para o trabalho (v. 37; 17,8) ou para o caminho, como parece evocar a referência às lâmpadas acesas. De facto, foi essa a atitude dos hebreus quando, em Ex 12,11, se preparavam para celebrar a Páscoa.</ref> e as candeias acesas. <span style="color:red"><sup>36</sup></span>E vós, sede semelhantes a homens que estão à espera do seu senhor quando regressar das bodas, para que, quando vier e bater, imediatamente lhe abram a porta<ref name="ftn222">''A porta'' é acrescento da tradução.</ref>. <span style="color:red"><sup>37</sup></span>Felizes aqueles servos que o senhor, quando vier, encontrar vigilantes! Amen vos digo: há de cingir-se, recliná-los à mesa e, passando por eles, há de servi-los. <span style="color:red"><sup>38</sup></span>Se vier na segunda ou na terceira vigília da noite e assim os encontrar, felizes são eles!
<span style="color:red"><sup>39</sup></span>Compreendei isto: se o senhor da casa soubesse a hora a que viria o ladrão, não teria deixado que a sua casa fosse arrombada. <span style="color:red"><sup>40</sup></span>Estai também vós preparados, porque à hora em que menos pensais vem o Filho do Homem».
Parábola do servo fiel e do servo infiel (Mt 24,45-51; Mc 13,33-37) – <span style="color:red"><sup>41</sup></span>Disse Pedro: «Senhor, é para nós que dizes esta parábola ou também para todos?». <span style="color:red"><sup>42</sup></span>Disse o Senhor: «Quem é, portanto, o administrador fiel e prudente que o senhor colocará à frente dos seus servidores para dar, no tempo oportuno, a ração de trigo? <span style="color:red"><sup>43</sup></span>Feliz aquele servo que, quando vier o seu senhor, o encontrar a fazer assim. <span style="color:red"><sup>44</sup></span>Em verdade vos digo: colocá-lo-á à frente de todos os seus bens.
<span style="color:red"><sup>45</sup></span>Mas, se aquele servo disser no seu coração: "O meu senhor tarda em vir", e começar a bater nos servos e nas servas, a comer e beber e a embriagar-se, <span style="color:red"><sup>46</sup></span>virá o senhor daquele servo no dia em que menos espera e na hora que não conhece, há de cortá-lo ao meio<ref name="ftn223">Cf. Mt 24,51 nota.</ref> e dar-lhe-á a sorte dos descrentes<ref name="ftn224">Lit. ''colocará a parte dele com os infiéis''.</ref>. <span style="color:red"><sup>47</sup></span>Aquele servo que, conhecendo a vontade do seu senhor, não se preparou ou não fez segundo a sua vontade, levará muitas vergastadas. <span style="color:red"><sup>48</sup></span>Mas aquele que, não a conhecendo, tenha feito coisas merecedoras de chicote, levará poucas vergastadas. A todo aquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e a quem muito se confiou, mais lhe será pedido»<ref name="ftn225">Estes vv. concluem os anteriores e sublinham a responsabilidade dos chefes das Igrejas.</ref>.
Divisões por causa de Jesus (Mt 10,34-36) – <span style="color:red"><sup>49</sup></span>«Vim lançar fogo sobre a terra<ref name="ftn226">O fogo de que aqui se fala é certamente aquele que acompanha o julgamento divino nas descrições escatológicas (Is 66,15-16; Ez 38,22; 39,6; Ml 3,19; Jdt 16,17).</ref> e que desejo Eu, senão que já estivesse ateado! <span style="color:red"><sup>50</sup></span>Mas tenho um batismo para nele ser batizado<ref name="ftn227">Lit: ''tenho um batismo para ser batizado''.</ref> e como estou angustiado, até que se consume!
<span style="color:red"><sup>51</sup></span>Pensais que vim estabelecer paz na terra? Não, eu vos digo, mas a divisão. <span style="color:red"><sup>52</sup></span>De facto, a partir de agora estarão cinco divididos numa casa: três contra dois e dois contra três. <span style="color:red"><sup>53</sup></span>Estarão divididos pai contra filho e ''filho contra pai'', mãe contra a filha e ''filha contra a mãe'', sogra contra a sua nora e ''nora contra a sogra''»<ref name="ftn228">A divisão das famílias é, na tradição profética, um dos sinais do fim dos tempos (Mq 7,6; Ag 2,22; Ml 3,24).</ref>.
Discernimento dos sinais. Juízo e reconciliação (Mt 5,25s; 16,2s) – <span style="color:red"><sup>54</sup></span>Dizia também às multidões: «Quando vedes a nuvem que se levanta a poente, imediatamente dizeis: "Vem aí chuva", e assim acontece. <span style="color:red"><sup>55</sup></span>E quando sopra o vento sul, dizeis: "Vai estar um calor ardente", e assim acontece. <span style="color:red"><sup>56</sup></span>Hipócritas! Sabeis discernir o aspeto da terra e do céu; e este tempo, como não sabeis discerni-lo?
<span style="color:red"><sup>57</sup></span>Porque não julgais, também por vós próprios, o que é justo? <span style="color:red"><sup>58</sup></span>Assim, quando vais com o teu adversário ao magistrado, esforça-te por te pores de acordo com ele no caminho; não aconteça que ele te arraste até ao juiz, o juiz te entregue ao oficial de justiça, e o oficial de justiça te lance na prisão. <span style="color:red"><sup>59</sup></span>Digo-te: não sairás de lá, até que restituas a última moeda<ref name="ftn229">Em grego ''<nowiki>leptón [n</nowiki>ómisma], ''ou seja, ''moeda de menor valor''.</ref>».
13 Apelo à conversão – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>Nessa altura apareceram alguns que lhe traziam notícias sobre os galileus<ref name="ftn230">Jesus evoca uma intervenção sanguinária de Herodes, em Jerusalém, e uma catástrofe natural, a queda da torre de Siloé, para combater a ideia da retribuição, segundo a qual os acontecimentos eram um castigo, em virtude do pecado.</ref>, cujo sangue Pilatos misturara com os sacrifícios deles. <span style="color:red"><sup>2</sup></span>Ele, em resposta, disse-lhes:
«Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os galileus, porque sofreram tais coisas? <span style="color:red"><sup>3</sup></span>Não, digo-vos; mas, se não vos converterdes, perecereis todos de modo semelhante. <span style="color:red"><sup>4</sup></span>Ou aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre em Siloé e os matou: julgais que eles foram mais culpados do que todos os homens que habitavam em Jerusalém? <span style="color:red"><sup>5</sup></span>Não, digo-vos; mas se não vos converterdes, perecereis todos de modo semelhante».
Parábola da figueira – <span style="color:red"><sup>6</sup></span>Disse, então, esta parábola: «Alguém tinha uma figueira plantada na sua vinha e nela foi procurar fruto, mas não encontrou. <span style="color:red"><sup>7</sup></span>Disse ao vinhateiro: "Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira e não encontro. Portanto corta-a; para que há de ocupar inutilmente a terra?". <span style="color:red"><sup>8</sup></span>Ele, porém, respondendo disse-lhe: "Senhor, deixa-a ainda este ano. Entretanto, cavarei à volta dela e deitarei estrume. <span style="color:red"><sup>9</sup></span>Talvez venha a dar fruto no futuro; senão, cortá-la-ás"».
Cura de uma mulher ao sábado – <span style="color:red"><sup>10</sup></span>Estava Ele a ensinar, a um sábado, numa das sinagogas, <span style="color:red"><sup>11</sup></span>e eis que estava lá uma mulher que há dezoito anos tinha um espírito de enfermidade: estava encurvada e não se conseguia erguer totalmente. <span style="color:red"><sup>12</sup></span>Ao vê-la, Jesus chamou-a a si e disse-lhe: «Mulher, estás livre da tua enfermidade». <span style="color:red"><sup>13</sup></span>Impôs-lhe as mãos e, subitamente, ela endireitou-se e começou a glorificar Deus<ref name="ftn231">As curas ao sábado eram objeto de controvérsia entre Jesus e os fariseus (6,6-11; 14,1-4). A doença é atribuída à possessão de Satanás (vv. 11.16). Na sua casuística, os fariseus viam nas curas de Jesus uma atividade de médico, proibida ao sábado.</ref>.
<span style="color:red"><sup>14</sup></span>Mas, em resposta, o chefe da sinagoga, indignado por Jesus ter curado ao sábado, dizia à multidão: «Há seis dias em que se deve trabalhar; vinde ser curados nesses e não ao sábado». <span style="color:red"><sup>15</sup></span>Respondeu-lhe o Senhor e disse: «Hipócritas! Não solta cada um de vós, ao sábado, o seu boi ou jumento da manjedoura e o leva a beber? <span style="color:red"><sup>16</sup></span>Sendo esta mulher filha de Abraão, que Satanás aprisionou há dezoito anos, não era necessário ser liberta dessa prisão em dia de sábado?».
<span style="color:red"><sup>17</sup></span>Quando Ele disse isto, todos os que se lhe opunham ficaram envergonhados, enquanto toda a multidão se alegrava por todas as ações gloriosas realizadas por Ele.
Parábola do grão de mostarda (Mt 13,31s; Mc 4,30-32) – <span style="color:red"><sup>18</sup></span>Dizia-lhes: «A que é semelhante o reino de Deus, a que hei de compará-lo? <span style="color:red"><sup>19</sup></span>É semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e lançou no seu próprio jardim. Cresceu, tornou-se árvore e as aves do céu habitaram nos seus ramos».
Parábola do fermento (Mt 13,33) – <span style="color:red"><sup>20</sup></span>E disse de novo: «A que hei de comparar o reino de Deus? <span style="color:red"><sup>21</sup></span>É semelhante ao fermento<ref name="ftn232">Sobre o fermento, cf. Mt 13,33. Uma medida (em grego, ''sáton'') corresponde a c. 10 litros.</ref> que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até que tudo fermentasse»<ref name="ftn233">Com estas duas parábolas, Lc conclui a primeira secção da subida de Jesus para Jerusalém. Apenas nelas Lc refere explicitamente o reino de Deus (17,20-21; Mt 13,33; Mc 8,14-21).</ref>.
A porta estreita – <span style="color:red"><sup>22</sup></span>Atravessava, então, cidades e povoações a ensinar, continuando a viagem<ref name="ftn234">Esta referência à subida de Jesus para Jerusalém parece indicar uma nova secção (13,22 – 17,10). Os vv. 22-30 falam do ingresso no reino.</ref> para Jerusalém. <span style="color:red"><sup>23</sup></span>Alguém lhe disse: «Senhor, são poucos os que se salvam?». Ele disse-lhes: <span style="color:red"><sup>24</sup></span>«Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque, digo-vos, muitos procurarão entrar e não serão capazes. <span style="color:red"><sup>25</sup></span>A partir do momento em que o senhor da casa se levantar e fechar a porta, e vós começardes a ficar de fora e a bater à porta, dizendo: "Senhor, abre-nos", então, respondendo, ele vos dirá: "Não sei de onde vós sois". <span style="color:red"><sup>26</sup></span>Começareis, então, a dizer: "Comemos e bebemos na tua presença, e ensinaste nas nossas praças". <span style="color:red"><sup>27</sup></span>E ele dir-vos-á<ref name="ftn235">Lit: ''e dirá, dizendo a vós''.</ref>: "Não sei de onde vós sois. Afastai-vos de mim, todos os que praticais a injustiça". <span style="color:red"><sup>28</sup></span>Aí haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac e Jacob e todos os profetas no reino de Deus, mas vós a serdes lançados fora. <span style="color:red"><sup>29</sup></span>Virão do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e reclinar-se-ão à mesa no reino de Deus. <span style="color:red"><sup>30</sup></span>Eis que há últimos que serão primeiros, e há primeiros que serão últimos».
Aproximação da morte de Jesus em Jerusalém (Mt 23,37-39) – <span style="color:red"><sup>31</sup></span>Nessa hora foram ter com Ele alguns fariseus, dizendo-lhe: «Sai e vai-te daqui, porque Herodes quer matar-te». <span style="color:red"><sup>32</sup></span>Disse-lhes, então: «Ide dizer a essa raposa: eis que expulso demónios e realizo curas hoje e amanhã, porém ao terceiro dia chego à consumação. <span style="color:red"><sup>33</sup></span>No entanto, é necessário que hoje, amanhã e no dia seguinte eu vá, porque não é admissível que um profeta pereça fora de Jerusalém<ref name="ftn236">Jesus anuncia a sua morte em Jerusalém, como a dos profetas rejeitados por Israel (6,23; Os 6,1-3; Mt 16,21; Mc 8,31; Jo 2,19; At 10,40).</ref>.
<span style="color:red"><sup>34</sup></span>Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te têm sido enviados! Quantas vezes quis reunir os teus filhos, como uma galinha reúne os seus pintainhos debaixo das asas, e vós não quisestes! <span style="color:red"><sup>35</sup></span>Eis que ''a vossa casa vos é abandonada''<ref name="ftn237">Cf. Jr 12,7. Deus abandonará o seu Templo e deixá-lo-á arruinar-se (21,6), para permitir que caia o castigo sobre o seu povo, tal como frequentemente anunciam os Profetas (Mq 3,12; Jr 7,1-15; 26; Ez 8-11).</ref>. Digo-vos: jamais me vereis, até que digais ''Bendito o que vem em nome do Senhor!''»<ref name="ftn238">Frase do Sl 118,26 que será usada em 19,38, na entrada messiânica de Jesus em Jerusalém.</ref>.
14 Cura de um hidrópico ao sábado – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>E aconteceu que, tendo Ele entrado em casa de um dos chefes dos fariseus a um sábado para comer, eles estavam a observá-lo. <span style="color:red"><sup>2</sup></span>E eis que um homem que era hidrópico<ref name="ftn239">A hidropisia consiste na acumulação anormal de líquido nos tecidos ou em certas cavidades de um organismo.</ref> estava diante dele.
<span style="color:red"><sup>3</sup></span>Em resposta, Jesus disse aos entendidos na lei e aos fariseus: «É permitido ao sábado<ref name="ftn240">Sobre a cura em dia de sábado, cf. 6,7 e 13,16.</ref> curar ou não?». <span style="color:red"><sup>4</sup></span>Eles, porém, permaneceram calados. Tomando-o, então, curou-o e mandou-o embora. <span style="color:red"><sup>5</sup></span>E disse-lhes: «Quem de vós, se um filho ou um boi cair num poço, em dia de sábado, não o vai tirar imediatamente?». <span style="color:red"><sup>6</sup></span>Mas não foram capazes de replicar a nada disto.
Humildade e caridade – <span style="color:red"><sup>7</sup></span>Dizia, então, aos convidados uma parábola, ao notar como eles escolhiam os primeiros lugares<ref name="ftn241">Lit.: ''escolhiam os primeiros lugares, dizendo-lhes''.</ref>: <span style="color:red"><sup>8</sup></span>«Quando fores convidado por alguém para uma boda, não te reclines no primeiro lugar, não aconteça que alguém mais importante do que tu tenha sido convidado por ele, <span style="color:red"><sup>9</sup></span>e venha aquele que a ti e a ele convidou e te diga: "Dá o lugar a este". Passarias, então, a ocupar com vergonha o último lugar. <span style="color:red"><sup>10</sup></span>Mas, quando fores convidado, vai reclinar-te no último lugar, para que, quando vier aquele que te convidou, te diga: "Amigo, sobe mais um pouco". Tal será para ti um motivo de glória diante de todos os que estiverem reclinados à mesa contigo. <span style="color:red"><sup>11</sup></span>Porque todo o que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado»<ref name="ftn242">Esta máxima sapiencial inspira-se em Ez 21,31 e condena a orgulhosa segurança dos fariseus (16,15). Será retomada em 18,14.</ref>.
<span style="color:red"><sup>12</sup></span>Mas dizia também a quem o tinha convidado: «Quando deres um almoço ou uma ceia, não chames os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos, não aconteça que também eles te convidem e assim te retribuam. <span style="color:red"><sup>13</sup></span>Quando deres um banquete, convida os pobres<ref name="ftn243">O conselho de Jesus vai ao arrepio de todos os usos e costumes da época. Todos os infelizes aqui enumerados são categorias de pobres (cf. 6,20).</ref>, aleijados, coxos e cegos. <span style="color:red"><sup>14</sup></span>Serás feliz por não terem como retribuir-te, pois ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos».
Parábola do banquete (Mt 22,1-10) – <span style="color:red"><sup>15</sup></span>Ao ouvir isto, um dos que estavam reclinados à mesa com Ele disse-lhe: «Feliz o que comer pão<ref name="ftn244">Outros mss. apresentam ''comer refeição.''</ref> no reino de Deus». <span style="color:red"><sup>16</sup></span>Ele disse-lhe: «Um certo homem fez um grande banquete e convidou a muitos. <span style="color:red"><sup>17</sup></span>E enviou o seu servo à hora do banquete para dizer aos convidados: "Vinde, que já está pronto". <span style="color:red"><sup>18</sup></span>E um a um começaram todos a desculpar-se. O primeiro disse-lhe: "Comprei um campo e tenho necessidade de ir vê-lo; peço-te que me desculpes". <span style="color:red"><sup>19</sup></span>Outro disse: "Comprei cinco juntas de bois e vou experimentá-las; peço-te que me desculpes". <span style="color:red"><sup>20</sup></span>Outro disse: "Desposei uma mulher e, por isso, não posso ir".
<span style="color:red"><sup>21</sup></span>Ao regressar, o servo anunciou tudo isso ao seu senhor. Então o senhor da casa, irado, disse ao seu servo: "Sai depressa para as praças e ruas da cidade e traz para aqui os pobres, aleijados, cegos e coxos". <span style="color:red"><sup>22</sup></span>Disse o servo: "Senhor, fiz o que mandaste, e ainda há lugares". <span style="color:red"><sup>23</sup></span>Disse o senhor ao servo: "Sai pelos caminhos e veredas e força-os a entrar para que se encha a minha casa. <span style="color:red"><sup>24</sup></span>Pois digo-vos: nenhum daqueles homens que foram convidados provará do meu banquete"».
Exigências do discipulado (Mt 10,37-39) – <span style="color:red"><sup>25</sup></span>Acompanhavam-no numerosas multidões e Ele, voltando-se, disse-lhes: <span style="color:red"><sup>26</sup></span>«Se alguém vem a mim e não menospreza<ref name="ftn245">Lit.: ''odeia''. O grego ''miséō ''na mentalidade semita significa ''amar menos'' (Gn 29,31.33; Dt 21,15-16; Is 60,15; Ml 1,3; Lc 16,13). Esta é uma expressão própria de uma relação em que uma das partes é preterida face a outra, mas do mesmo modo amada e apreciada; com esta oposição o mundo semita compara duas realidades para dizer que uma é preferida, pelo que nesta expressão não existe um meio-termo quando o mundo semita pretende dizer a preferência.</ref> o próprio pai, a mãe, a esposa, os filhos, os irmãos, irmãs e até a própria vida, não pode ser meu discípulo. <span style="color:red"><sup>27</sup></span>Aquele que não carrega a própria cruz e vem atrás de mim, não pode ser meu discípulo. <span style="color:red"><sup>28</sup></span>Quem de vós, ao querer edificar uma torre, não se senta primeiro a calcular o custo, para ver se tem como a concluir? <span style="color:red"><sup>29</sup></span>Não aconteça que, tendo ele assentado o alicerce, e não sendo capaz de a terminar, todos os que estiverem a ver comecem a escarnecer dele, <span style="color:red"><sup>30</sup></span>dizendo: "Este homem começou a edificar e não foi capaz de terminar". <span style="color:red"><sup>31</sup></span>Ou qual é o rei que, ao partir para a guerra contra outro rei, não se senta primeiro a deliberar se é capaz de, com dez mil homens, se opor a outro que, com vinte mil, vem contra ele? <span style="color:red"><sup>32</sup></span>Se não, enquanto o outro ainda está longe, envia-lhe uma delegação a pedir-lhe as condições de paz. <span style="color:red"><sup>33</sup></span>Assim, todo aquele que de entre vós não renunciar a todos os seus bens não pode ser meu discípulo».
