Sl 105

From Biblia: Os Quatro Evangelhos e os Salmos
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105(104) Deus e a história de Israel

 

1 Louvai o Senhor, aclamai o seu nome[1],

dai a conhecer entre os povos os seus prodígios.

2 Cantai, entoai hinos em sua honra,

proclamai todas as suas maravilhas.

3 Gloriai-vos no seu santo nome;

alegre-se o coração dos que procuram o Senhor.

4 Recorrei ao Senhor e ao seu poder,

buscai continuamente a sua face.

5 Recordai as maravilhas que Ele fez,

os seus prodígios e as sentenças da sua boca[2],

6 vós que sois descendentes de Abraão, seu servo,

e filhos de Jacob, seu escolhido.

7 Ele é o Senhor, nosso Deus,

por toda a terra vigoram as suas sentenças.

8 Ele lembra-se eternamente da sua aliança[3],

da palavra que estabeleceu por mil gerações,

9 do pacto que fez com Abraão

e do juramento que fez a Isaac.

10 Ele confirmou-a como lei para Jacob,

como aliança eterna para Israel.

11 Pois disse: «A ti darei a terra de Canaã,

como parte que vos cabe em herança».


12 Eles eram, então, um pequeno número[4],

poucos e estrangeiros naquela terra;

13 iam vagueando de povo em povo[5]

e de um reino para outra nação.

14 Ele não permitiu que ninguém os oprimisse

e castigou reis por causa deles:

15 «Não toqueis nos meus ungidos,

não maltrateis os meus profetas».


16 Depois, chamou a fome sobre aquela terra,

destruindo todas as searas de pão.

17 Enviou à frente deles um homem

que fora vendido como escravo, José.

18 Prenderam-lhe os pés com grilhões

e o pescoço, numa argola de ferro,

19 até ao tempo em que se realizou a sua palavra

e a declaração do Senhor lhe deu razão.

20 Enviou então um rei, para que o soltassem[6],

e um soberano de povos, para lhe abrir a porta.

21 Este nomeou-o senhor da sua casa

e governador de todos os seus bens,

22 para instruir por si mesmo os seus príncipes

e tornar sábios os seus anciãos[7].


23 Foi então que Israel entrou para o Egito,

Jacob foi como imigrante para o país de Cam.

24 Deus fez frutificar grandemente o seu povo

e tornou-o mais forte do que os seus adversários.

25 Mudou o coração dos outros e passaram a odiar o povo de Deus,

tratando com artimanhas os seus servos.


26 Enviou então o seu servo Moisés

e Aarão, que foi o seu escolhido.

27 Estes realizaram maravilhas entre os egípcios

e prodígios no país de Cam[8].

28 Enviou as trevas e tudo escureceu[9],

mas eles não fizeram caso das suas palavras.

29 Converteu as suas águas em sangue

e fez morrer todos os seus peixes.

30 Encheu de rãs todo o seu país,

até nos aposentos do seu rei.

31 Deus ordenou e chegaram nuvens de insetos

e mosquitos, por todo o seu território.

32 Em vez das chuvas deu-lhes granizo

e línguas de fogo por todo o país.

33 Destruiu as suas vinhas e figueiras[10]

e destroçou as árvores do seu território.

34 Deu ordens e chegaram os gafanhotos

e larvas, em número incalculável;

35 devoraram toda a verdura dos campos

e comeram os frutos das suas terras.

36 Feriu de morte todos os primogénitos do país,

as primícias de todo o seu vigor.


37 Fê-los[11] sair levando prata e ouro,

e ninguém fraquejou entre as suas tribos[12].

38 Alegrou-se o Egito com a saída deles,

pois recaíra sobre eles o medo dos israelitas.

39 Estendeu uma nuvem de proteção

e um fogo para os iluminar à noite.

40 Pediram-lhe e chegaram as codornizes,

e saciou-os com pão do céu.

41 Abriu o rochedo e brotou água,

que corria pelo deserto como um rio.

42 Pois Ele lembrou-se da sua palavra sagrada

para com Abraão, seu servo,

43 e fez sair o seu povo com alegria

e os seus escolhidos com gritos de júbilo.


