Mt 26

From Biblia: Os Quatro Evangelhos e os Salmos
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IV
PAIXÃO, MORTE
E RESSURREIÇÃO DE JESUS
(26,1-28,20)


Determinação em matar Jesus (Mc 14,1s; Lc 22,1s; Jo 11,47-53) – 1E aconteceu que, quando Jesus acabou de dizer todas estas palavras[1], disse aos seus discípulos: 2«Vós sabeis que faltam dois dias para a Páscoa, e o Filho do Homem vai ser entregue para ser crucificado». 3Reuniram-se, então, os chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo no palácio do sumo-sacerdote, chamado Caifás[2], 4e concordaram em prender Jesus à traição e matá-lo. 5Mas diziam: «Não durante a festa, para não haver alvoroço entre o povo».


Unção em Betânia (Mc 14,3-9; Lc 7,36-50; Jo 12,1-8) – 6Estando Jesus em Betânia, em casa de Simão[3], o leproso, 7veio ter com Ele uma mulher que tinha um frasco de alabastro com um bálsamo muito dispendioso e derramou-lho sobre a cabeça, enquanto Ele estava reclinado à mesa. 8Ao ver isto, os discípulos indignaram-se, dizendo: «Para quê este desperdício? 9Podia vender-se a um bom preço e dar-se aos pobres». 10Sabendo disto, Jesus disse-lhes: «Porque importunais a mulher? De facto, praticou uma boa ação para comigo. 11Pois pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre tendes. 12Ela, ao derramar este bálsamo sobre o meu corpo, fê-lo para a minha sepultura. 13Amen vos digo: onde quer que seja proclamado este evangelho em todo o mundo, também o que ela fez será contado em sua memória»[4].


Traição de Judas (Mc 14,10s; Lc 22,3-6) – 14Então um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, indo ter com os chefes dos sacerdotes, 15disse: «Quanto quereis dar-me se eu vo-lo entregar?». Eles estabeleceram com ele trinta moedas de prata[5]. 16E, desde então, procurava uma boa oportunidade para o entregar.


Preparação da ceia pascal (Mc 14,12-16; Lc 22,7-13) – 17No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos foram ter com Jesus, dizendo: «Onde queres que te façamos os preparativos para comeres a Páscoa?»[6]. 18Ele disse: «Ide à cidade, a um certo homem, e dizei-lhe: "O Mestre diz: o meu tempo está próximo. Em tua casa farei a Páscoa com os meus discípulos"». 19Os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara e prepararam a Páscoa.


A ceia do Senhor (Mc 14,17-25; Lc 22,14-23; Jo 13,2.21-26; 1Cor 11,23-25) – 20Ao cair da tarde, reclinou-se à mesa com os Doze 21e, enquanto eles comiam, disse: «Amen vos digo: um de vós me há de entregar». 22Profundamente entristecidos, começou cada um a perguntar-lhe: «Não sou eu, Senhor, pois não?». 23Ele, respondendo, disse: «O que pôs comigo a mão no prato[7], esse me entregará. 24De facto, o Filho do Homem parte, tal como está escrito acerca dele, mas ai daquele homem por quem o Filho do Homem é entregue! Melhor seria para esse homem não ter nascido». 25Em resposta, Judas, que o ia entregar, disse: «Não sou eu, Rabi, pois não?». Ele disse-lhe: «Tu o disseste!».

26Enquanto eles comiam, Jesus tomou o pão e, pronunciando a bênção, partiu-o e, dando-o aos discípulos, disse: «Tomai, comei, este é o meu corpo». 27Tomando, então, um cálice[8] e dando graças, deu-lho dizendo: «Bebei todos dele, 28pois este é o meu sangue da aliança, derramado em favor de muitos[9] para o perdão dos pecados. 29Digo-vos: não mais beberei do fruto da videira, desde agora, até àquele dia em que convosco o hei de beber, novo, no reino do meu Pai».