A força do sal (Mt 5,13; Mc 9,50) – <span style="color:red"><sup>34</sup></span>«O sal é bom, mas se também o sal se tornar insípido, com que há de ser temperado? <span style="color:red"><sup>35</sup></span>Não é bom nem para a terra nem para o estrume; lançam-no fora. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça».
15 Parábola da ovelha perdida (Mt 18,12-14) – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>Aproximavam-se dele todos os publicanos e os pecadores para o ouvir. <span style="color:red"><sup>2</sup></span>Então os fariseus e doutores da lei começaram a murmurar, dizendo: «Este acolhe pecadores e come com eles».
<span style="color:red"><sup>3</sup></span>Disse-lhes, então, esta parábola<ref name="ftn246">Lit.: ''disse-lhes esta parábola, dizendo''.</ref>: <span style="color:red"><sup>4</sup></span>«Quem de entre vós, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai à procura da perdida até a encontrar? <span style="color:red"><sup>5</sup></span>Ao encontrá-la, põe-na aos seus ombros e alegra-se; <span style="color:red"><sup>6</sup></span>ao ir para casa, convoca os amigos e os vizinhos, dizendo-lhes: "Alegrai-vos comigo<ref name="ftn247">O convite a partilhar a alegria que, ao longo deste cap., encontramos nos vv. 9.23-24.32 prepara, em Lc, a resposta final de Jesus às murmurações dos fariseus (vv. 7.10).</ref>, porque encontrei a minha ovelha perdida". <span style="color:red"><sup>7</sup></span>Digo-vos que assim haverá mais alegria no céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não têm necessidade de conversão»<ref name="ftn248">A imagem do pastor e do seu rebanho é um tema clássico do AT para falar da relação de Deus com o seu povo. A imagem da busca e encontro da ovelha perdida é uma figura tradicional de salvação.</ref>.
Parábola da dracma perdida – <span style="color:red"><sup>8</sup></span>«Ou qual a mulher que, tendo dez dracmas<ref name="ftn249">A dracma é uma moeda grega, de 6 gramas, que equivale ao ''beqá''', meio siclo hebraico e meio denário romano.</ref>, se perder uma delas, não acende uma candeia, varre a casa e procura com cuidado até a encontrar? <span style="color:red"><sup>9</sup></span>Ao encontrá-la, convoca as amigas e vizinhas, dizendo: "Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma que tinha perdido". <span style="color:red"><sup>10</sup></span>Assim vos digo que há alegria diante dos anjos de Deus por um só pecador que se converte».
Parábola do pai misericordioso – <span style="color:red"><sup>11</sup></span>Disse ainda: «Um homem tinha dois filhos. <span style="color:red"><sup>12</sup></span>O mais novo deles disse ao pai: "Pai, dá-me a parte dos bens que me toca". O pai repartiu os bens entre eles. <span style="color:red"><sup>13</sup></span>Não muitos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma região distante e aí esbanjou os seus bens, vivendo dissolutamente. <span style="color:red"><sup>14</sup></span>Depois de ele gastar tudo, surgiu uma grande fome naquela região, e ele começou a passar privações.
<span style="color:red"><sup>15</sup></span>Uniu-se, então, a um dos cidadãos daquela região, que o mandou para os seus campos guardar porcos<ref name="ftn250">Guardar porcos é, para um hebreu, o cúmulo da degradação, dado que o porco é considerado um animal impuro (Dt 14,8).</ref>. <span style="color:red"><sup>16</sup></span>Desejava saciar-se com as bolotas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava.
<span style="color:red"><sup>17</sup></span>Então, caindo em si, disse: "Quantos assalariados de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui morro de fome! <span style="color:red"><sup>18</sup></span>Vou levantar-me, ter com meu pai e dizer-lhe: 'Pai, pequei contra o céu e para contigo; <span style="color:red"><sup>19</sup></span>não mais sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus assalariados'". <span style="color:red"><sup>20</sup></span>E levantando-se foi ter com o seu pai.
Ainda ele estava longe, quando o seu pai o viu e se compadeceu profundamente; correndo, então, lançou-se-lhe ao pescoço e beijou-o repetidamente. <span style="color:red"><sup>21</sup></span>Disse-lhe o filho: "Pai, pequei contra o céu e para contigo; não mais sou digno de ser chamado teu filho".
<span style="color:red"><sup>22</sup></span>O pai, porém, disse aos seus servos: "Trazei depressa a melhor veste<ref name="ftn251">Lit.: ''a primeira túnica''.</ref> e vesti-lha, dai-lhe um anel para a sua mão e sandálias<ref name="ftn252">O anel é sinal da aliança refeita e da autoridade recuperada (Gn 41,42; Est 3,10; 8,2), e as sandálias indicam a liberdade recuperada.</ref> para os pés; <span style="color:red"><sup>23</sup></span>trazei o vitelo gordo, matai-o e festejemos comendo, <spanstyle="color:red"><sup>24</sup></span>porque o meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado". E começaram a festejar.
<span style="color:red"><sup>25</sup></span>Ora, o seu filho mais velho estava no campo<ref name="ftn253">O comportamento e a linguagem do filho mais velho espelham o dos fariseus e doutores da lei (v. 2).</ref>. Quando voltou e se aproximou da casa, ouviu músicas e danças, <span style="color:red"><sup>26</sup></span>chamou um dos servos e procurou saber o que era aquilo. <span style="color:red"><sup>27</sup></span>Ele disse-lhe: "O teu irmão voltou, e o teu pai matou o vitelo gordo, porque o recebeu de volta são e salvo". <span style="color:red"><sup>28</sup></span>Ficou irado e não queria entrar, mas o seu pai saiu para lhe suplicar. <span style="color:red"><sup>29</sup></span>Em resposta, disse ao seu pai: "Eis que há tantos anos te sirvo, nunca transgredi uma ordem tua e nunca me deste um cabrito para eu festejar com os meus amigos. <span style="color:red"><sup>30</sup></span>Mas, quando veio esse teu filho, que devorou os teus bens com prostitutas, mataste-lhe o vitelo gordo". <span style="color:red"><sup>31</sup></span>Ele disse-lhe: "Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu; <span style="color:red"><sup>32</sup></span>mas era necessário festejar e alegrarmo-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado"».
16 Parábola do administrador infiel – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>Dizia ainda aos discípulos: «Havia um homem rico que tinha um administrador, e este foi-lhe denunciado por esbanjar os seus bens. <span style="color:red"><sup>2</sup></span>Então, chamando-o, disse-lhe: "Que é isto que ouço acerca de ti? Presta contas da tua administração, pois não podes continuar a administrar". <span style="color:red"><sup>3</sup></span>Disse, então, o administrador para consigo: "Que hei de fazer, dado que o meu senhor me tira a administração? De cavar, não sou capaz; de mendigar, tenho vergonha. <span style="color:red"><sup>4</sup></span>Já sei o que hei de fazer, para que, quando for removido da administração, haja quem me acolha em sua casa". <span style="color:red"><sup>5</sup></span>Chamando a si cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: "Quanto deves ao meu senhor?". <span style="color:red"><sup>6</sup></span>Ele disse: "Cem medidas<ref name="ftn254">Lit.: ''bátos'' (talha), uma medida que corresponde a 30 litros.</ref> de azeite". Ele, porém, disse-lhe: "Toma os documentos, senta-te depressa e escreve cinquenta". <span style="color:red"><sup>7</sup></span>Disse depois a outro: "E tu, quanto deves?". Ele disse: "Cem medidas<ref name="ftn255">Lit.: ''kóros'', uma medida que corresponde a 300 litros.</ref> de trigo". Disse-lhe: "Toma os documentos e escreve oitenta".
<span style="color:red"><sup>8</sup></span>E o senhor elogiou o administrador injusto<ref name="ftn256">Lit.: ''administrador da injustiça''. </ref> por ter agido com esperteza<ref name="ftn257">A palavra grega aqui usada, ''phronímōs'', indica, na versão dos LXX, todo o modo de arranjar-se, honesta ou desonestamente (Gn 3,1).</ref>. De facto, os filhos deste mundo são mais espertos para com a sua geração do que os filhos da luz».
Servir a Deus ou ao dinheiro (Mt 6,24) – <span style="color:red"><sup>9</sup></span>«Também Eu vos digo: fazei para vós amigos com as riquezas injustas, para que, quando faltar, vos acolham nas tendas eternas. <span style="color:red"><sup>10</sup></span>Quem é fiel no pouco também é fiel no muito, e quem é injusto no pouco também é injusto no muito. <span style="color:red"><sup>11</sup></span>Se, portanto, não fostes fiéis com as riquezas injustas, quem vos confiará o que é verdadeiro? <span style="color:red"><sup>12</sup></span>E se, naquilo que é de outro, não fostes fiéis, quem vos dará aquilo que é vosso? <spanstyle="color:red"><sup>13</sup></span>Nenhum escravo<ref name="ftn258">Lit.: ''(escravo)'' ''doméstico,'' sujeito a intercâmbios entre patrões.</ref> pode servir a dois senhores, pois ou odiará um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas».
A reação dos fariseus. Questão do divórcio (Mt 5,32; 19,9; Mc 10,11) – <span style="color:red"><sup>14</sup></span>Os fariseus, que eram amigos do dinheiro, ouviam tudo isto e troçavam dele. <span style="color:red"><sup>15</sup></span>Disse-lhes, então: «Vós sois os que se têm a si mesmos por justos diante dos homens; mas Deus conhece os vossos corações, pois o que entre os homens é exaltado é abominável diante de Deus. <span style="color:red"><sup>16</sup></span>A Lei e os Profetas chegaram até João. Desde então, o reino de Deus é anunciado como boa nova e todos se esforçam para nele entrar. <span style="color:red"><sup>17</sup></span>Mas é mais fácil passar o céu e a terra que cair um só traço de uma letra da Lei. <span style="color:red"><sup>18</sup></span>Todo aquele que repudia a sua mulher e casa com outra comete adultério<ref name="ftn259">A proibição do repúdio é uma das mais claras ruturas de Jesus com a Lei de Moisés (Dt 24,1).</ref><nowiki>; e quem casa com uma repudiada pelo marido comete adultério».</nowiki>
Parábola do homem rico e do pobre Lázaro – <span style="color:red"><sup>19</sup></span>«Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino, banqueteando-se dia após dia esplendidamente. <span style="color:red"><sup>20</sup></span>Um pobre, de nome Lázaro<ref name="ftn260">É o único caso em que um personagem de uma parábola possui nome. Lázaro significa ''Deus ajuda''. Muitos identificaram este personagem com o Lázaro de Jo 11, mas este não era pobre.</ref>, jazia ao seu portão, coberto de chagas, <span style="color:red"><sup>21</sup></span>desejando saciar-se do que caía da mesa do rico, mas até os cães<ref name="ftn261">A Escritura considera os cães animais repugnantes e maus (Sl 22,17.21; Pr 26,11; Mt 7,6).</ref> vinham lamber-lhe as chagas. <span style="color:red"><sup>22</sup></span>Ora, aconteceu que o pobre morreu e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão<ref name="ftn262">O ''seio de Abraão'' era o lugar de honra do banquete presidido por Abraão. A mesma expressão encontra-se em Jo 13,23.</ref>. Morreu também o rico e foi sepultado.
<span style="color:red"><sup>23</sup></span>Então no inferno<ref name="ftn263">Lit.: ''Hades'', o inferno na mitologia grega.</ref>, estando em tormentos, ao levantar os olhos viu Abraão de longe e Lázaro no seu seio. <span style="color:red"><sup>24</sup></span>E ele, gritando, disse: "Pai Abraão, tem misericórdia de mim e envia Lázaro para que molhe a ponta do seu dedo em água e me refresque a língua, porque estou atormentado nestas chamas". <span style="color:red"><sup>25</sup></span>Disse Abraão: "Filho, recorda-te que recebeste os teus bens durante a tua vida e, de igual modo, Lázaro os males. Agora, é aqui consolado enquanto tu és atormentado. <span style="color:red"><sup>26</sup></span>Além de tudo isso, um grande abismo foi fixado entre vós e nós, de modo que os que querem passar daqui para vós não podem, nem os daí podem atravessar até nós".
<span style="color:red"><sup>27</sup></span>Mas ele disse: "Peço-te, então, pai, que o envies à casa do meu pai, <span style="color:red"><sup>28</sup></span>pois tenho cinco irmãos, a fim de os advertir, para que não venham também eles para este lugar de tormento". <span style="color:red"><sup>29</sup></span>Disse Abraão. "Têm Moisés e os Profetas. Que os ouçam!" <span style="color:red"><sup>30</sup></span>Mas ele disse: "Não, pai Abraão; se alguém de entre os mortos for ter com eles, hão de converter-se". <span style="color:red"><sup>31</sup></span>Disse-lhe, então: "Se não ouvem Moisés e os Profetas, também não se convencerão se alguém ressuscitar dos mortos"».
17 Escândalo e perdão (Mt 18,6s; Mc 9,42) – <span style="color:red"><sup>1</sup></span> </nowiki>Disse, então, aos seus discípulos: «É impossível que não venham os escândalos<ref name="ftn264">Sobre os escândalos, cf. Mt 5,29.</ref>, mas ai daquele por meio do qual eles vêm: <span style="color:red"><sup>2</sup></span>ganharia mais se lhe atassem uma pedra de moinho à volta do pescoço e o lançassem ao mar do que ser motivo de escândalo para um destes pequeninos. <span style="color:red"><sup>3</sup></span>Tende cuidado convosco! Se o teu irmão pecar, repreende-o severamente; e, se ele se arrepender, perdoa-lhe. <span style="color:red"><sup>4</sup></span>E, se pecar contra ti sete vezes ao dia e sete vezes voltar para te dizer "estou arrependido", perdoar-lhe-ás».
Fé e serviço (Mt 17,20; 21,21; Mc 11,22s) – <span style="color:red"><sup>5</sup></span>Disseram, então, os apóstolos ao Senhor: «Aumenta-nos a fé<ref name="ftn265">Ou ''desperta-nos a fé''.</ref>». <span style="color:red"><sup>6</sup></span>Disse o Senhor: «Se tivésseis fé<ref name="ftn266">Lit.: ''se tendes fé''.</ref> do tamanho de um grão de mostarda<ref name="ftn267">''Tamanho'' é acrescento da tradução. Sublinha-se ''grão de mostarda'' como a mais pequena de todas as sementes (Mt 13,32; Mc 4,31).</ref>, diríeis a esta amoreira<ref name="ftn268">O termo grego ''sykáminos'' significa, no AT, ''sicómoro''. No grego profano da época pode também traduzir-se por ''amoreira'', mas resulta menos expressivo o contraste com o grão de mostarda.</ref>: "Arranca-te e planta-te no mar", e ela vos obedeceria.
<span style="color:red"><sup>7</sup></span>Quem de entre vós, que tenha um servo a lavrar ou a apascentar, lhe dirá quando ele regressar do campo: "Vem imediatamente reclinar-te à mesa"? <span style="color:red"><sup>8</sup></span>Não lhe dirá antes: "Prepara-me algo para cear, cinge-te e serve-me enquanto como e bebo, e depois disto comerás e beberás tu"? <span style="color:red"><sup>9</sup></span>Terá de agradecer ao servo, porque fez o que foi ordenado? <span style="color:red"><sup>10</sup></span>Assim também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: "Somos servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer"».
Cura dos dez leprosos – <span style="color:red"><sup>11</sup></span>E aconteceu que, ao ir para Jerusalém, Ele atravessava a Samaria<ref name="ftn269"><nowiki>A referência ao caminhar de Jesus abre uma nova secção no seu caminho para Jerusalém (9,51 – 19,27 [28]), como já tinha acontecido em 9,51 e 13,22. Apesar de a Samaria e a Galileia serem regiões limítrofes, esperava-se que se referisse primeiro a Galileia e depois a Samaria.</nowiki></ref> e a Galileia. <span style="color:red"><sup>12</sup></span>E, tendo Ele entrado numa povoação, vieram-lhe ao encontro dez leprosos<ref name="ftn270">Deviam os leprosos permanecer distantes, a fim de não contaminar ninguém (Lv 13,46).</ref>, que ficaram à distância. <span style="color:red"><sup>13</sup></span>Eles levantaram a voz, dizendo: «Jesus, Mestre<ref name="ftn271">Este é o único caso em que o termo ''epistátēs ''(''mestre''), frequente em Lc, é pronunciado por alguém que não é discípulo.</ref>, tem misericórdia de nós!». <span style="color:red"><sup>14</sup></span>Ao vê-los, disse-lhes: «Ide mostrar-vos aos sacerdotes»<ref name="ftn272">Sobre o dever de os leprosos, uma vez curados, se apresentarem ao sacerdote, cf. 5,14; Lv 13,49; 14,2-32.</ref>. E aconteceu que, enquanto eles iam, ficaram purificados.
<span style="color:red"><sup>15</sup></span>Mas um deles, ao ver que fora curado, voltou glorificando Deus com voz forte, <span style="color:red"><sup>16</sup></span>e caiu com o rosto por terra a seus pés, dando-lhe graças. Era um samaritano. <span style="color:red"><sup>17</sup></span>Em resposta, Jesus disse: «Não foram os dez purificados? Onde estão os outros nove? <span style="color:red"><sup>18</sup></span>Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?». <span style="color:red"><sup>19</sup></span>Disse-lhe, então: «Levanta-te e vai; a tua fé te salvou».
A vinda do reino de Deus e o dia do Filho do Homem – <span style="color:red"><sup>20</sup></span>Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus<ref name="ftn273">A data ou o momento da vinda do reino de Deus é a grande questão para os judeus (Dn 9,2). Os rabinos e os textos apocalípticos procuravam sinais que permitissem identificá-la. </ref>, Ele, respondendo, disse-lhes: «O reino de Deus não vem de forma observável<ref name="ftn274">Lit.: ''com observação''.</ref>, <span style="color:red"><sup>21</sup></span>nem dirão: "Ei-lo aqui" ou "Ei-lo ali"; de facto, eis que o reino de Deus está entre vós».