44 Entregou-lhes as terras de outros povos

e eles recolheram as riquezas das nações,

45 com o propósito de guardarem os seus preceitos

e observarem as suas leis[13].
Aleluia!



  1. Este é um salmo didático que se apresenta como uma meditação teológica e sapiencial sobre a experiência histórica dos israelitas. O seu espírito é o de um hino, tal como acontece com o Sl 78. Parte deste salmo, nomeadamente os vv. 1-15 aparecem em 1Cr 16,8-22 e este facto sugere que o salmo era utilizado na liturgia em ligação com a transferência da arca da aliança para o monte Sião. O salmo está quase inteiramente focado nos acontecimentos que marcam a memória dos hebreus e são provenientes da sua história. Os temas principais são: os patriarcas (8-15), José (16-23), Moisés (24-27), as pragas do Egito (28-36) e a chegada a Canaã (44-45). O que se pretende é inculcar a convicção de que é na fidelidade de Deus que assenta a grandeza de toda esta história e só pela fidelidade o povo se pode mostrar digno destes e de outros favores divinos. As referências aos episódios da história relembrada encontram-se nos lugares paralelos indicados para este mesmo salmo.
  2. Referência antecipada à narrativa sobre as pragas do Egito e outros inimigos de Israel nos vv. 28-36.
  3. Os vv. 8-10 resumem o tema da aliança com os patriarcas Abraão (Gn 12,7; 15,18), Isaac (Gn 26,3) e Jacob (Gn 28,13). Esta aliança com os patriarcas apresenta-se como o fundamento da aliança entre Deus e o povo de Israel.
  4. Sobre o tempo em que os patriarcas eram um pequeno número e considerados como estrangeiros, cf. Gn 34,30; 23,4; Heb 11,9.13.
  5. Nos vv. 13-15 há um resumo da vida seminómada dos patriarcas (Gn 12,26) e do castigo aplicado ao faraó (Gn 12,17), bem como a Abimélec (Gn 20,3; 26,11). A importância atribuída aos patriarcas faz com que sejam considerados ungidos ou consagrados a Deus e profetas, que são títulos de grande significado na religião bíblica.
  6. Ou: Um rei mandou que o soltassem. A leitura mais tradicional deste v. é a que se apresenta em nota. Esta interpretação faz do rei ou faraó o sujeito do verbo mandar/enviar. Parece, no entanto, que o sentido que se recolhe do original hebraico é o de que o verbo chalaḥ, que inicia a frase nos vv. 17,20,26,28 e tem sempre Deus como sujeito, o qual, nos momentos cruciais da história, envia agentes seus com uma missão específica, nomeadamente José, o rei-faraó, Moisés e finalmente as trevas. Exprimindo-se desta maneira o salmista está a declarar que todo o desenrolar desta história depende da intervenção de Deus. Com isto, toda a história se transforma em teologia.
  7. Os exegetas estão de acordo em que as narrativas sobre a personagem de José no Génesis têm a intenção de apresentá-lo como uma figura de sábio. Este salmo traduz a mesma perspetiva. Este pormenor é importante porque os próprios hebreus conheciam a fama de que o Egito era um povo de sábios.
  8. Segundo a nova geografia do mundo, repovoado depois do dilúvio, o Egito, que na Bíblia se chama Misraim, é também o nome de um dos filhos de Cam, segundo filho de Noé (Gn 10,6), tal como o próprio Canaã.
  9. O resumo das pragas do Egito segue a narrativa de Ex 7-11, mas numa ordem diferente. Começa pela nona e omite a quinta e a sexta (cf. também Sl 78,43-51).
  10. O sublinhar de vinhas e figueiras como sendo os piores estragos causados pelo granizo parece representar uma sensibilidade palestinense sobre os prejuízos que a referida praga costuma provocar.
  11. Refere-se aos israelitas que estão sempre implícitos no sentido do salmo (cf. Ex 12,35-36).
  12. Cf. Dt 8,4; 29,15.
  13. A conclusão (vv. 44-45) deste hino sobre a experiência histórica é que as obrigações implicadas na aliança (v. 8) foram cumuladas de benefícios pelas riquezas recebidas.



Salmos

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