Anúncio da negação de Pedro (Mc 14,26-31) – 30Depois de terem entoado os hinos[10], saíram para o Monte das Oliveiras. 31Disse-lhes, então, Jesus: «Esta noite todos vós caireis em escândalo por causa de mim, pois está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas serão dispersas do rebanho[11]. 32Mas, depois de Eu ter ressuscitado, irei à vossa frente para a Galileia». 33Pedro, em resposta, disse-lhe: «Ainda que todos caiam em escândalo por causa de ti, eu nunca cairei em escândalo». 34Disse-lhe Jesus: «Amen te digo: nesta noite, antes que o galo cante, três vezes me negarás». 35Disse-lhe Pedro: «Mesmo que seja necessário eu morrer contigo, jamais te negarei». E o mesmo disseram todos os discípulos.


Oração de Jesus no Getsémani (Mc 14,32-42; Lc 22,39-46) – 36Então Jesus foi com eles para uma propriedade chamada Getsémani[12] e disse aos discípulos: «Sentai-vos, enquanto vou ali rezar». 37Tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. 38Disse-lhes então: «Profundamente entristecida está a minha alma[13] até à morte; permanecei aqui e estai vigilantes comigo». 39E, indo um pouco adiante, caiu com o rosto por terra e rezava, dizendo: «Meu Pai, se é possível, que se aparte de mim este cálice; no entanto, não se faça como Eu quero, mas como Tu queres». 40Veio, então, ter com os discípulos, encontrou-os a dormir e disse a Pedro: «Nem uma hora fostes capazes de estar vigilantes comigo? 41Estai vigilantes e rezai para que não entreis em tentação, pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca». 42Afastando-se, de novo, pela segunda vez, rezou dizendo: «Meu Pai, se não é possível apartar este cálice sem que o beba, faça-se a tua vontade». 43Ao vir de novo, encontrou-os a dormir, pois os seus olhos estavam pesados. 44Deixando-os, de novo se afastou e rezou pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras. 45Então foi ter com os discípulos e disse-lhes: «Ireis dormir e descansar o resto da noite[14]? Eis que se aproxima a hora em que o Filho do Homem é entregue nas mãos dos pecadores. 46Levantai-vos! Vamos! Eis que se aproxima o que me vai entregar».


Prisão de Jesus (Mc 14,43-50; Lc 22,47-53; Jo 18,3-12) – 47Ainda Ele falava, eis que chegou Judas, um dos Doze e, com ele, uma numerosa multidão com espadas e varapaus, da parte dos chefes dos sacerdotes e anciãos do povo. 48O que o ia entregar dera-lhes um sinal, dizendo: «É aquele que eu beijar; prendei-o». 49E, indo imediatamente ter com Jesus, disse: «Salve, Rabi!», e beijou-o efusivamente[15]. 50Jesus disse-lhe: «Amigo, a que vieste?». Então, avançando, deitaram as mãos a Jesus e prenderam-no. 51E eis que um dos que estavam com Jesus estendeu a mão, puxou da sua espada e, atacando o servo do sumo-sacerdote, cortou-lhe a orelha. 52Disse-lhe, então, Jesus: «Volta a pôr a tua espada no seu lugar, pois todos os que pegam na espada, pela espada perecerão. 53Ou pensas que não posso suplicar a meu Pai e prontamente Ele poria à minha disposição mais de doze legiões de anjos? 54Como é que, então, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais é necessário que assim aconteça?». 55Naquela hora, disse Jesus às multidões: «Como se faz a um salteador, saístes com espadas e varapaus para vos apoderardes de mim. Dia após dia sentava-me no templo a ensinar, e não me prendestes! 56Porém, tudo isto aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas». Então todos os discípulos, abandonando-o, fugiram.