<span style="color:red"><sup>22</sup></span>Disse, então, aos discípulos: «Dias virão em que desejareis ver um dos dias do Filho do Homem e não vereis. <span style="color:red"><sup>23</sup></span>E dir-vos-ão: "Ei-lo ali" ou "Ei-lo aqui"; não vades nem os sigais. <span style="color:red"><sup>24</sup></span>Pois assim como o relâmpago, quando resplandece, brilha de uma extremidade à outra do céu<ref name="ftn275">Lit.: ''de sob o céu a sob o céu'', segundo a ideia empírica da época de que o céu pousa numa e noutra das extremidades visíveis da terra.</ref>, assim será o Filho do Homem no seu dia. <span style="color:red"><sup>25</sup></span>Mas primeiro é necessário que Ele sofra muito e seja rejeitado por esta geração.
<span style="color:red"><sup>26</sup></span>E tal como aconteceu nos dias de Noé, assim será também nos dias do Filho do Homem: <span style="color:red"><sup>27</sup></span>comiam, bebiam, casavam, davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio que a todos destruiu. <span style="color:red"><sup>28</sup></span>O mesmo aconteceu nos dias de Lot: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam, edificavam. <span style="color:red"><sup>29</sup></span>Mas, no dia em que Lot saiu de Sodoma, choveu fogo e enxofre do céu que a todos destruiu.
<span style="color:red"><sup>30</sup></span>Assim será no dia em que o Filho do Homem se revelar. <span style="color:red"><sup>31</sup></span>Naquele dia, aquele que estiver no terraço e tiver os seus utensílios em casa não desça para os apanhar e, do mesmo modo, quem estiver no campo não volte atrás<ref name="ftn276">Estas advertências sublinham o caráter terrível e inevitável desse dia (Jr 4,6; 6,1; 48,6; 49,8.30; 51,6).</ref>. <span style="color:red"><sup>32</sup></span>Recordai-vos da mulher de Lot.
<span style="color:red"><sup>33</sup></span>Aquele que procurar preservar a sua vida<ref name="ftn277">A maior parte das traduções usa o verbo ''salvar'', mas Lc emprega um termo do grego do AT que significa ''manter'' ou ''conservar'' (Js 6,17; Sl 79,11; Ez 13,18-19). </ref> há de perdê-la, e aquele que a perder há de conservá-la<ref name="ftn278">O verbo grego ''zōogoneō ''tem, nos LXX, o significado de ''garantir'' ou ''conservar'', mas, no grego profano, significa ''gerar a vida''.</ref>. <span style="color:red"><sup>34</sup></span>Digo-vos que nessa noite estarão dois num leito: um será levado<ref name="ftn279">Não para ser eliminado, mas para entrar no reino de Deus.</ref> e o outro deixado; <span style="color:red"><sup>35</sup></span>estarão duas a moer, no mesmo lugar: uma será levada e a outra deixada»<ref name="ftn280">Alguns mss. acrescentam aqui um v. com o seguinte texto: ''estarão dois num campo: um será levado e o outro deixado''.</ref>. <span style="color:red"><sup>37</sup></span>Em resposta, disseram-lhe: «Onde será isso, Senhor?»<ref name="ftn281">A questão do lugar (''Onde será isso, Senhor?'') corresponde à da data (v. 20) e deixa transparecer a ideia de um reino de Deus muito à medida humana, localizado no tempo e no espaço.</ref>. Ele disse-lhes: «Onde estiver o corpo, aí se reunirão os abutres<ref name="ftn282">Os ''abutres'' são referidos regularmente nos textos do juízo final, no AT (Js 18,6; 34,15-16; Jr 7,33; 12,9; 15,3; Ez 29,17). Esta imagem sugere que ninguém escapará ao juízo.</ref>».
18 Parábola do juiz e da viúva – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>Dizia-lhes<ref name="ftn283">Lit.: ''dizia-lhes'' ... (v. 4) ''dizendo''.</ref>, então, uma parábola<ref name="ftn284">Conhecida como parábola do ''juiz iníquo'' (vv. 2-5), articula-se bem com a do ''amigo importuno'' (11,5-8), por apresentarem como tema comum a persistência na oração. Orientam nesse sentido as duas expressões paulinas: ''rezar sempre'' (Rm 1,10; Fl 1,4; Cl 1,3; 2Ts 1,11) e ''sem desanimar'' (2Cor 4,1.16; Gl 6,9; Ef 3,13; 2Ts 3,13). Depois do discurso anterior e tendo em conta os vv. 6-8, não será desajustado concluir que Lc centra a oração na vinda escatológica de Jesus (20,36).</ref> acerca da necessidade de eles rezarem sempre, sem desanimar: <span style="color:red"><sup>2</sup></span>«Havia numa certa cidade um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens. <span style="color:red"><sup>3</sup></span>Havia também, naquela cidade, uma viúva que ia ter com ele, dizendo: "Faz-me justiça contra o meu adversário". <span style="color:red"><sup>4</sup></span>Por algum tempo ele não quis, mas depois disse para consigo: "Embora eu não tema a Deus nem respeite os homens, <span style="color:red"><sup>5</sup></span>porque esta viúva me importuna, far-lhe-ei justiça para que não venha continuamente azucrinar-me<ref name="ftn285">Lit.: ''golpear-me debaixo dos olhos'' (''hypōpiázō'').</ref>"».
<span style="color:red"><sup>6</sup></span>Disse o Senhor: «Ouvi o que diz o juiz injusto. <span style="color:red"><sup>7</sup></span>E não fará Deus justiça aos seus eleitos que por Ele clamam dia e noite? Vai fazê-los esperar? <span style="color:red"><sup>8</sup></span>Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Contudo, quando o Filho do Homem vier, encontrará porventura a fé sobre a terra?».
Parábola do fariseu e do publicano – <span style="color:red"><sup>9</sup></span>Disse também esta parábola para alguns que estavam convencidos de que eram justos, desprezando os demais: <span style="color:red"><sup>10</sup></span>«Dois homens subiram ao templo para rezar; um era fariseu e o outro publicano. <span style="color:red"><sup>11</sup></span>O fariseu, em pé, rezava para consigo: "Ó Deus, dou-te graças porque não sou como os demais homens, que são ladrões, injustos, adúlteros, nem como este publicano. <span style="color:red"><sup>12</sup></span>Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo o que adquiro".
<span style="color:red"><sup>13</sup></span>O publicano, porém, mantendo-se longe, nem os olhos queria levantar ao céu, mas batia no seu peito, dizendo: "Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador". <span style="color:red"><sup>14</sup></span>Digo-vos: este desceu justificado para sua casa, ao contrário do outro. Porque todo o que se exalta será humilhado, mas o que se humilha será exaltado».
Jesus e as crianças (Mt 19,13-15; Mc 10,13-16) – <span style="color:red"><sup>15</sup></span>Traziam-lhe também as criancinhas para que lhes tocasse, mas, ao ver isto, os discípulos repreendiam-nas severamente. <span style="color:red"><sup>16</sup></span>Jesus, porém, chamou-as a si, dizendo: «Deixai as crianças vir a mim, não as impeçais, pois dos que são como elas é o reino de Deus. <span style="color:red"><sup>17</sup></span>Amen vos digo: aquele que não acolher o reino de Deus como uma criança, jamais nele entrará».
O homem rico (Mt 19,18-30; Mc 10,17-22) – <span style="color:red"><sup>18</sup></span>Então um dos chefes interrogou-o, dizendo: «Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?». <span style="color:red"><sup>19</sup></span>Disse-lhe Jesus: «Porque me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus. <span style="color:red"><sup>20</sup></span>Sabes os mandamentos: ''Não cometas adultério, não mates, não roubes, não levantes falso testemunho, honra o teu pai e a tua mãe''»''.''
<span style="color:red"><sup>21</sup></span>Ele disse: «Tudo isso tenho observado desde a juventude». <span style="color:red"><sup>22</sup></span>Ao ouvir isto, Jesus disse-lhe: «Resta-te ainda uma coisa: vende tudo o que tens, distribui pelos pobres e terás um tesouro nos céus. Então vem e segue-me». <spanstyle="color:red"><sup>23</sup></span>Ao ouvir isto ficou muito triste, porque era muito rico.
Os ricos e o reino de Deus (Mt 19,23-26; Mc 10,23-27) – <span style="color:red"><sup>24</sup></span>Jesus, ao vê-lo ficar muito triste, disse: «Como é difícil aos que têm riquezas entrar no reino de Deus! <span style="color:red"><sup>25</sup></span>De facto, é mais fácil entrar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus». <span style="color:red"><sup>26</sup></span>Os que ouviram disseram: «Quem pode, então, ser salvo?». <span style="color:red"><sup>27</sup></span>Mas Ele disse: «O que é impossível aos homens é possível a Deus».
Recompensa pelo desprendimento (Mt 19,27-30; Mc 10,28-31) – <span style="color:red"><sup>28</sup></span>Disse-lhe Pedro: «Eis que nós deixámos as nossas coisas e te seguimos!». <span style="color:red"><sup>29</sup></span>Ele disse-lhes: «Amen vos digo: não há ninguém que tenha deixado casa, ou mulher<ref name="ftn286">Lc é o único evangelista a referir a renúncia à mulher, neste contexto. O objetivo é sublinhar que nada nem ninguém deve interferir na prioridade do amor a Deus (14,26; 1Cor 7,25-28).</ref>, ou irmãos, ou pais ou filhos por causa do reino de Deus <span style="color:red"><sup>30</sup></span>que não receba muito mais neste tempo e, no tempo que há de vir, a vida eterna».
Terceiro anúncio da paixão e ressurreição (Mt 20,17-19; Mc 10,32-34) – <span style="color:red"><sup>31</sup></span>Tomando consigo os Doze, disse-lhes: «Eis que subimos para Jerusalém, e vai consumar-se tudo o que foi escrito por meio dos Profetas acerca do Filho do Homem, <span style="color:red"><sup>32</sup></span>pois será entregue aos pagãos, escarnecido, injuriado e cuspido. <span style="color:red"><sup>33</sup></span>Depois de o chicotearem, matá-lo-ão, e ao terceiro dia ressuscitará».
<span style="color:red"><sup>34</sup></span>Mas eles nada disto entenderam: estas palavras estavam-lhes escondidas e não percebiam o que estava a ser dito.
Cura do cego de Jericó (Mt 20,29-34; Mc 10,46-52) – <span style="color:red"><sup>35</sup></span>Ora aconteceu que, quando Ele se aproximava de Jericó, estava um cego sentado junto ao caminho a mendigar. <span style="color:red"><sup>36</sup></span>Ao ouvir a multidão a passar, procurou saber o que seria. <span style="color:red"><sup>37</sup></span>Anunciaram-lhe: «É Jesus o Nazareno<ref name="ftn287">Lc prefere a forma semítica ''Nazōraîos'', rara nos Sinópticos (Mt 2,23; 26,71), mas que aparece oito vezes nos Atos.</ref> que está a passar». <span style="color:red"><sup>38</sup></span>Então clamou, dizendo: «Jesus, filho de David, tem misericórdia de mim!». <span style="color:red"><sup>39</sup></span>Os que iam à frente repreendiam-no severamente para que se calasse, mas ele gritava ainda mais: «Filho de David, tem misericórdia de mim!».
<span style="color:red"><sup>40</sup></span>Então, parando, Jesus ordenou que lho trouxessem. E, quando ele se aproximou, interrogou-o: <span style="color:red"><sup>41</sup></span>«Que queres que te faça?». Ele disse: «Senhor, que eu volte a ver!». <span style="color:red"><sup>42</sup></span>Jesus disse-lhe: «Volta a ver, a tua fé te salvou». <span style="color:red"><sup>43</sup></span>Subitamente, ele voltou a ver e seguia-o, glorificando Deus. Todo o povo, ao ver isto, deu louvor a Deus.
19 Conversão de Zaqueu – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>Tendo entrado em Jericó, Ele atravessava a cidade<ref name="ftn288">''Cidade'' é acrescento da tradução.</ref>. <span style="color:red"><sup>2</sup></span>E eis que um homem chamado Zaqueu<ref name="ftn289">Lit.: ''chamado com o nome Zaqueu''.</ref>, que era chefe de publicanos e rico, <span style="color:red"><sup>3</sup></span>procurava ver quem era Jesus; mas não podia por causa da multidão, porque era de pequena estatura. <span style="color:red"><sup>4</sup></span>Correndo mais à frente, subiu a um sicómoro para o ver, porque Ele estava prestes a passar por ali. <span style="color:red"><sup>5</sup></span>Quando chegou ao lugar, Jesus, olhando para cima, disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, pois hoje é necessário que fique em tua casa». <span style="color:red"><sup>6</sup></span>Ele desceu depressa e acolheu-o com alegria. <span style="color:red"><sup>7</sup></span>Ao ver isto, todos murmuravam, dizendo: «Entrou para se hospedar junto de um homem pecador»<ref name="ftn290">Na mentalidade judaica, frequentar a casa de um pecador era contrair impureza (5,30; 7,34; 15,2).</ref>.
<span style="color:red"><sup>8</sup></span>Mas, de pé, Zaqueu disse ao Senhor: «Eis, Senhor, que vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se defraudei alguém nalguma coisa, restituirei quatro vezes mais». <span style="color:red"><sup>9</sup></span>Disse-lhe Jesus: «Hoje a salvação veio a esta casa, uma vez que também ele é filho de Abraão. <span style="color:red"><sup>10</sup></span>Pois o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido».
Parábola das minas (Mt 25,14-30) – <span style="color:red"><sup>11</sup></span>Estando eles a ouvir estas coisas, Ele, prosseguindo, disse uma parábola, por estar perto de Jerusalém e por eles pensarem que o reino de Deus estava prestes<ref name="ftn291">Lit.: ''subitamente prestes a manifestar-se''. Como todos os judeus, os discípulos esperavam que o reino de Deus viesse de um momento para o outro (Mc 10,37; At 1,6). Esta parábola é uma advertência contra a impaciência e lembra aos discípulos que há muito a fazer antes da vinda do seu Senhor.</ref> a manifestar-se. <span style="color:red"><sup>12</sup></span>Disse, então:
«Um homem bem-nascido partiu para uma região distante, para tomar posse de um reino e depois voltar. <span style="color:red"><sup>13</sup></span>Chamando dez servos seus, deu-lhes dez minas<ref name="ftn292">A mina é um peso semita, da ordem dos 600 gramas, equivalente a 100 dracmas e a 50 siclos.</ref> e disse-lhes: "Fazei-as render até que eu venha". <span style="color:red"><sup>14</sup></span>Os seus conterrâneos, porém, odiavam-no e enviaram atrás dele uma embaixada, dizendo: "Não queremos que ele reine sobre nós".
<span style="color:red"><sup>15</sup></span>E aconteceu que, quando regressou, depois de ter tomado posse do reino, mandou chamar a si os servos a quem dera o dinheiro, para saber o que tinham lucrado. <span style="color:red"><sup>16</sup></span>Apresentou-se o primeiro e disse: "Senhor, a tua mina rendeu dez minas". <span style="color:red"><sup>17</sup></span>Ele disse-lhe: "Muito bem, servo bom, porque foste fiel no mínimo, terás autoridade sobre dez cidades". <span style="color:red"><sup>18</sup></span>Veio o segundo e disse: "A tua mina, Senhor, deu cinco minas". <span style="color:red"><sup>19</sup></span>Disse também a este: "Fica também tu à frente de cinco cidades". <span style="color:red"><sup>20</sup></span>Veio o outro e disse: "Senhor, eis a tua mina que eu tinha guardada num lenço, <span style="color:red"><sup>21</sup></span>pois tinha medo de ti, porque és um homem austero; tiras o que não puseste e ceifas o que não semeaste". <span style="color:red"><sup>22</sup></span>Disse-lhe: "Pela tua boca te julgo, servo mau! Sabias que eu sou um homem austero, tiro o que não pus e ceifo o que não semeei? <span style="color:red"><sup>23</sup></span>Então por que razão não entregaste o meu dinheiro ao banco? E eu, ao voltar, tê-lo-ia reclamado com juros". <span style="color:red"><sup>24</sup></span>E disse aos que estavam presentes: "Tirai-lhe a mina e dai-a ao que tem as dez minas". <span style="color:red"><sup>25</sup></span>Mas disseram-lhe: "Senhor, ele tem dez minas".
<span style="color:red"><sup>26</sup></span>Digo-vos: a todo o que tem será dado e ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. <span style="color:red"><sup>27</sup></span>Quanto a estes meus inimigos que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e trucidai-os diante de mim». <span style="color:red"><sup>28</sup></span>E, dito isto, seguiu adiante, subindo para Jerusalém.
<center>V</center>
<center>A REALIZAÇÃO SALVÍFICA </center>
<center>EM JERUSALÉM </center>
<center>(19,29-24,53)</center>
Entrada messiânica em Jerusalém (cf. Mt 21,1-9; Mc 11,1-10; Jo 12,12-19) – <span style="color:red"><sup>29</sup></span>E aconteceu que, quando se aproximaram de Betfagé<ref name="ftn293">Betfagé era uma pequena povoação próxima de Jerusalém, sobre o Monte das Oliveiras. É também referida em Mc 11,1.</ref> e Betânia, junto ao monte, chamado das Oliveiras, enviou dois dos discípulos, <span style="color:red"><sup>30</sup></span>dizendo: «Ide à povoação em frente. Quando nela entrardes, encontrareis um jumentinho preso, no qual nunca ninguém se sentou. Depois de o soltar, trazei-o. <span style="color:red"><sup>31</sup></span>E se alguém vos perguntar: "Por que razão o soltais?", direis assim: "O Senhor tem necessidade dele"».
<span style="color:red"><sup>32</sup></span>Os que foram enviados partiram e encontraram tudo como lhes tinha dito. <span style="color:red"><sup>33</sup></span>Quando estavam a soltar o jumentinho, disseram-lhes os seus donos: «Porque soltais o jumentinho?». <span style="color:red"><sup>34</sup></span>Eles disseram: «O Senhor tem necessidade dele».
<span style="color:red"><sup>35</sup></span>Trouxeram-no, então, a Jesus e, lançando as suas capas sobre o jumentinho<ref name="ftn294">A forma como Lc escreve alude à consagração de Salomão (1Rs 1,33.38.40).</ref>, ajudaram Jesus a subir. <span style="color:red"><sup>36</sup></span>Enquanto Ele avançava, estendiam as suas capas no caminho. <span style="color:red"><sup>37</sup></span>Quando Ele já estava próximo da descida do Monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos, alegrando-se, começou a louvar Deus com voz forte por todas as ações poderosas que tinham visto, <span style="color:red"><sup>38</sup></span>dizendo:
«''Bendito o que vem, ''o rei,'' em nome do Senhor!''
Paz no céu e glória nas alturas!»<ref name="ftn295">Lc cita o Sl 118,25, mas evita a palavra hebraica ''Hossana'' e acrescenta a Jesus o título de rei (Jo 12,13). Esta aclamação evoca o canto dos anjos, aquando do nascimento de Jesus (2,14). Cf. Mc 11,9 nota.</ref>.
<span style="color:red"><sup>39</sup></span>Alguns fariseus de entre a multidão disseram-lhe: «Mestre, repreende severamente os teus discípulos». <span style="color:red"><sup>40</sup></span>Ele, em resposta, disse: «Digo-vos que, se estes se calarem, as pedras gritarão".
