Introducao:

From Biblia: Os Quatro Evangelhos e os Salmos
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1. Iniciamos, com a presente edição dos Quatro Evangelhos e dos Salmos, a publicação da tradução da Sagrada Escritura, promovida e aprovada pela Conferência Episcopal Portuguesa e, quando completa, a ser ratificada pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Trata-se portanto de uma nova tradução para uso oficial da Igreja Católica em Portugal e, futuramente, nos outros Países Lusófonos em que se segue a tradução portuguesa dos livros litúrgicos – Angola, Cabo Verde, Guiné, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor.

Está assim a realizar-se um desejo que remonta, pelo menos, ao tempo a seguir ao II Concílio Ecuménico do Vaticano, que aprovou a celebração da Liturgia em línguas vernáculas. Já então, várias figuras da Igreja em Portugal, peritas nomeadamente em ciências litúrgicas e bíblicas, reconheciam que uma tradução para uso oficial da Bíblia se não devia confinar aos textos inseridos em livros litúrgicos. O que na altura, por várias razões, não foi possível, ficou finalmente decidido pela Conferência Episcopal Portuguesa em 2012, o ano em que se iniciou o processo de tradução, de que fazem parte os livros bíblicos agora publicados.

Na origem dessa decisão esteve, antes de mais, a urgência de uma revisão das traduções litúrgicas dos textos bíblicos em uso: por falta de uniformidade, sobretudo entre lecionários e liturgia das horas; por algumas omissões, imprecisões e até erros de tradução; por, em muitos textos, se não obedecer às normas, entretanto promulgadas pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, para a tradução de textos litúrgicos (Instrução Liturgiam Authenticam de 28.3.2001).

Mas, no mesmo documento, a Congregação apela também a que a tradução abranja toda a Sagrada Escritura. Provavelmente porque a Bíblia, por um lado, como palavra de Deus, alimenta a Igreja, em todos os âmbitos da sua vida: não só o litúrgico, mas também o caritativo e, de modo especial, o formativo, em que os textos bíblicos a que se recorre vão muito para além dos que são usados na Liturgia. Por outro lado, há uma relação profunda entre a Liturgia e, particularmente, as atividades formativas, designadamente na Catequese e na Educação Moral e Religiosa Católica, relação essa que exige uma tradução integral e uniforme, isto é, que obedeça às mesmas normas e critérios de tradução emanados pela referida Congregação romana e, recentemente, pela carta apostólica em forma de Motu Proprio, Magnum Pricipium do Papa Francisco (3.9.2017).


2. Na prática, são critérios comuns a qualquer boa tradução e podem agrupar-se, fundamentalmente, em dois:

– Exige-se, por um lado, que a tradução seja literal, isto é, que transmita, tanto quanto possível, tudo o que os textos exprimem nas línguas originais: hebraico e aramaico, na maioria do Antigo Testamento, e grego, nalguns livros do Antigo Testamento e em todos os do Novo.

– Por outro lado e, no fundo, pela mesma razão, a tradução tem de ser compreensível para leitores e, sobretudo, ouvintes de hoje, já que se trata de uma tradução para, primariamente, ser proclamada de viva voz.

São dois critérios difíceis de conjugar, devido sobretudo à distância temporal, espacial e cultural, entre a língua que é traduzida e aquela para a qual se traduz. É específico, por exemplo, da cultura e das línguas semíticas, em que se formou sobretudo o Antigo Testamento, o recurso ao símbolo ou à simples metáfora. Sendo esse, além disso e como é comumente reconhecido, o meio mais apropriado para exprimir realidades transcendentes, deve, por princípio, conservar-se na tradução essa riqueza simbólica e metafórica. Se, porém, não é minimamente compreensível, em todos os contextos literários e para os leitores de hoje, poderá substituir-se por termos mais conceptualizados. Mas, num caso como no outro, exige-se uma nota explicativa. Para alguns dos muitos exemplos, veja-se a introdução aos Evangelhos, nas páginas seguintes.


3. Devido a estas e outras normas e consequentes dificuldades e, acima de tudo, por se tratar da palavra de Deus, de que vive o seu Povo, e que, por isso, nos merece um respeito sagrado, procurámos que o processo de tradução em curso corresponda a tais exigências, designadamente nos seguintes pontos:

– Está a ser conduzido, por delegação da Conferência Episcopal Portuguesa, em simultâneo, pela Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade e a Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé e respetivos secretariados.

– Tem, desde o início, a colaboração de tradutores que pertencem na sua maioria à Associação Bíblica Portuguesa.

– Além desses, colaboram outros, de vários Países Lusófonos, todos eles versados em ciências bíblicas.

– Decorre sob a orientação de uma Comissão Coordenadora de todo o processo e de duas Subcomissões Científicas para a revisão e unificação de critérios dos diferentes textos traduzidos, respetivamente, do hebraico e aramaico, por um lado, e do grego, por outro.

– Cada livro bíblico percorre, até à versão definitiva, os seguintes passos e na ordem exposta: tradução a partir das línguas originais, acompanhada de introdução e notas explicativas, por um biblista que conheça bem o respetivo livro; revisão e harmonização, em relação a outros livros, da tradução inicial, pela correspondente Subcomissão; revisões da tradução, sob os pontos de vista, primeiramente, literário e, depois, litúrgico, por especialistas nas disciplinas correspondentes. Qualquer destas correções é posta, tanto quanto possível, à consideração do biblista que iniciou a tradução. O processo só termina com a aprovação pelas Conferências Episcopais dos Países em que a tradução é oficializada e pela ratificação da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.


4. À presente tradução dos Evangelhos e dos Salmos falta ainda essa confirmação final. Isto é, trata-se apenas de uma tradução ad experimentum. Não por falta de cuidado na sua elaboração, mas exatamente pela razão oposta: devido à especial consideração que, entre todos os livros bíblicos, nos merecem os Quatro Evangelhos e os Salmos. São e sempre foram, sobretudo na Liturgia cristã, os mais lidos, refletidos e rezados.

Decidimos, por isso, não aprovar e publicar a edição definitiva, sem antes sujeitarmos a presente versão à apreciação dos leitores de língua portuguesa, cristãos ou não. Queremos que a versão final seja, o mais possível, fruto daquela participação sinodal na vida da Igreja, especialmente preconizada a partir do II Concílio Ecuménico do Vaticano e ultimamente reforçada pelo Papa Francisco.

Agradecemos, por isso e desde já, todas as correções e sugestões que nos forem feitas. Medi-las-emos, obviamente, pelos referidos critérios que presidem à tradução. Podem ser enviadas, por escrito, para: Secretariado Nacional da Educação Cristã, Estrada da Buraca N.ºs 8-12, 1549-025 Lisboa; ou: Secretariado Nacional de Liturgia, Apartado 10, 2496-908 Fátima; ou, ainda e de preferência, para o endereço eletrónico: biblia.cep@gmail.com.


† Anacleto Oliveira

Bispo de Viana do Castelo

Presidente da Comissão Coordenadora