Jesus diante do sinédrio (Mc 14,53-65; Lc 22,54s.66-71; Jo 18,13-24) – 57Os que prenderam Jesus levaram-no a Caifás, o sumo-sacerdote, onde os doutores da lei e os anciãos se tinham reunido. 58Pedro seguia-o de longe[16], até ao pátio do sumo-sacerdote e, entrando, sentou-se com os guardas para ver o fim daquilo.

59Os chefes dos sacerdotes e todo o sinédrio procuravam um falso testemunho contra Jesus para lhe dar a morte, 60mas nenhum encontraram, apesar de se terem apresentado muitas testemunhas falsas. Finalmente, apresentaram-se duas 61que disseram: «Este afirmou: "Posso destruir o templo de Deus e em três dias edificá-lo"». 62Então o sumo-sacerdote, levantando-se, disse-lhe: «Nada respondes ao que estes testemunham contra ti?». 63Mas Jesus mantinha-se em silêncio. Então o sumo-sacerdote disse-lhe: «Conjuro-te pelo Deus vivo que nos digas se Tu és o Cristo, o Filho de Deus». 64Disse-lhe Jesus: «Tu o disseste. Ainda mais vos digo: "a partir de agora, vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poderoso[17] a vir sobre as nuvens do céu»[18].

65Então o sumo-sacerdote rasgou as suas vestes, dizendo: «Blasfemou[19]! Que necessidade temos ainda de testemunhas? Eis que agora ouvistes a blasfémia. 66Que vos parece?». Eles, respondendo, disseram: «É réu de morte!».

67Então cuspiram-lhe no rosto e deram-lhe murros, e outros esbofetearam-no, 68dizendo: «Profetiza para nós, ó Cristo! Quem é que te bateu?».


Pedro renega Jesus (Mc 14,66-72; Lc 22,55-62; Jo 18,15-18.25-27) – 69Pedro estava sentado do lado de fora, no pátio, e veio ter com ele uma jovem serva que disse: «Também tu estavas com Jesus da Galileia». 70Mas ele negou diante de todos, dizendo: «Não sei o que dizes». 71Ao sair para o portão, uma outra viu-o e disse aos que ali estavam: «Este estava com Jesus, o Nazareno!». 72E novamente negou com juramento: «Não conheço o homem!». 73Pouco depois, aproximaram-se os que ali estavam e disseram a Pedro: «É verdade que também tu és um deles, pois o teu modo de falar te denuncia[20]». 74Então ele começou a praguejar e a jurar: «Não conheço o homem!». E, imediatamente, um galo cantou. 75Pedro recordou-se, então, daquilo que Jesus dissera: «Antes que um galo cante, três vezes me negarás». E, saindo, chorou amargamente.