Lamentações sobre Jerusalém – <span style="color:red"><sup>41</sup></span>Quando se aproximou, ao ver a cidade, Jesus chorou sobre ela, <span style="color:red"><sup>42</sup></span>dizendo: «Se também tu tivesses reconhecido neste dia aquilo que te conduz à paz<ref name="ftn296">Este lamento de Jesus introduz o primeiro dos três anúncios da ruína da cidade (19,43-44; 21,20-24; 23,28-31). Lc confere grande importância a este juízo histórico que prefigura o juízo escatológico.</ref>! Mas agora está escondido dos teus olhos. <span style="color:red"><sup>43</sup></span>Porque dias virão sobre ti em que os teus inimigos te rodearão de trincheiras, te cercarão e te apertarão de todo o lado; <span style="color:red"><sup>44</sup></span>hão de aniquilar-te, e aos teus filhos contigo, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, dado que não reconheceste o tempo da tua visita»<ref name="ftn297">Lc fala do assédio romano a Jerusalém, no ano 70 d.C. (cf. 21,20-24). ''O tempo da tua visita'' é uma expressão que aponta para a visita de Deus à cidade, na pessoa de Jesus.</ref>.
Expulsão dos vendedores do templo (Mt 21,12s; Mc 11,15-18; Jo 2,13-16) – <span style="color:red"><sup>45</sup></span>Entrando, então, no templo, começou a expulsar os que vendiam, <span style="color:red"><sup>46</sup></span>dizendo-lhes: «Está escrito: ''A minha casa será casa de oração'', mas vós fizestes dela um ''antro de salteadores''»<ref name="ftn298">''Casa de oração'' evoca Is 56,7, ao passo que ''antro de salteadores'' evoca Jr 7,11. O templo nasceu como lugar de intercessão e de perdão (1Rs 8,30-40), mas já não cumpria a sua missão.</ref>.
<span style="color:red"><sup>47</sup></span>Estava todos os dias no templo a ensinar. Os chefes dos sacerdotes e os doutores da lei procuravam matá-lo, assim como os chefes do povo<ref name="ftn299">''Chefes do povo'' serão pessoas da aristocracia laica, membros do sinédrio, que Lc inclui entre os responsáveis pela morte de Jesus (23,13.35; 24,20).</ref>, <span style="color:red"><sup>48</sup></span>mas não encontravam modo de o fazer, pois todo o povo estava embevecido ao ouvi-lo<ref name="ftn300">Lc insiste no contraste entre o ''laós'' (povo, povo santo) e os seus responsáveis, em relação a Jesus: o povo escutava as suas palavras (sinal de acolhimento), ao passo que os responsáveis procuravam dar-lhe a morte (20,19; 21,38; 23,27.35).</ref>.
20 Controvérsia sobre a autoridade de Jesus (Mt 21,23-27; Mc 11,27-33) – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>E aconteceu que, num dos dias em que Ele estava a ensinar o povo no templo e a anunciar a boa nova, os chefes dos sacerdotes e os doutores da lei com os anciãos apresentaram-se <span style="color:red"><sup>2</sup></span>e disseram-lhe<ref name="ftn301">Lit.: ''e disseram-lhe, dizendo''.</ref>: «Diz-nos com que autoridade fazes estas coisas ou quem é que te deu tal autoridade». <span style="color:red"><sup>3</sup></span>Respondendo, disse-lhes: «Vou perguntar também eu uma coisa; dizei-me: <span style="color:red"><sup>4</sup></span>o batismo de João era do céu ou dos homens?».
<span style="color:red"><sup>5</sup></span>Eles, porém, discutiam entre si, dizendo: «Se dissermos "do céu", dirá: "Por que razão não acreditastes nele?"; <span style="color:red"><sup>6</sup></span>se dissermos "dos homens", todo o povo nos apedrejará, pois está convencido de que João é um profeta». <span style="color:red"><sup>7</sup></span>E responderam que não sabiam de onde era. <span style="color:red"><sup>8</sup></span>Então Jesus disse-lhes: «Nem Eu vos digo com que autoridade faço estas coisas».
Parábola dos vinhateiros homicidas (Mt 21,33-46; Mc 12,1-12) – <span style="color:red"><sup>9</sup></span>Começou, então, a dizer ao povo esta parábola<ref name="ftn302">Esta parábola evoca Is 5,1-7, onde se afirma claramente: ''A vinha do Senhor do universo é a casa de Israel'' (v. 7).</ref>: «Um homem plantou uma vinha, arrendou-a a uns agricultores e partiu de viagem por bastante tempo. <span style="color:red"><sup>10</sup></span>Em tempo oportuno, enviou um servo aos agricultores para que lhe dessem parte do fruto da vinha, mas os agricultores espancaram-no e mandaram-no embora sem nada. <span style="color:red"><sup>11</sup></span>Enviou de novo outro servo; mas eles também a esse espancaram, ultrajaram e mandaram-no embora sem nada. <span style="color:red"><sup>12</sup></span>Enviou ainda um terceiro, mas eles, depois de o ferirem, expulsaram-no.
<span style="color:red"><sup>13</sup></span>Disse, então, o senhor da vinha: "Que hei de fazer? Enviarei o meu filho amado, talvez o respeitem". <span style="color:red"><sup>14</sup></span>Mas, ao vê-lo, os agricultores discutiam uns com os outros, dizendo: "Este é o herdeiro; matemo-lo, para que a herança se torne nossa". <span style="color:red"><sup>15</sup></span>E, depois de o lançarem para fora da vinha, mataram-no. Ora, que lhes fará o senhor da vinha? <span style="color:red"><sup>16</sup></span>Virá, destruirá esses agricultores e dará a vinha a outros».
Ao ouvirem isto, disseram: «De modo nenhum!»<ref name="ftn303">Lit.: ''não aconteça!'' (expressão idiomática).</ref>. <span style="color:red"><sup>17</sup></span>Mas Ele, fixando neles o olhar, disse: «Que significa isto que está escrito:
''A pedra que rejeitaram os construtores ''
''tornou-se pedra angular ''<ref name="ftn304">Cita-se o Sl 118,22, que se inspira em Is 28,16, e que o cristianismo primitivo aplicou à ressurreição de Jesus, fundador do novo povo de Deus (At 4,11; 1Pd 2,4.7).</ref>?
<span style="color:red"><sup>18</sup></span>Todo aquele que cair sobre essa pedra ficará despedaçado, e ela esmagará aquele sobre o qual cair»<ref name="ftn305">Não sendo uma citação bíblica, este v. inspira-se certamente em Is 8,14-1 e em Dn 2,44. A obra de Deus é perdição para o incrédulo e salvação para o crente (2,34; Rm 9,33; 1Pd 2,5-8).</ref>.
<span style="color:red"><sup>19</sup></span>Na mesma hora, os doutores da lei e os chefes dos sacerdotes procuraram deitar-lhe as mãos, mas tiveram medo do povo; de facto, perceberam que tinha sido para eles que dissera esta parábola.
O imposto a César (Mt 22,15-22; Mc 12,13-17) – <span style="color:red"><sup>20</sup></span>Puseram-se, então, a observá-lo atentamente e enviaram espiões, que se fingiam justos, para o surpreender em alguma palavra, de modo a entregá-lo ao poder e à autoridade do governador. <span style="color:red"><sup>21</sup></span>Interrogaram-no, dizendo: «Mestre, sabemos que falas e ensinas com retidão e não tens em consideração as aparências, mas ensinas o caminho de Deus<ref name="ftn306">A expressão ''o caminho de Deus'' (Sl 25,4.9; 27,11; 51,15) é muito usada, no livro dos Atos, para designar a comunidade cristã (9,2; 16,17; 18,25-26; 19,9.23; 22,4; 24,4.22).</ref> de acordo com a verdade. <span style="color:red"><sup>22</sup></span>É-nos permitido ou não pagar tributo a César?».
<span style="color:red"><sup>23</sup></span>Reparando na sua malícia, disse-lhes: <span style="color:red"><sup>24</sup></span>«Mostrai-me um denário. De quem é a imagem e a inscrição<ref name="ftn307">Lit.: ''de quem tem imagem e inscrição?''</ref>?». Eles disseram: «De César». <span style="color:red"><sup>25</sup></span>Ele disse-lhes: «Então devolvei a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus». <span style="color:red"><sup>26</sup></span>E não foram capazes de o surpreender em nada diante do povo e, admirados com a sua resposta, calaram-se.
Os saduceus e a ressurreição (Mt 22,23-33; Mc 12,18-27) – <span style="color:red"><sup>27</sup></span>Aproximaram-se alguns saduceus – que negam haver ressurreição<ref name="ftn308">Os saduceus não partilham a fé na ressurreição dos mortos e procuram ridicularizar Jesus, apresentam-lhe uma hipótese académica a que Jesus responde não com o livro de Daniel, que eles não aceitavam, mas com a Torá, incontestada por todos.</ref> – e interrogaram-no, dizendo: <span style="color:red"><sup>28</sup></span>«Mestre, Moisés deixou-nos escrito: "Se o irmão de alguém morrer, tendo mulher mas sem filhos, o seu irmão case<ref name="ftn309">Lit.: ''tomou a mulher'', na aceção de ''desposar'' (assim também nos v. seguintes).</ref> com ela<ref name="ftn310">Este v. cita livremente Dt 25,5s. Trata-se da lei do levirato (do latim ''levir = ''cunhado) que se apoia em Dt 25,5-10, mas é proibida por Lv 18,16 e 20,21. Segundo esta lei, o cunhado desposa a viúva de seu irmão, se ele não deixou filhos, a fim de perpetuar o nome da família e de assegurar um herdeiro ao defunto. Este uso, comum aos hititas e aos assírios, perdeu importância quando as filhas começaram a poder herdar (Nm 36).</ref> e dê descendência ao seu irmão". <span style="color:red"><sup>29</sup></span>Ora, havia sete irmãos: o primeiro casou-se com uma mulher e morreu sem filhos; <span style="color:red"><sup>30</sup></span>também o segundo <span style="color:red"><sup>31</sup></span>e o terceiro casaram com ela e o mesmo aconteceu também aos sete: não deixaram filhos e morreram. <span style="color:red"><sup>32</sup></span>Por último, também a mulher morreu. <span style="color:red"><sup>33</sup></span>Na ressurreição, de qual deles será ela mulher<ref name="ftn311">Lit.: ''A mulher, pois, na ressurreição, de qual deles se tornará mulher?''</ref>? É que todos os sete a tiveram como mulher».
<span style="color:red"><sup>34</sup></span>Disse-lhes Jesus: «Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento. <spanstyle="color:red"><sup>35</sup></span>Os que forem considerados dignos de alcançar esse mundo – a ressurreição dos mortos – não se casam nem se dão em casamento, <span style="color:red"><sup>36</sup></span>pois já não podem morrer; são semelhantes aos anjos. E, sendo filhos da ressurreição<ref name="ftn312">Semitismo que significa ''ser herdeiros do mundo novo e da sua vida''.</ref>, são filhos de Deus. <span style="color:red"><sup>37</sup></span>Que os mortos ressuscitam, também Moisés o indicou no episódio da sarça, quando diz: ''O Senhor Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob''. <span style="color:red"><sup>38</sup></span>Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, pois todos vivem para Ele».
<span style="color:red"><sup>39</sup></span>Em resposta, alguns dos doutores da lei disseram: «Mestre, disseste bem». <span style="color:red"><sup>40</sup></span>E já não ousavam interrogá-lo sobre nada.
O Messias, Senhor de David (Mt 22,41-45; Mc 12,35-37) – <span style="color:red"><sup>41</sup></span>Mas disse-lhes: «Como podem dizer que o Cristo é filho de David? <span style="color:red"><sup>42</sup></span>O próprio David diz no livro dos Salmos:
''Disse o Senhor ao meu Senhor: "Senta-te à minha direita,''
<span style="color:red"><sup>43</sup></span>''até que ponha os teus inimigos como estrado dos teus pés"''<ref name="ftn313">Lc segue exatamente o texto grego do Sl 110,1 (At 2,34; Heb 1,13).</ref>''.''
<span style="color:red"><sup>44</sup></span>Portanto, David chama-lhe "Senhor". Como pode ser seu filho?».
Crítica aos doutores da lei (Mt 23,1.5-7.14; Mc 12,38-40) – <span style="color:red"><sup>45</sup></span>Estando todo o povo a ouvir, disse aos seus discípulos: <span style="color:red"><sup>46</sup></span>«Tende cuidado com os doutores da lei que têm prazer em caminhar com vestes longas, gostam de saudações nas praças públicas, dos primeiros assentos nas sinagogas e dos primeiros lugares nos banquetes; <span style="color:red"><sup>47</sup></span>eles devoram as casas das viúvas usando longas orações como pretexto. Estes receberão uma condenação mais severa».
21 A generosidade da viúva pobre (Mc 12,41-44) – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>Ao levantar os olhos, viu os ricos a deitar os seus donativos na arca do tesouro. <span style="color:red"><sup>2</sup></span>Viu, então, uma viúva necessitada a deitar lá duas pequenas moedas <span style="color:red"><sup>3</sup></span>e disse: «Em verdade vos digo: esta pobre viúva deitou mais do que todos; <span style="color:red"><sup>4</sup></span>pois todos estes deitaram do que lhes sobrava como donativo, mas esta, na sua penúria, deitou tudo o que tinha para viver<ref name="ftn314">Lit.: ''toda a vida que tinha deitou.''</ref>».
A destruição do templo (Mt 24,1s; Mc 13,1s) – <span style="color:red"><sup>5</sup></span>Estando alguns a falar acerca do templo, que estava ornado com belas pedras e ofertas votivas<ref name="ftn315">O templo havia sido reconstruído e embelezado por Herodes, o Grande, pelo ano 19 a.C. (Jo 2,20). As ofertas dos fiéis (2Mac 2,13) tanto podiam ser elementos da construção como da decoração do templo.</ref>, Ele disse: <span style="color:red"><sup>6</sup></span>«Quanto a isto que estais a contemplar, dias virão em que não ficará pedra sobre pedra que não venha a ser derrubada»<ref name="ftn316">O tema da destruição do templo não é novo. Diversos Profetas tinham anunciado a destruição do primeiro templo (Jr 7,1-15; 26,1-19; Ez 8-11; Mq 3,12), como sinal e consequência de uma aliança que se rompe entre Deus e o povo. Jesus anuncia a destruição do segundo templo, como sinal e consequência da não aceitação dele mesmo, enquanto enviado de Deus, o que causou um escândalo semelhante (Mt 26,61; 27,40; At 6,14).</ref>.
Sinais antecedentes do fim: falsos messias, guerras e perseguições (Mt 10,17-22; 24,3-14; Mc 13,3-13) – <span style="color:red"><sup>7</sup></span>Interrogaram-no, então, dizendo: «Mestre, quando será isso e qual o sinal, quando essas coisas estiverem prestes a acontecer?». <span style="color:red"><sup>8</sup></span>Ele disse: «Tomai cuidado, não vos deixeis enganar<ref name="ftn317">O verbo grego ''planáō'' pode traduzir-se por ''seduzir'' ou ''induzir em erro'' e pertence à terminologia da literatura apocalíptica hebraica. Tanto alude às seduções messiânicas (Mt 24,5.11.24), diabólicas ou políticas (Ap 2,20; 12,9; 13,14), como às doutrinais (1Jo 1,8; 2,26; 3,7).</ref>! Pois muitos virão em meu nome<ref name="ftn318">Jesus refere-se aos falsos messias que atribuem a si mesmos a sua missão e autoridade, mestres do erro que anunciam a iminência do fim (17,23; 19,11).</ref>, dizendo: "Sou eu" e "O tempo está próximo". Não vades atrás deles. <span style="color:red"><sup>9</sup></span>Quando ouvirdes falar de guerras<ref name="ftn319">Possível referência às agitações militares e políticas que acompanharam a morte de Nero, em 68 d.C., ou mesmo aos acontecimentos dos anos 70, em Jerusalém.</ref> e de rebeliões, não fiqueis aterrorizados; é necessário que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será imediatamente o fim».
<span style="color:red"><sup>10</sup></span>Dizia-lhes, então: «Há de levantar-se povo contra povo e reino contra reino; <span style="color:red"><sup>11</sup></span>haverá grandes tremores de terra e por todo o lado fomes e pestes, acontecimentos terríficos e, do céu, haverá grandes sinais».<span style="color:red"><sup>12</sup></span>«Mas, antes de tudo isto, hão de deitar-vos as mãos e perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e às prisões<ref name="ftn320">Em cada sinagoga havia um pequeno sinédrio, composto de vinte elementos, que julgava os casos menores (Mt 10,17). Depois da destruição de Jerusalém, no ano 70 d.C., estes sinédrios locais tornaram-se muito importantes.</ref>, levando-vos à presença de reis e governadores por causa do meu nome; <span style="color:red"><sup>13</sup></span>será para vós ocasião de dar testemunho<ref name="ftn321">Lit.: ''para testemunho''. O testemunho é, segundo Lc, a função essencial dos Doze (24,48; At 1,8.22; 2,32; 3,15; 4,33; 5,32; 10,39; 13,31), de Estêvão (At 22,20) e de Paulo (At 18,5; 20,21; 22,15.18; 23,11; 26,16.22; 28,23).</ref>. <span style="color:red"><sup>14</sup></span>Portanto, ponde nos vossos corações não vos preocupardes como haveis de defender-vos, <span style="color:red"><sup>15</sup></span>pois Eu vos darei boca e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer. <span style="color:red"><sup>16</sup></span>Mas sereis entregues até pelos pais, irmãos, familiares e amigos, e hão de causar a morte a alguns de vós; <span style="color:red"><sup>17</sup></span>sereis odiados por todos por causa do meu nome. <span style="color:red"><sup>18</sup></span>Mas nem um só cabelo da vossa cabeça se perderá. <span style="color:red"><sup>19</sup></span>Com a vossa perseverança ganhai as vossas vidas».
Sinais antecedentes do fim: destruição de Jerusalém (Mt 24,15-22; Mc 13,14-20) – <span style="color:red"><sup>20</sup></span>«Quando virdes Jerusalém cercada por exércitos, sabei, então, que a sua desolação está próxima. <span style="color:red"><sup>21</sup></span>Então, os que estiverem na Judeia fujam para os montes, os que estiverem no meio da cidade<ref name="ftn322">Lit.: ''no meio dela''.</ref> afastem-se e os que estiverem nos campos não entrem nela; <span style="color:red"><sup>22</sup></span>porque esses serão dias de vingança, para que se cumpra tudo o que está escrito.
<span style="color:red"><sup>23</sup></span>Ai daquelas que tiverem um filho no ventre e das que amamentarem naqueles dias! Haverá uma grande calamidade sobre a terra e ira contra este povo. <span style="color:red"><sup>24</sup></span>Cairão ao fio da espada<ref name="ftn323">Lit.: ''à boca da espada'', uma expressão bíblica (cf. Gn 34,26; Js 8,24; 19,47; Jz 1,8; Sir 28,18; Heb 11,34).</ref> e serão levados como cativos para todos os povos. E Jerusalém será espezinhada pelos pagãos, até que se complete o tempo dos pagãos»<ref name="ftn324">Lit.: ''os tempos dos pagãos''.'' ''A expressão pode ser entendida em dois sentidos: o tempo da evangelização dos pagãos (Lc 24,47), no fim do qual Israel pode voltar a Cristo que recusou (Lc 13,35; Rm 11,25-27); o tempo do domínio dos pagãos sobre Jerusalém, ao qual Deus fixou um limite (Ap 11,2).</ref>.
Vinda gloriosa do Filho do Homem (Mt 24,29-31; Mc 13,24-27) – <span style="color:red"><sup>25</sup></span>«Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas e, sobre a terra, angústia sobre os povos, com perplexidade perante o bramido do mar e das ondas, <span style="color:red"><sup>26</sup></span>enquanto os homens desfalecerão de medo, na expectativa do que sobrevirá ao mundo habitado, pois ''os poderes dos céus'' serão abalados. <span style="color:red"><sup>27</sup></span>Verão, então, ''o Filho do Homem vir numa nuvem ''com poder e grande glória. <span style="color:red"><sup>28</sup></span>Quando isto começar a acontecer, erguei-vos e levantai as vossas cabeças, porque está próxima a vossa libertação».
Parábola da figueira (Mt 24,32-35; Mc 13,28-32) – <span style="color:red"><sup>29</sup></span>E disse-lhes uma parábola: «Vede a figueira e todas as árvores: <span style="color:red"><sup>30</sup></span>quando já têm rebentos, ao olhar, ficais a saber por vós próprios que o verão já está próximo; <span style="color:red"><sup>31</sup></span>assim também vós, quando virdes estas coisas acontecer, sabei que está próximo o reino de Deus. <span style="color:red"><sup>32</sup></span>Amen vos digo: não passará esta geração, até que todas estas coisas aconteçam. <span style="color:red"><sup>33</sup></span>O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão».
Necessidade de estar vigilante – <span style="color:red"><sup>34</sup></span>«Tende cuidado convosco, não aconteça que os vossos corações se tornem pesados com a embriaguez, a bebedeira e as preocupações da vida, e aquele dia venha sobre vós de improviso, <span style="color:red"><sup>35</sup></span>como uma armadilha<ref name="ftn325">Lit.: ''laço''.</ref>, pois virá sobre todos os que habitam sobre a face de toda a terra. <span style="color:red"><sup>36</sup></span>Estai despertos, rezando todo o tempo para que consigais fugir de tudo isto que está prestes a acontecer, e comparecer diante do Filho do Homem».
Últimos dias do ministério de Jesus – <span style="color:red"><sup>37</sup></span>Durante o dia Jesus estava no templo a ensinar, mas à noite saía e pernoitava no monte, chamado das Oliveiras. <span style="color:red"><sup>38</sup></span>E todo o povo vinha de madrugada ter com Ele ao templo, para o ouvir.
22 Determinação em matar Jesus (Mt 26,3-5; Mc 14,1s) – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>Aproximava-se a festa dos Ázimos<ref name="ftn326">Com origem diversa, a festa da Páscoa e a dos Ázimos (pães sem fermento) apareciam de tal modo ligadas que eram praticamente identificadas (Dt 16,1-8).</ref>, chamada Páscoa. <span style="color:red"><sup>2</sup></span>Os chefes dos sacerdotes e os doutores da lei procuravam o modo de o eliminar, pois tinham medo do povo.
Traição de Judas (Mt 26,14-16; Mc 14,10s) – <span style="color:red"><sup>3</sup></span>Satanás entrou em Judas<ref name="ftn327">Afastado de Jesus desde 4,13, Satanás reaparece agora (v. 53; cf. Jo 13,2.27).</ref>, chamado Iscariotes, que era do número dos Doze; <spanstyle="color:red"><sup>4</sup></span>foi falar com os chefes dos sacerdotes e os oficiais<ref name="ftn328">Os oficiais ou guardas seriam talvez levitas responsáveis pelo policiamento do templo. Apenas Lc os refere: aqui e no v. 52 (plural) e ainda em At 4,1; 5,24.26 (singular).</ref> sobre o modo de entregar Jesus<ref name="ftn329">Lit. ''o modo de o entregar''.</ref>. <span style="color:red"><sup>5</sup></span>Alegraram-se e combinaram dar-lhe dinheiro. <span style="color:red"><sup>6</sup></span>Ele aceitou e procurava uma boa oportunidade, sem a multidão, para lho entregar.
Preparação da ceia pascal (Mt 26,17-19; Mc 14,12-16) – <span style="color:red"><sup>7</sup></span>Chegou, então, o dia dos Ázimos, em que era necessário imolar a Páscoa. <span style="color:red"><sup>8</sup></span>Jesus enviou Pedro e João, dizendo: «Ide preparar-nos a Páscoa para que a comamos». <span style="color:red"><sup>9</sup></span>Eles disseram-lhe: «Onde queres que a preparemos?». <span style="color:red"><sup>10</sup></span>Ele disse-lhes: «Eis que, ao entrardes na cidade, virá ao vosso encontro um homem carregando uma bilha de água<ref name="ftn330">É provável que se trate de um sinal combinado, pois apenas as mulheres iam buscar água.</ref>. Segui-o até à casa em que entrar <span style="color:red"><sup>11</sup></span>e direis ao senhor da casa: «O mestre diz-te: "Onde é a sala em que hei de comer a Páscoa com os meus discípulos?"». <span style="color:red"><sup>12</sup></span>Ele vos mostrará no andar superior uma sala grande e mobilada. Preparai-a lá». <span style="color:red"><sup>13</sup></span>Eles partiram, encontraram tudo tal como Ele lhes dissera e prepararam a Páscoa.
A ceia do Senhor (Mt 26,20-29; Mc 14,17-25; Jo 13,2.21-26; 1Cor 11,23-25) – <span style="color:red"><sup>14</sup></span>Quando chegou a hora, reclinou-se à mesa e os apóstolos com Ele. <span style="color:red"><sup>15</sup></span>E disse-lhes: «Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco, antes de padecer; <span style="color:red"><sup>16</sup></span>pois digo-vos que não mais a comerei, até que ela se cumpra no reino de Deus».
<span style="color:red"><sup>17</sup></span>E, recebendo um cálice, depois de dar graças, disse: «Tomai isto e reparti entre vós, <span style="color:red"><sup>18</sup></span>pois digo-vos que, de agora em diante, não mais beberei do fruto da videira, até que venha o reino de Deus». <spanstyle="color:red"><sup>19</sup></span>E, tomando um pão, depois de dar graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: «Este é o meu corpo dado em favor de vós. Fazei isto em minha memória»<ref name="ftn331">''Em minha memória'' (v. 20 e 1Cor 11,24) é uma fórmula que não se encontra em Mt e Mc. É ela que define a ceia eucarística como memorial do sacrifício de Jesus, ao modo da ceia pascal de Israel (Ex 12,14; 13,9; Dt 16,3).</ref>. <span style="color:red"><sup>20</sup></span>Depois de cear, fez o mesmo com o cálice, dizendo: «Este cálice é a nova aliança<ref name="ftn332">Apenas aqui e em 1Co 11,25 se usa o adjetivo ''nova'', trazendo à mente Jr 31,31-34. O sacrifício de Jesus inaugura um novo tempo de salvação.</ref> no meu sangue, derramado em favor de vós». <span style="color:red"><sup>21</sup></span>«Mas eis que a mão do que me vai entregar está comigo à mesa. <span style="color:red"><sup>22</sup></span>De facto, o Filho do Homem parte, como está determinado, mas ai daquele homem por quem é entregue»! <span style="color:red"><sup>23</sup></span>Então eles começaram a debater entre si qual deles estaria prestes a fazer tal coisa.
Os chefes devem servir (Mt 20,24-28; Mc 10,41-45) – <span style="color:red"><sup>24</sup></span>Surgiu também uma discussão entre eles, sobre qual deveria ser considerado o maior. <span style="color:red"><sup>25</sup></span>Ele, porém, disse-lhes:
«Os reis dos pagãos exercem domínio sobre eles, e os que têm autoridade sobre eles são chamados benfeitores<ref name="ftn333">O título ''benfeitor'' (''euergétēs'') é, no mundo grego, atribuído frequentemente aos deuses, heróis e reis.</ref>. <span style="color:red"><sup>26</sup></span>Vós, porém, não sejais assim. Pelo contrário, o maior entre vós seja como o mais novo<ref name="ftn334">No mundo palestinense e no mundo clássico em geral, o mais novo era o último na escala hierárquica.</ref>, e o que manda como o que serve. <span style="color:red"><sup>27</sup></span>Quem é, de facto, o maior: o que está reclinado à mesa ou o que serve? Não é o que está reclinado à mesa? Ora, Eu estou no meio de vós como o que serve. <span style="color:red"><sup>28</sup></span>Vós sois os que perseverastes comigo nas minhas provações, <span style="color:red"><sup>29</sup></span>e Eu disponho<ref name="ftn335">O termo grego ''diatíthēmi'' (''dispor, estipular, concluir'') pode significar a conclusão de uma aliança (v. 20) e a formulação de um testamento (Heb 2,16).</ref> para vós um reino como o meu Pai o dispôs para mim, <span style="color:red"><sup>30</sup></span>para que comais e bebais à minha mesa, no meu reino, e vos senteis em tronos a julgar as doze tribos de Israel».
Anúncio da negação de Pedro (Mt 26,34s; Mc 14,30s; Jo 13,37s) – <span style="color:red"><sup>31</sup></span>«Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos joeirar como o trigo, <span style="color:red"><sup>32</sup></span>mas Eu pedi por ti para que a tua fé não desfaleça. E tu, uma vez convertido<ref name="ftn336">''Convertido'' (''epistrépsas'') é, neste contexto, uma palavra de tradução difícil, dada a sua polissemia. As traduções oscilam entre ''convertido'' e ''voltado para trás''.</ref>, fortalece os teus irmãos». <span style="color:red"><sup>33</sup></span>Ele disse-lhe: «Senhor, estou preparado para ir contigo para a prisão e para a morte». <span style="color:red"><sup>34</sup></span>Mas Ele disse-lhe: «Digo-te, Pedro: não cantará hoje o galo sem que por três vezes tenhas negado conhecer-me».
A iminência da provação – <span style="color:red"><sup>35</sup></span>E disse-lhes: «Quando vos enviei sem saca, sem bolsa e sem sandálias, faltou-vos alguma coisa?». Eles disseram: «Nada». <span style="color:red"><sup>36</sup></span>Disse-lhes, então: «Mas, agora, quem tem saca pegue nela, assim como na bolsa, e quem não tem venda a sua capa e compre uma espada. <span style="color:red"><sup>37</sup></span>Pois digo-vos: é necessário que seja consumado em mim isto que está escrito: ''Foi contado entre os malfeitores''. De facto, o que está escrito acerca de mim tem agora consumação. <span style="color:red"><sup>38</sup></span>Eles disseram: «Senhor, eis aqui duas espadas». Mas Ele disse-lhes: «Basta!».
Oração de Jesus no Monte das Oliveiras (Mt 26,30.36-46; Mc 14,26.32-38) – <span style="color:red"><sup>39</sup></span>Então, saindo, foi como de costume para o Monte das Oliveiras. Seguiram-no também os discípulos. <span style="color:red"><sup>40</sup></span>Quando chegou ao lugar, disse-lhes: «Rezai para não entrardes em tentação». <span style="color:red"><sup>41</sup></span>E Ele afastou-se deles quase à distância do lançamento de uma pedra e, ajoelhando-se, rezava, <span style="color:red"><sup>42</sup></span>dizendo: «Pai, se queres, afasta de mim este cálice<ref name="ftn337">O cálice é, com frequência, no AT, o símbolo do sofrimento (Sl 75,9; Is 51,17-22; Jr 25,15; Ez 23,31-34).</ref>! No entanto, não se faça a minha vontade mas a tua». <span style="color:red"><sup>43</sup></span>Apareceu-lhe, então, um anjo do céu a confortá-lo.
<span style="color:red"><sup>44</sup></span>Tendo entrado em agonia, rezava mais intensamente, e o seu suor tornou-se como gotas de sangue que caíam na terra. <span style="color:red"><sup>45</sup></span>Levantando-se da oração, ao ir ter com os discípulos, encontrou-os a dormir de tristeza. <span style="color:red"><sup>46</sup></span>E disse-lhes: «Porque dormis? Levantai-vos e rezai, para que não entreis em tentação».
Prisão de Jesus (Mt 26,47-56; Mc 14,43-50; Jo 18,3-11) – <span style="color:red"><sup>47</sup></span>Ainda Ele falava, e eis que chegou uma multidão. Um dos Doze, chamado Judas, ia à frente deles e aproximou-se de Jesus para o beijar. <span style="color:red"><sup>48</sup></span>Mas Jesus disse-lhe: «Judas, é com um beijo que entregas o Filho do Homem?». <span style="color:red"><sup>49</sup></span>Ao verem o que iria acontecer, os que estavam com Ele disseram: «Senhor, atacamos com a espada?». <span style="color:red"><sup>50</sup></span>E um deles atacou o servo do sumo-sacerdote e cortou-lhe a orelha direita. <span style="color:red"><sup>51</sup></span>Mas, em resposta, Jesus disse: «Deixai! Basta!». E, tocando-lhe na orelha, curou-o. <span style="color:red"><sup>52</sup></span>Depois, disse Jesus aos que estavam junto a si, os chefes dos sacerdotes, os guardiães do templo e os anciãos: «Como se faz a um salteador, saístes com espadas e varapaus? <span style="color:red"><sup>53</sup></span>Dia após dia, enquanto estava convosco no templo, não me deitastes as mãos: mas esta é a vossa hora e o poder das trevas».
Pedro renega Jesus (Mt 26,57s.69-75; Mc 14,53s.64-72; Jo 18,12-18.25-27) – <span style="color:red"><sup>54</sup></span>Tendo-se apoderado de Jesus, levaram-no e fizeram-no entrar na casa do sumo-sacerdote. Pedro seguia-o de longe. <span style="color:red"><sup>55</sup></span>Mas, quando acenderam uma fogueira no meio do pátio e se sentaram juntos, Pedro foi sentar-se no meio deles.
<span style="color:red"><sup>56</sup></span>Uma jovem serva, ao vê-lo sentado ao lume, olhou-o fixamente e disse: «Também este estava com Ele». <span style="color:red"><sup>57</sup></span>Mas ele negou, dizendo: «Não o conheço, ó mulher». <span style="color:red"><sup>58</sup></span>Pouco depois, um outro, ao vê-lo, afirmou: «Também tu és um deles». Mas Pedro afirmou: «Ó homem, não sou». <span style="color:red"><sup>59</sup></span>E, cerca de uma hora depois, um outro insistia, dizendo: «Na verdade, também este estava com Ele, pois também é galileu». <span style="color:red"><sup>60</sup></span>Disse Pedro: «Ó homem, não sei o que dizes».
E, subitamente, ainda ele falava, um galo cantou. <span style="color:red"><sup>61</sup></span>Voltando-se, o Senhor fixou o olhar em Pedro. Pedro recordou-se, então, daquilo que o Senhor lhe dissera: «Antes que hoje um galo cante, negar-me-ás três vezes». <span style="color:red"><sup>62</sup></span>E, saindo, chorou amargamente.
Jesus é ultrajado (Mt 26,67; Mc 14,65) – <span style="color:red"><sup>63</sup></span>Os homens que o guardavam escarneciam dele, espancando-o. <span style="color:red"><sup>64</sup></span>Depois de o terem vendado, interrogavam-no, dizendo: «Profetiza! Quem te bateu?». <span style="color:red"><sup>65</sup></span>E, blasfemando, diziam muitas outras coisas contra Ele.
Jesus diante do Sinédrio (Mt 27,1; 26,57.63-65; Mc 15,1; 14,53.61-64; Jo 18,19-24) – <span style="color:red"><sup>66</sup></span>Quando se fez dia, reuniu-se o conselho dos anciãos do povo, os chefes dos sacerdotes e também os doutores da lei. Levaram-no ao sinédrio deles, <span style="color:red"><sup>67</sup></span>dizendo: «Se tu és o Cristo, diz-nos». Ele disse-lhes: «Se vos disser, não acreditareis, <span style="color:red"><sup>68</sup></span>e se vos perguntar, jamais respondereis. <span style="color:red"><sup>69</sup></span>A partir de agora ''o Filho do Homem estará sentado à direita do poder de Deus''»<ref name="ftn338">Sl 110,1.</ref>. <span style="color:red"><sup>70</sup></span>Disseram todos: «Tu és, então, o Filho de Deus?». Ele disse-lhes: «Vós dizeis que Eu sou». <span style="color:red"><sup>71</sup></span>Eles disseram: «Que necessidade temos ainda de testemunhas? Nós próprios o ouvimos da sua boca».
23 Jesus perante Pilatos (Mt 27,2.11-14; Mc 15,1-5; Jo 18,28-38) – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>Tendo-se levantado toda a assembleia deles, levaram-no à presença de Pilatos. <span style="color:red"><sup>2</sup></span>Começaram, então, a acusá-lo, dizendo: «Encontrámos este homem<ref name="ftn339">''Homem'' é acrescento da tradução.</ref> a incitar o nosso povo<ref name="ftn340">Já em 20,20-26 Lc previu esta acusação. Os adversários de Jesus entendiam a sua realeza em sentido político e apresentam-na a Pilatos como um atentado à soberania romana (At 17,7). Vai ser este o motivo da condenação de Jesus (23,30).</ref>, a impedir de pagar os impostos a César e a dizer que Ele próprio é o Cristo, o rei». <span style="color:red"><sup>3</sup></span>Então Pilatos perguntou-lhe, dizendo: «Tu és o rei dos judeus?». Ele, respondendo-lhe, afirmou: «Tu o dizes». <span style="color:red"><sup>4</sup></span>Pilatos disse, então, aos chefes dos sacerdotes e às multidões: «Não encontro culpa alguma neste homem». <span style="color:red"><sup>5</sup></span>Mas eles insistiam, dizendo: «Instiga o povo, ensinando por toda a Judeia, tendo começado desde a Galileia até aqui».
Jesus perante Herodes – <span style="color:red"><sup>6</sup></span>Ao ouvir isto, Pilatos indagou se o homem era galileu <span style="color:red"><sup>7</sup></span>e, ao perceber que era da jurisdição de Herodes<ref name="ftn341">Lit.: ''era da autoridade de Herodes.''</ref>, remeteu-o a Herodes<ref name="ftn342">Trata-se de Herodes Ântipas, tetrarca da Galileia (3,1). Herodes está em Jerusalém por causa da peregrinação da Páscoa. Lc é o único a referir a sua intervenção na paixão (At 4,27).</ref>, que também estava em Jerusalém nesses dias. <span style="color:red"><sup>8</sup></span>Herodes, ao ver Jesus, alegrou-se muito, pois desde há muito tempo que o queria ver, por causa do que ouvia dizer acerca dele, e esperava ver algum sinal feito por Ele. <span style="color:red"><sup>9</sup></span>Interrogou-o com muitas perguntas<ref name="ftn343">Lit.: ''interrogou-o com bastantes palavras.''</ref>, mas Ele nada lhe respondeu.
<span style="color:red"><sup>10</sup></span>Estavam presentes os chefes dos sacerdotes e os doutores da lei que o acusavam com veemência. <span style="color:red"><sup>11</sup></span>Então Herodes, com as suas tropas, escarnecendo dele, revestiu-o com uma veste esplêndida e remeteu-o a Pilatos. <span style="color:red"><sup>12</sup></span>Naquele dia, Herodes e Pilatos tornaram-se amigos um do outro, pois antes havia inimizade entre eles.
A condenação de Jesus à morte (Mt 27,20-26; Mc 15,11-15; Jo 18,38-19,1) – <span style="color:red"><sup>13</sup></span>Então Pilatos, tendo convocado os chefes dos sacerdotes, os magistrados<ref name="ftn344">Alguns mss. apresentam ''e os magistrados'' (''árkhontes) do povo''.</ref> e o povo, <span style="color:red"><sup>14</sup></span>disse-lhes: «Trouxestes-me este homem como agitador do povo, mas eis que eu, ao inquiri-lo na vossa presença, não encontrei neste homem culpa alguma em relação àquilo de que o acusais; <span style="color:red"><sup>15</sup></span>nem mesmo Herodes, pois remeteu-o para nós. Eis que Ele não cometeu nada que seja merecedor de morte. <span style="color:red"><sup>16</sup></span>Portanto, depois de o castigar, vou libertá-lo». (<span style="color:red"><sup>17</sup></span>)<ref name="ftn345">O v. 17 falta em muitos mss.. Pode ter sido aqui incluído por influência de Mt 27,15 ou de Mc 15,6: ''tinha o costume de lhes libertar um pela festa''. Este v. foi omitido, porque não está presente na grande e mais antiga tradição textual.</ref>