  1. Com esta fórmula Mt inicia uma nova secção narrativa (cf. 7,28; 11,1; 13,53; 19,1), mas com a particularidade de ser a última. Por isso as palavras de que se fala são todas, incluindo as dos outros discursos. É semelhante ao que é dito em Dt 31,1.24; 32,454s, na conclusão do discurso de Moisés, que ocupa quase todo o último livro do Pentateuco e muito dos outros quatro – como seu testamento. Também em Mt são cinco os discursos de Jesus, um legado de que Ele, na despedida final, encarrega os discípulos de divulgar, ensinando a observar tudo quanto vos ordenei (28,20).
  2. Caifás, genro de Anás, foi o Sumo-sacerdote e presidente do sinédrio nos anos 18 a 26 d.C.. O seu palácio ficava junto à muralha ocidental de Jerusalém, não longe da porta de onde começava a estrada para Jafa.
  3. Como Mc 14,3-9, Mt insere aqui a cena da unção em casa de Simão, que Jo coloca seis dias antes da Páscoa (Jo 12,1-8).
  4. A mulher da narrativa não é nomeada, mas não se deve confundir com a mulher de Lc 7,36s, nem com a Marta ou Maria de Betânia de Jo 11,5ss. As tradições são diferentes.
  5. Zc 11,12. 30 moedas de prata correspondem ao preço de um escravo (cf. Ex 21,32; Zc 11,12-13; Mc 14,11).
  6. A festa da Páscoa (hag hapesah) durava uma semana e era, na origem, uma festa de pastores que, na noite da lua cheia do primeiro mês do ano (pastoril), imolavam e comiam um cordeiro ou cabrito (cf. Ex 12,8.11.15.27; Lv 23,5-8; 2Cr 35,1-19). Foi associada, séculos depois da fixação na Palestina, à festa dos Ázimos (cf. 2Rs 23,22; Esd 6,19-22; Dt 16,1-8), os pães sem fermento (hāmēts) dos agricultores (cf. Ex 23,14-15), usados na celebração do séder judaico (ritual da celebração da ceia pascal). No tempo de Jesus começava, no início da tarde, com a imolação dos cordeiros pascais no templo de Jerusalém.
  7. Lit.: molha comigo no prato. É bem conhecida a cultura da hospitalidade judaica. A mesa compartida em família e com os amigos significava o máximo da hospitalidade. Neste sentido, a traição de Judas significa o máximo da traição: Sl 41.
  8. Este cálice será provavelmente o terceiro, de um conjunto de quatro cálices (mPes 10), correspondendo cada um a uma das quatro partes do séder haggadāh chēl pesah judaico. Este terceiro cálice é repartido antes de recitada a haggadāh (narrativa de carácter homilético e exortativo) e de se comerem os pães ázimos (ázymoi em grego, matzôt em hebraico) com as ervas amargas embebidas no molho (harōset), a que se refere a expressão põe a mão no prato. O verbo da ação de graças é eukharistéō, raro na tradução dos LXX e sempre em literatura tardia (cf. 2Mac 1,11; 12,31; Sb 18,2; Jdt 8,25; 3Mac 7,16; OdSal 14,8).
  9. Cf. Mc 14,25 nota.
  10. A ceia pascal terminava com a recitação dos Salmos do Hallel (Sl 113-118). Segundo a tradição judaica do tgNeofEx 12,42, quatro grandes acontecimentos da história da salvação terão lugar na noite da Páscoa: a criação do mundo, o enfaixamento (hā'aqedāh) de Isaac de Gn 22, o êxodo do Egito e a vinda do Messias.
  11. Zc 13,7.
  12. Getsémani (em aramaico Gat-Chamen: lagar / jardim do azeite) situa-se no chamado Jardim ou Monte das Oliveiras, sobranceiro ao vale do Cédron.
  13. Sl 42,5.12; 43,5; Jo 12,27.
  14. Lit.: dormis o resto e descansais? ou dormi o resto e descansai!. Cf. Mc 14,41 nota.
  15. O beijo, como tudo o que é humano, pode ser ambivalente. Este beijo recorda outros ósculos e outros «amigos» do AT (cf. Sl 55,12-14.20-21; 41,9; Pr 27,6; 2Rs 5,25; 2Sm 3,27; 20,8-10).
  16. Estar longe no AT é sinal de afastamento do Deus de Israel, de não proximidade com Deus (cf. Ex 40,46; 42,13; 43,19,44,13; 45,4; Is 29,10-13; 57,19; Lv 10,3; Dt 4,7; 13,8; 1Rs 8,46 = 2Cr 6,36; Is 33,13; Est 9,20; Jr 2,5; 12,2; 23,33; Js 3,4; Ez 6,12; Os 12,7; Lm 3,57; Is 58,2; Sl 119,150-151.155; Sf 3,2; Jdt 8,27; Sl 148,14; Pr 15,29; cf. Ef 2,11-22; Mt 15,8).
  17. Lit: do poder.
  18. Dn 7,13; Sl 110,1.
  19. A blasfémia era punível com a morte (cf. Lv 24,16).
  20. Lit: te faz evidente.



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