<span style="color:red"><sup>18</sup></span>Então gritaram todos em conjunto, dizendo: «Leva esse e liberta-nos Barrabás»<ref name="ftn346">Barrabás significa ''Filho do pai'' em aramaico (''bar-'abbas'').</ref>. <span style="color:red"><sup>19</sup></span>Este fora metido na prisão por causa de uma revolta acontecida na cidade, e por assassínio.
<span style="color:red"><sup>20</sup></span>Pilatos, querendo libertar Jesus, interpelou-os de novo. <span style="color:red"><sup>21</sup></span>Eles, porém, vociferavam, dizendo: «Crucifica-o! Crucifica-o!». <span style="color:red"><sup>22</sup></span>Ele, pela terceira vez, disse-lhes: «Mas que mal fez este? Não encontro nele culpa alguma punível com a morte<ref name="ftn347">Lit.: ''nenhuma culpa de morte.''</ref>. Portanto, depois de o castigar, vou libertá-lo». <span style="color:red"><sup>23</sup></span>Eles, porém, insistiam com grandes gritos, pedindo que fosse crucificado, e os seus gritos prevaleciam.
<span style="color:red"><sup>24</sup></span>Então Pilatos decidiu que o pedido deles se realizasse: <span style="color:red"><sup>25</sup></span>libertou aquele que, por revolta e assassínio, fora lançado na prisão, como lhe pediam, e entregou Jesus à vontade deles.
A caminho do Calvário (Mt 27,31s; Mc 15,20s; Jo 19,16s) – <span style="color:red"><sup>26</sup></span>Quando o levaram, agarraram um certo Simão, de Cirene<ref name="ftn348">Cirene era uma colónia grega, no norte de África, onde se tinham estabelecido numerosos hebreus (At 2,10; 11,20). Ao referir que Simão de Cirene leva a cruz atrás de Jesus, Lc parece querer fazer dele o modelo de discípulo (9,3; 14,27).</ref>, que vinha do campo, e puseram-lhe a cruz em cima para a levar atrás de Jesus. <span style="color:red"><sup>27</sup></span>Seguia-o uma grande multidão do povo e de mulheres que batiam no peito<ref name="ftn349">Este episódio é específico de Lc e parece recordar Zc 12,10-14 (cf. Lc 23,48). Testemunha a benevolência do povo em relação a Jesus.</ref> e se lamentavam por Ele. <span style="color:red"><sup>28</sup></span>Mas Jesus, voltando-se para elas, disse: «Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos, <span style="color:red"><sup>29</sup></span>porque eis que vêm dias em que dirão: "Felizes as estéreis, os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram". <span style="color:red"><sup>30</sup></span>Começarão, então, ''a dizer aos montes'': ''"Caí sobre nós", e às colinas: "Escondei-nos". ''<span style="color:red"><sup>31</sup></span>Porque se fazem isto com o madeiro verde, o que acontecerá com o seco?». <span style="color:red"><sup>32</sup></span>Levavam também com Ele outros dois malfeitores para serem executados.
Crucificação de Jesus (Mt 27,32-44; Mc 15,21-32; Jo 19,17-27.29) – <span style="color:red"><sup>33</sup></span>Quando chegaram ao lugar chamado Caveira, ali o crucificaram, bem como aos dois malfeitores, um à direita e o outro à esquerda. <span style="color:red"><sup>34</sup></span>Jesus dizia: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem». ''Dividiram, então, as suas vestes, lançando sortes''<ref name="ftn350">Há outras referências aos Salmos, nos vv. 35.36.46.49, como também ao Êxodo (v. 44) e a Zacarias (v. 48). Estas alusões ao AT tendem a demonstrar que, na paixão de Jesus, se realizam as Escrituras (Lc 24,25-27.44-46).</ref>''.'' <span style="color:red"><sup>35</sup></span>O povo estava presente a ''observar''. E os chefes, por sua vez, ''troçavam'', dizendo: «Salvou outros, que se salve a si mesmo, se é o Cristo de Deus, o eleito!»<ref name="ftn351">O silêncio contemplativo do povo é posto em contraste com a ironia incrédula dos chefes. ''Eleito'' é um título que alude à palavra do Pai, em 9,45, retomando Is 49,7, onde designa o Servo escolhido por Deus para a sua obra de salvação e desprezado pelos homens.</ref>. <span style="color:red"><sup>36</sup></span>Também os soldados o escarneciam. Aproximando-se, ofereciam-lhe ''vinagre'', <span style="color:red"><sup>37</sup></span>dizendo: «Se Tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!».
<span style="color:red"><sup>38</sup></span>Por cima dele havia um letreiro: «Este é o rei dos judeus». <span style="color:red"><sup>39</sup></span>Um dos malfeitores suspenso na cruz<ref name="ftn352">Lit.: ''um dos suspensos.''</ref> blasfemava contra Ele, dizendo: «Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!». <span style="color:red"><sup>40</sup></span>Mas o outro, em resposta, repreendendo-o severamente, afirmou: «Nem a Deus temes, tu que estás sujeito à mesma pena?»<ref name="ftn353">Lit.: ''tu que estás na mesma condenação.''</ref>. <span style="color:red"><sup>41</sup></span>Para nós é justo, pois recebemos o que as nossas ações mereciam, mas este nada fez de errado». <span style="color:red"><sup>42</sup></span>E dizia: «Jesus, recorda-te de mim quando fores para o teu reino». <span style="color:red"><sup>43</sup></span>Ele disse-lhe: «Amen te digo: hoje estarás comigo no paraíso».
Morte de Jesus (Mt 27,45-56; Mc 15,33-41; Jo 19,25.28-30) – <span style="color:red"><sup>44</sup></span>Era já quase a hora sexta e fez-se trevas sobre toda a terra até à hora nona<ref name="ftn354">A ''hora sexta'' corresponde ao meio-dia e a ''hora nona'' aproximadamente às três horas da tarde.</ref>, <span style="color:red"><sup>45</sup></span>quando o sol se eclipsou<ref name="ftn355">Alguns traduzem por ''o sol escureceu'', uma expressão que se encontra em Is 13,10 e Qo 12,2. O sol que se eclipsa sobre toda a terra é um fenómeno que evoca Ex 10,22.</ref><nowiki>; o véu do templo rasgou-se</nowiki><ref name="ftn356">Certamente o pano que tapa o Santo dos Santos (Ex 26,33). O facto de rasgar-se sugere o livre acesso a Deus (Heb 6,19-20; 9,3.6-12), assim como o fim de uma etapa e o início de uma outra, no processo da história da salvação.</ref> a meio e <span style="color:red"><sup>46</sup></span>Jesus, clamando com voz forte, disse: «Pai'', em tuas mãos entrego o meu espírito''»<ref name="ftn357">Jesus reza com o Sl 31,6, mas introduz a petição com a palavra ''Pai'' (10,21; 22,42; 23,34).</ref>. Dito isto, expirou.
<span style="color:red"><sup>47</sup></span>Ao ver o que acontecera, o centurião glorificava Deus, dizendo: «Realmente, este homem era justo!»<ref name="ftn358">Ao afirmar que Jesus era justo, o centurião declara a sua inocência (como Pilatos, em 23,4.14.22). Mt e Mc usam o título ''Filho de Deus'', mas Lc troca-o por ''justo'', provavelmente para evitar que um título assim, nos lábios de um pagão, pudesse gerar equívocos.</ref>. <spanstyle="color:red"><sup>48</sup></span>Todas as multidões que tinham comparecido para aquele espetáculo, ao observar o que acontecera, voltavam batendo no peito. <span style="color:red"><sup>49</sup></span>Estavam presentes, mas ao longe, a ver estas coisas, todos os seus conhecidos, bem como as mulheres que o seguiam desde a Galileia.
Sepultura de Jesus (Mt 27,57-61; Mc 15,42-47; Jo 19,38-42) – <span style="color:red"><sup>50</sup></span>Eis que havia um homem, de nome José, um membro do Conselho, homem bom e justo. <span style="color:red"><sup>51</sup></span>Este não tinha concordado com a decisão nem com o procedimento deles. Era de Arimateia, cidade dos judeus, e esperava o reino de Deus. <span style="color:red"><sup>52</sup></span>Este, indo ter com Pilatos, pediu o corpo de Jesus. <span style="color:red"><sup>53</sup></span>Ao descê-lo da cruz<ref name="ftn359">''Da cruz'' é acrescento da tradução.</ref>, envolveu-o num lençol e pô-lo num sepulcro escavado na rocha<ref name="ftn360">''Na rocha ''é acrescento da tradução.</ref>, onde ainda ninguém tinha sido posto. <span style="color:red"><sup>54</sup></span>Era o dia da preparação, e estava a despontar o sábado. <span style="color:red"><sup>55</sup></span>Seguiram-no as mulheres que tinham vindo com Ele desde a Galileia; observaram o sepulcro e como fora posto o seu corpo. <span style="color:red"><sup>56</sup></span>Ao regressarem, prepararam aromas e perfumes, e no sábado repousaram segundo o mandamento.
24 O sepulcro vazio e anúncio da ressurreição (Mt 28,1-8; Mc 16,1-4; Jo 20,1-13) – <span style="color:red"><sup>1</sup></span>Mas, no primeiro dia da semana, ao amanhecer, foram ao sepulcro levando os aromas que tinham preparado<ref name="ftn361">As mulheres voltam ao túmulo a fim de concluir os ritos da sepultura de Jesus que tinham ficado incompletos em virtude de, quando Jesus foi descido da cruz, já estar a aproximar-se o sábado. Levaram os aromas que tinham preparado (23,56).</ref>. <span style="color:red"><sup>2</sup></span>Encontraram a pedra removida<ref name="ftn362">Lit.: ''rolada''.</ref> do sepulcro <span style="color:red"><sup>3</sup></span>e, ao entrarem, não encontraram o corpo do Senhor Jesus<ref name="ftn363">A expressão ''Senhor Jesus'' é única no evangelho e frequente em Atos (1,21; 8,16; 11,20; 15,11; etc.). Sublinha a nova condição de Jesus ressuscitado.</ref>. <span style="color:red"><sup>4</sup></span>E aconteceu que, estando elas perplexas com isto, eis que se lhes apresentaram dois homens em vestes resplandecentes. <span style="color:red"><sup>5</sup></span>Estando elas cheias de medo, e com o rosto inclinado para a terra, eles disseram-lhes: «Porque procurais entre os mortos aquele que está vivo<ref name="ftn364">Jesus ressuscitado é agora designado ''vivo'' ou ''vivente'', título que o AT usa para Deus (Js 3,10; Jz 8,19; 1Sm 14,39).</ref>? <span style="color:red"><sup>6</sup></span>Não está aqui; ressuscitou. Recordai-vos de como vos falou quando ainda estava na Galileia, <span style="color:red"><sup>7</sup></span>dizendo: «É necessário o Filho do Homem ser entregue às mãos de homens pecadores, ser crucificado e ao terceiro dia ressuscitar».
<span style="color:red"><sup>8</sup></span>Recordaram-se, então, das suas palavras <span style="color:red"><sup>9</sup></span>e, ao voltar do sepulcro, anunciaram tudo isto aos onze e a todos os outros. <span style="color:red"><sup>10</sup></span>Eram Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago<ref name="ftn365">Lit.: ''Maria de Tiago''.</ref>, e as outras que estavam com elas. Diziam estas coisas aos apóstolos, <span style="color:red"><sup>11</sup></span>mas estas palavras pareceram-lhes sem sentido e não acreditavam nelas. <span style="color:red"><sup>12</sup></span>Mas Pedro, levantando-se, correu para o sepulcro e, debruçando-se, viu apenas as ligaduras de linho. E voltou para casa, admirado com o sucedido.
Aparição aos discípulos de Emaús (Mc 16,12s) – <span style="color:red"><sup>13</sup></span>E eis que nesse mesmo dia dois deles estavam a caminho de uma povoação, de nome Emaús, que distava sessenta estádios<ref name="ftn366">60 estádios correspondem a c. 12 quilómetros. Alguns testemunhos falam de 160 estádios (c. 32 quilómetros), levando a localização de Emaús para Amwas. O assunto é muito discutido e nada consensual.</ref> de Jerusalém. <span style="color:red"><sup>14</sup></span>Eles conversavam um com o outro acerca de tudo o que acontecera.
<span style="color:red"><sup>15</sup></span>E aconteceu que, enquanto eles conversavam e debatiam, o próprio Jesus, aproximando-se, pôs-se a caminhar com eles. <span style="color:red"><sup>16</sup></span>Os seus olhos, porém, estavam impedidos de o reconhecer.
<span style="color:red"><sup>17</sup></span>Disse-lhes, então: «Que palavras são essas que trocais entre vós enquanto caminhais?». Pararam com ar pesaroso. <span style="color:red"><sup>18</sup></span>Um deles, de nome Cléofas, respondendo disse-lhe: «Serás Tu o único forasteiro em Jerusalém a não saber o que lá aconteceu nestes dias?». <span style="color:red"><sup>19</sup></span>E Ele disse-lhes: «O quê?». Eles disseram-lhe: «O que diz respeito a Jesus de Nazaré, que se tornou um profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo, <span style="color:red"><sup>20</sup></span>de tal modo que os chefes dos sacerdotes e os nossos magistrados o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. <span style="color:red"><sup>21</sup></span>Nós esperávamos que fosse Ele quem estava prestes a resgatar Israel, mas, com tudo isto, já lá vai o terceiro dia desde que estas coisas aconteceram. <span style="color:red"><sup>22</sup></span>No entanto, algumas mulheres de entre nós deixaram-nos espantados: tendo estado de manhã cedo junto ao sepulcro, <span style="color:red"><sup>23</sup></span>ao não encontrarem o seu corpo, vieram dizer que tinham tido uma visão de uns anjos que dizem que Ele está vivo. <span style="color:red"><sup>24</sup></span>Alguns dos que estão connosco foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres haviam dito; mas a Ele não o viram».
<span style="color:red"><sup>25</sup></span>Então Ele disse-lhes: «Ó desprovidos de inteligência e lentos de coração para acreditar em tudo quanto disseram os Profetas! <span style="color:red"><sup>26</sup></span>Não era necessário que o Cristo sofresse estas coisas, para entrar na sua glória?». <span style="color:red"><sup>27</sup></span>E, começando a partir de Moisés<ref name="ftn367">Moisés (i.e., a Lei) e os Profetas constituíam o essencial da Escritura (16,16.29-31; 24,44; At 24,14; 28,23), tal como era lido no culto sinagogal (At 13,15).</ref> e de todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, o que a Ele dizia respeito.
<span style="color:red"><sup>28</sup></span>Aproximaram-se da povoação para onde iam, e Ele fez menção de seguir adiante, <span style="color:red"><sup>29</sup></span>mas eles insistiram com Ele, dizendo: «Fica connosco, porque é tarde e o dia já está a declinar». Entrou, então, para permanecer com eles. <span style="color:red"><sup>30</sup></span>E aconteceu que, quando Ele se reclinou com eles à mesa, tomando o pão, pronunciou a bênção<ref name="ftn368">Lc utiliza um vocabulário eucarístico (22,9 e 9,16) para fazer sentir aos seus leitores que é na (pela) fração do pão (At 2,42.46; 20,7.11) que podem encontrar Jesus. </ref> e, partindo-o, deu-lho. <span style="color:red"><sup>31</sup></span>Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-no, mas Ele deixou de lhes ser visível. <span style="color:red"><sup>32</sup></span>Diziam, então, um ao outro: «Não nos ardia o nosso coração quando Ele no caminho nos falava, quando nos abria as Escrituras?».
<span style="color:red"><sup>33</sup></span>E, levantando-se, nessa mesma hora voltaram para Jerusalém. Encontraram reunidos os onze e os que estavam com eles, <span style="color:red"><sup>34</sup></span>que diziam: «Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão». <span style="color:red"><sup>35</sup></span>Então eles contaram o que acontecera no caminho, e como Ele se lhes dera a conhecer na fração do pão.
Jesus aparece aos Onze (Mc 16,14-19; Jo 20,19-23) – <span style="color:red"><sup>36</sup></span>Enquanto eles falavam disto, Ele apresentou-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!», <span style="color:red"><sup>37</sup></span>mas, aterrorizados e assustados, pensavam estar a ver um espírito.
<span style="color:red"><sup>38</sup></span>Disse-lhes: «Porque estais perturbados e por que razão surgem esses pensamentos no vosso coração? <span style="color:red"><sup>39</sup></span>Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo. Tocai-me e vede, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho».
<span style="color:red"><sup>40</sup></span>Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. <span style="color:red"><sup>41</sup></span>E dado que, de alegria, ainda não acreditavam e estavam admirados, disse-lhes: «Tendes aqui alguma coisa para comer?». <span style="color:red"><sup>42</sup></span>Eles deram-lhe um pedaço de peixe assado. <span style="color:red"><sup>43</sup></span>Tomando-o, comeu diante deles<ref name="ftn369">Com a referência ao ressuscitado que come, Lc quer sublinhar a realidade corpórea da ressurreição, assunto de difícil aceitação pelos leitores de cultura grega (At 17,32; 1Co 15,12).</ref>.
Missão dos discípulos – <span style="color:red"><sup>44</sup></span>Disse-lhes, então: «Estas são as minhas palavras, que vos disse enquanto estava convosco: "É necessário que se cumpra tudo o que está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos acerca de mim».
<span style="color:red"><sup>45</sup></span>Abriu-lhes, então, a inteligência para entenderem as Escrituras. <span style="color:red"><sup>46</sup></span>E disse-lhes: «Assim está escrito que o Cristo havia de sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, <span style="color:red"><sup>47</sup></span>e que havia de ser proclamada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos. Começando por Jerusalém, <span style="color:red"><sup>48</sup></span>vós sois testemunhas destas coisas. <span style="color:red"><sup>49</sup></span>E eis que Eu vou enviar sobre vós a promessa do meu Pai<ref name="ftn370">''A promessa de meu Pai'' é o Espírito Santo (Jo 20,22). É o primeiro anúncio do Pentecostes (At 1,8; 2,33).</ref><nowiki>; vós, ficai na cidade</nowiki><ref name="ftn371">A cidade referida é Jerusalém, ponto de partida da mensagem salvífica (Lc 1,5-25) e de chegada da missão de Jesus (9,51). Será também o centro de irradiação da mensagem apostólica (At 1,8). Sobre a ligação entre o Espírito e a força, cf. Lc 1,35.</ref> até serdes revestidos com o poder do alto».
Ascensão de Jesus (Mc 16,19s) – <span style="color:red"><sup>50</sup></span>Então levou-os para fora até junto de Betânia e, erguendo as suas mãos, abençoou-os. <span style="color:red"><sup>51</sup></span>E aconteceu que, enquanto Ele os abençoava, ia-se afastando deles e era elevado ao céu. <span style="color:red"><sup>52</sup></span>E eles, depois de se ajoelharem diante dele, voltaram para Jerusalém com grande alegria, <span style="color:red"><sup>53</sup></span>e estavam continuamente no templo a bendizer a Deus<ref name="ftn372">Estes vv. são a conclusão do evangelho: o ressuscitado abençoa os seus (At 3,26) que o adoram como Senhor. No v. 53, o evangelho termina onde havia começado, no templo (1,8), formando uma grande inclusão literária.</ref>.


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Latest revision as of 19:26, 23 December 2019

Nascimento de Jesus – 1Ora aconteceu que, naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto[1] para ser recenseado todo o mundo habitado. 2Este primeiro recenseamento realizou-se quando Quirino[2] era governador da Síria.

3E todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. 4Também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, para a Judeia, para a cidade de David[3], que se chamava Belém, por ele ser da casa e da linhagem de David, 5a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que estava grávida.

6Mas aconteceu que, enquanto ali estavam, cumpriram-se os dias de ela dar à luz. 7E deu à luz o seu Filho primogénito, envolveu-o em panos e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria[4].

8Estavam na mesma região uns pastores[5] que pernoitavam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite. 9Apresentou-se-lhes, então, um anjo do Senhor, e a glória do Senhor[6] envolveu-os de luz, e tiveram um grande medo. 10Disse-lhes o anjo: «Não tenhais medo! Eis que vos anuncio uma boa nova, que será uma grande alegria para todo o povo: 11nasceu-vos hoje, na cidade de David, um salvador[7] que é Cristo Senhor. 12E isto será para vós o sinal: encontrareis uma criança envolta em panos e deitada numa manjedoura».

13E de imediato juntou-se ao anjo uma multidão do exército celeste que louvava Deus, dizendo:

14«Glória a Deus nas alturas

e paz[8] na terra

entre os homens de boa vontade[9]».

15E aconteceu que, quando os anjos se afastaram deles para o céu, os pastores diziam uns aos outros: «Vamos até Belém, vejamos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer». 16Foram, então, com pressa e encontraram Maria, José e a criança deitada na manjedoura. 17Ao vê-los, deram a conhecer o que lhes tinha sido dito[10] acerca daquele menino. 18E todos os que ouviam se admiravam com o que lhes era dito pelos pastores.

19Maria, porém, conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração. 20E os pastores regressaram, glorificando[11] e louvando Deus por tudo o que tinham ouvido e visto, tal como lhes fora dito.

21Quando se cumpriram os oito dias para o circuncidar, foi chamado com o nome Jesus, o que fora dado pelo anjo antes de ter sido concebido no ventre materno[12].


Apresentação de Jesus no templo e cântico de Simeão – 22Quando se cumpriram os dias da purificação deles[13], segundo a Lei de Moisés, levaram-no[14] a Jerusalém para o apresentar ao Senhor, 23como está escrito na Lei do Senhor: Todo o primogénito macho será consagrado ao Senhor[15], 24e para oferecer um sacrifício segundo o que está dito na Lei do Senhor: um par de rolas ou duas pequenas pombas[16].

25Ora, eis que havia em Jerusalém um homem cujo nome era Simeão, um homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel, e o Espírito Santo estava sobre ele[17]. 26Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que não veria a morte antes de ver o Cristo do Senhor. 27E veio ao templo movido pelo Espírito[18]. Quando os pais trouxeram o menino Jesus, para com Ele procederem segundo o costume da Lei, 28Simeão[19] acolheu-o nos braços, bendisse a Deus e disse:

29«Agora, Senhor, podes deixar partir

em paz o teu servo segundo a tua palavra[20],

30porque os meus olhos viram a tua salvação

31que preparaste diante de todos os povos:

32luz para revelação aos pagãos

e glória do teu povo, Israel».

33O seu pai e a mãe estavam admirados com o que estava a ser dito sobre Ele. 34Então Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua mãe[21]: «Eis que Ele está aqui para a queda e o ressurgir de muitos em Israel e para ser um sinal de contradição – 35e uma espada trespassará a tua própria alma – a fim de se revelarem os pensamentos de muitos corações».

36Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Asser. Era de idade muito avançada[22], tinha vivido com o marido sete anos, desde a sua virgindade, 37e viúva até aos oitenta e quatro anos. Não se afastava do templo, prestando culto noite e dia com jejuns e orações. 38Tendo chegado naquela hora, agradecia a Deus e falava acerca dele a todos os que esperavam a redenção[23] de Jerusalém.

39Quando cumpriram tudo segundo a Lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré. 40O menino crescia e fortalecia-se, enchendo-se de sabedoria, e a graça de Deus estava sobre Ele.


Jesus entre os doutores, no templo – 41Os seus pais iam todos os anos a Jerusalém[24] para a festa da Páscoa 42e, quando fez doze anos[25], eles subiram até lá segundo o costume da festa. 43E, completados os dias, quando regressavam a casa, o menino[26] Jesus ficou em Jerusalém sem que os seus pais soubessem. 44Pensando que Ele estava na caravana, percorreram um dia de caminho e procuravam-no entre os parentes e os conhecidos. 45Não o tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura.

46E aconteceu que, três dias depois, o encontraram no templo, sentado no meio dos mestres, a ouvi-los e a interrogá-los. 47Todos os que o ouviam estavam espantados com a sua inteligência e as suas respostas.

48Ao vê-lo, ficaram perplexos, e sua mãe disse-lhe: «Filho, porque nos fizeste isto? Eis que teu pai e eu estávamos aflitos à tua procura». 49Ele disse-lhes, então: «Porque me procuráveis? Não sabíeis que é necessário[27] que Eu esteja na casa de meu Pai?»[28]. 50Mas eles não entenderam o que[29] lhes disse.

51Desceu, então, com eles, foi para Nazaré e era-lhes submisso. Sua mãe conservava todas estas palavras no seu coração. 52E Jesus crescia em sabedoria, em idade e em graça, junto de Deus e dos homens[30].



  1. César Augusto foi imperador de Roma entre 27 a. C. e 14 d. C.. Este recenseamento deve ter ocorrido no ano 6 d.C., dez anos depois da morte de Herodes, o Grande, quando Jesus tinha c. doze anos. Escrevendo à distância e sem dados históricos precisos, Lc adianta uma data aproximada, com o intento de enquadrar historicamente o acontecimento. A expressão todo o mundo habitado designava, na altura, o império romano.
  2. Trata-se de Públio Sulpício Quirino, governador da província romana da Síria, entre 4 e 1 a.C., e responsável pela política romana no Médio Oriente.
  3. No AT, a cidade de David é sempre Jerusalém (2Sm 5,7.9; 6,10.12; Is 22,9). A atribuição deste título a Belém deve ter a ver com Mq 5,1 (1Sm 16,1; Mt 2,6; Jo 7,42).
  4. A hospedaria ou sala dos hóspedes (katályma, em grego; em 22,11 o termo designa a sala da última ceia) estaria sobrelotada e, por razões de recato e de pureza ritual, não era o lugar adequado para dar à luz. Maria ter-se-ia recolhido ao curral dos animais, como sugere a palavra manjedoura (neste v. e também no v. 12). Não se trata seguramente de uma estalagem, porque, para se referir a ela, Lc usa a palavra pandokheîon (10,34).
  5. Em virtude do seu ofício (viviam afastados da prática religiosa e lidavam com animais impuros), os pastores eram considerados marginais. Numa clara ilustração da teologia lucana (a salvação destina-se, em primeiro lugar, aos excluídos), eles são os primeiros destinatários da mensagem (1,52).
  6. A expressão glória do Senhor é usada também no relato da transfiguração (9,32), nas narrativas pascais (24,26) e nas referências à vinda escatológica (9,26; 21,27).
  7. Salvador é um título que o AT reserva para Deus. No NT é usado com frequência para Jesus (Jo 4,42; At 5,31; 13,23; Ef 5,23; Fl 3,20; 2 Pd 1,1.11; 2,20). Messias Senhor (cf. v. 26) é o título messiânico usado pelo AT (versão grega), ao passo que o NT usa Cristo Senhor.
  8. Glória a Deus (Sl 148,1) e paz na terra (Is 9,5s; 52,7; 57,19; Mq 5,4; Ef 2,14-17; Lc 1,79) são os sinais claros da paz messiânica, em substituição da pax romana.
  9. Em grego eudokía (benevolência).
  10. Lit.: deram a conhecer acerca da palavra (rhḗma) que lhes tinha sido falada.
  11. Depois das manifestações divinas e dos milagres, Lc refere que os presentes dão glória a Deus (5,25.26; 7,16; 13,13; 17,15.18; At 4,21) e lhe dirigem o louvor (18,43; 19,37; At 3,8.9).
  12. Lit.: no ventre.
  13. A Lei prescrevia a apresentação da mãe no templo (Lv 12,1-8), mas não a do menino.
  14. Lit.: subiram-no.
  15. Lit.: todo o varão que rasga a mãe, santo para o Senhor será chamado.
  16. Sobre a lei do resgate, cf. Ex 34,20; Nm 18,15-16. Nada se diz sobre o resgate de Jesus, mas sim sobre a purificação da mãe: duas rolas ou duas pombas (Lv 12,8).
  17. Ou o Espírito [que estava] sobre ele era Santo.
  18. Lit.: no Espírito.
  19. Lit.: ele.
  20. Para melhor compreender o cântico de Simeão (Nunc dimittis), onde se revelam alguns dos traços da missão do menino, cf. Is 40,5; 42,6; 45,25; 46,13; 49,6; 52,10.
  21. O oráculo de Simeão tem Maria como único destinatário e parece pressupor o conhecimento de Jo 19,25.
  22. Lit.: ela era muito avançada nos dias; cf. Sl 23,6; 26,8; 27,4; 84,5.11.
  23. Lit.: resgate, como no caso da lei dos primogénitos (v. 7).
  24. A Lei de Moisés sugeria que os judeus deveriam fazer três peregrinações por ano (Ex 23,14-17; 34,22-23; Dt 16,16). Talvez Lc se inspire em 1Sm 1,3.7.
  25. Era pelos doze anos que o rapaz israelita se tornava filho do preceito (bar-mitsvāh).
  26. O termo grego paîs (criança, menino) é diferente do paidíon do v. 40 (que normalmente designa um menino até cerca dos sete anos).
  27. O deî grego expressa frequentemente nos evangelhos uma necessidade teológica.
  28. A expressão meu Pai, motivo da incompreensão de Maria e José (v. 50), volta a aparecer no final do evangelho (23,46; 24,49), em jeito de inclusão.
  29. Lit.: a palavra que.
  30. Cf. 1,80; 2,40. Esta conclusão parece inspirar-se em 1Sm 2,21.26.



Capítulos

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